NEGÓCIOS: JOVENS TROCAM A CLT POR UMA VIDA VIAJANDO PELO MUNDONEGÓCIOS:

Em meio a um cenário econômico incerto e a profundas transformações no mercado de trabalho, um número crescente de jovens brasileiros tem tomado uma decisão que desafia o roteiro tradicional de carreira. Eles estão deixando o emprego formal para buscar experiências pelo mundo.

Esse movimento, impulsionado principalmente pela Geração Z, encontra eco na trajetória de um jovem de Campinas que decidiu trocar o caminho corporativo por uma vida ligada a viagens, idiomas e produção de conteúdo digital. Hoje ele é conhecido como Estevam Pelo Mundo, considerado o maior influencer de viagens do país e uma das principais referências em viagens e milhas para o público jovem brasileiro.

A história dele ajuda a ilustrar uma mudança de mentalidade que vem ganhando força entre recém-formados. É a ideia de que carreira, propósito e qualidade de vida não precisam mais seguir um único modelo.

UM CONFLITO GERACIONAL EM TEMPOS INCERTOS

A decisão de abandonar a estabilidade da CLT pode parecer radical, mas reflete um contexto mais amplo. A Geração Z entra no mercado de trabalho em um cenário marcado por instabilidade econômica, transformação tecnológica acelerada e acesso constante a referências globais. Pesquisas sobre juventude e trabalho indicam que muitos desses jovens valorizam cada vez mais flexibilidade, propósito e experiências internacionais.

Ao mesmo tempo, o Brasil convive há décadas com taxas de desemprego juvenil superiores à média nacional e altos índices de subemprego entre recém-formados. Nesse ambiente, o modelo tradicional que envolvia faculdade, estágio, emprego fixo e carreira linear deixou de oferecer as garantias que oferecia no passado.

”Eu cresci ouvindo que o certo era fazer faculdade, arrumar um bom emprego e ficar nele o máximo de tempo possível”, conta Estevam. “Mas quando eu finalmente sentei na cadeira do escritório, percebi que tinha feito tudo certo no papel e mesmo assim não me via naquele lugar pelos próximos trinta anos.”

DO ESCRITÓRIO ÀS VIAGENS PELO MUNDO

Nascido em Campinas e criado em uma família de classe média, Estevam seguiu inicialmente o caminho esperado. Estudou administração, fez estágio e conquistou um emprego formal. Paralelamente, mantinha um blog sobre viagens e investia no aprendizado de idiomas. O ponto de virada veio em um momento de incerteza econômica, marcado por notícias frequentes de cortes de vagas e reestruturações corporativas.

“Eu olhava em volta e pensava que se nem o emprego tradicional é tão estável assim, por que abrir mão de tudo o que eu realmente quero, como viajar, aprender idiomas e conhecer outras culturas, em troca de uma segurança que na prática não existe”, relata o influencer.

A resposta veio na forma de uma decisão difícil. Ele pediu demissão. Em vez de buscar imediatamente outro emprego de escritório, decidiu apostar nas viagens e na criação de conteúdo digital como base de sua carreira. “Não foi uma escolha romântica. Eu sabia que ia ganhar menos no começo e que teria meses apertados. Mas a sensação de construir algo meu pesou mais do que o medo de largar o crachá.”

O QUE ESSA ESCOLHA REVELA SOBRE A GERAÇÃO Z

Para especialistas em mercado de trabalho, trajetórias como a de Estevam refletem uma transformação cultural mais profunda. Para gerações anteriores, o maior risco era abandonar um emprego estável. Para muitos jovens de hoje, o risco também pode ser permanecer preso a um modelo de carreira que não oferece mobilidade, autonomia ou propósito.

Quando um jovem do interior, com formação tradicional, decide investir em uma carreira global baseada em viagens, idiomas e presença digital, ele traduz em ação um conflito vivido por muitos outros.

“Eu recebia mensagens de pessoas da minha idade dizendo que queriam fazer algo parecido, mas tinham medo”, conta Estevam. “E eu sempre digo que não precisa largar tudo de uma vez. Dá para se preparar, guardar dinheiro, aprender idiomas e construir um plano B que em algum momento pode virar plano A.”

IDIOMAS E INTERCÂMBIO COMO PORTA PARA O MUNDO

Um dos pilares dessa transição foi o investimento em idiomas e experiências internacionais. Antes de deixar o mercado corporativo, Estevam já havia feito intercâmbio e estudado línguas estrangeiras, algo que mais tarde se tornaria um diferencial competitivo. “Aprender idiomas foi o que abriu o mundo para mim, literalmente.”

Com o tempo, ele passou a produzir conteúdo sobre aviação, programas de milhagem, bastidores de aeroportos e experiências internacionais, conectando o público brasileiro ao universo das viagens globais. “Eu não deixei de ser administrador. Eu só troquei a empresa. Hoje a empresa sou eu e os projetos que a gente cria. A diferença é que, muitas vezes, o meu escritório é um aeroporto.”

O impacto de novas referências de sucesso. Embora histórias como essa não sejam replicáveis para todos, especialmente em um país marcado por desigualdades econômicas, elas têm um impacto simbólico importante. Um criador de conteúdo vindo do interior que se torna referência em um setor globalizado ajuda a ampliar o horizonte de jovens que antes não se viam nesses espaços.

Além disso, esses criadores acabam funcionando como uma espécie de guia para quem sonha em conhecer outros países, mas não sabe por onde começar. Para parte da nova geração, o sucesso passa a incluir autonomia de tempo, mobilidade internacional, domínio de idiomas e experiências culturais, indo muito além de cargo ou salário.

Quando alguém me diz que começou a estudar idiomas ou a planejar uma viagem porque viu um vídeo meu, eu entendo que não é só sobre viajar, diz Estevam. É sobre mostrar que o mundo pode ser acessível para muito mais gente.

ENTRE INSPIRAÇÃO E RESPONSABILIDADE

Especialistas alertam que trajetórias como essa não devem ser romantizadas. Nem todos os jovens têm as mesmas oportunidades ou condições financeiras para fazer uma transição desse tipo. Histórias assim mostram novas possibilidades, mas não substituem políticas públicas de educação, emprego e mobilidade social.

O próprio Estevam faz questão de reforçar essa visão. “Eu nunca digo para alguém simplesmente largar tudo. O que eu defendo é que as pessoas não coloquem todos os sonhos na gaveta por medo.”

UMA GERAÇÃO QUE QUER CARREIRA E MUNDO AO MESMO TEMPO

Para as empresas, o comportamento da Geração Z representa um desafio crescente. Modelos de trabalho mais flexíveis, programas de intercâmbio, experiências internacionais e equilíbrio entre vida pessoal e profissional começam a ganhar peso na disputa por talentos.

Ao mesmo tempo, setores como turismo, educação internacional e criação de conteúdo digital se beneficiam dessa nova mentalidade. “Eu acho que o grande recado da minha geração é que a gente não quer escolher entre carreira e conhecer o mundo”, resume Estevam. A gente quer encontrar maneiras de fazer as duas coisas ao mesmo tempo.

No fim, a história do jovem administrador de Campinas que trocou o crachá pela passagem aérea não responde sozinha ao dilema de uma geração inteira. Mas ela lança uma pergunta cada vez mais presente entre jovens brasileiros.

Se o futuro é incerto de qualquer forma, faz sentido continuar preso a um caminho que não tem nada a ver com quem você é ou com o mundo que você quer conhecer?