
Texto Ricardo Cota / Fotos Vinícius Ziehe
Aprender fazendo. Este é seu lema. Jornalista, leiloeiro, marchand, curador e produtor cultural, Alexei Waichenberg é um incansável produtor e admirador da arte e da cultura, onde quer que ela esteja. Pode tanto abrir galerias no Rio de Janeiro ou em Santa Catarina quanto ocupar as salas de cinema de Los Angeles ou Lisboa com os filmes que produz. Desconhece fronteiras. Seu lar é o mundo, por onde se movimenta aprendendo e fazendo na mesma intensidade. Apaixonado por música, artes plásticas, dança e cinema, divide-se entre vernissages e o seu mais novo xodó: a Casa Cine Brasil, um espaço itinerante de promoção do cinema brasileiro em festivais internacionais. No bate-papo a seguir, Alexei fala de projetos realizados e dos ainda a realizar. Sempre apoiado em sua linha-mestra: a de aprender fazendo.
Viver é uma arte? Totalmente. Acho que viver é o exercício mais criativo que existe. Todo dia é uma chance de improvisar, de aprender e de tentar fazer algo bonito — mesmo que seja um café ou uma feijoada, benfeitos. A arte está no modo como a gente olha para as coisas, no que a gente transforma. Para mim, viver é estar sempre em movimento, curioso, aprendendo e fazendo.
Recentemente, você inaugurou uma galeria no Balneário Camboriú, em Santa Catarina. De norte a sul, de leste a oeste, como tem sido o movimento das artes plásticas no Brasil? O Brasil vive um momento interessante. Depois de um tempo longo de retração, o público está voltando a circular, a comprar, a se interessar. A nova geração de colecionadores tem um olhar mais aberto — mistura o design brasileiro com a arte contemporânea, sem hierarquias. E o legal é que as galerias estão se espalhando: não é mais só Rio e São Paulo. Balneário, Recife, Goiânia… cada lugar tem seu pulso.
Há espaço para novos artistas? Tem — e precisa ter cada vez mais. O que falta, às vezes, é estrutura pra que esses artistas consigam circular, expor, vender. Por isso, gosto da ideia de criar pontes: misturar nomes consagrados com novos, colocar todo mundo no mesmo ambiente. É assim que as coisas se renovam.
Estabelecer conexões artísticas entre o Brasil e o mundo tem sido uma de suas missões. É fácil promover o Brasil no exterior? Não é fácil, mas é muito prazeroso. O Brasil ainda é visto como um lugar de energia criativa muito forte, mas com pouca estrutura de exportação cultural, de distribuição. Quando a gente leva um filme ou uma exposição lá fora e vê o impacto que causa, é um orgulho enorme. O mundo quer o Brasil — mas o Brasil precisa se organizar para se apresentar melhor.

Em termos de audiovisual, o Brasil tem se destacado fortemente. Nosso cinema acaba de ganhar o primeiro Oscar, além de prêmios em Berlim e Cannes. Você é produtor de curtas que estão pelo mundo. Qual a sua impressão deste momento? É um momento bonito. O cinema brasileiro sempre foi potente, mas agora está sendo ouvido de outra forma. Nossa produção tem qualidade e, no último ano, alcançou o merecido reconhecimento. Os curtas, em especial, viraram uma janela importante — revelam talentos, testam linguagens, abrem caminhos. E é lindo ver o público internacional descobrindo essa nova geração de diretores e diretoras. Tem uma ousadia no ar.
O que é a Casa Cine Brasil? A Casa Cine Brasil é um espaço afetivo, de acolhimento. É uma produtora, mas também uma casa simbólica, itinerante, que representa o cinema brasileiro em festivais e encontros pelo mundo. É um ponto de encontro — um lugar de conversa, de exibição, de troca. A ideia é mostrar o cinema como parte da nossa cultura viva, e não só como produto audiovisual.
É verdade que Wagner Moura ganhou um novo concorrente como ator, depois de sua estreia no curta Jaz, de Liza Gomes? (risos) Olha, foi uma brincadeira deliciosa! A Liza é uma diretora incrível, e eu entrei na história mais para viabilizar a produção do que por vocação. O roteiro é meu e eu entrei pra substituir um ator que, na véspera das filmagens, teve um compromisso inesperado. Liza me desafiou e eu chamei o Roumer Cañaes para ser meu coach. Confesso que foi divertido — e agora entendo melhor o trabalho dos atores. Não sei se ganho do Wagner Moura, mas pelo menos aprendi a respeitar mais o ofício dele!
Vale a pena investir em arte no Brasil? O que ainda se está por fazer? Vale muito. A arte é uma das poucas coisas que realmente ficam. O problema é que ainda se enxerga arte como luxo, e não como cultura, como valor simbólico e social. Tem muita coisa para fazer: educação estética, formação de público, políticas culturais mais estáveis. Mas, mesmo assim, quem aposta na arte aqui, acaba encontrando uma força que é só nossa.
PINGUE-PONGUE
Um filme: O Céu de Suely, de Karim Aïnouz.
Um livro: Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa — sempre novo, sempre misterioso.
Uma canção: Até Pensei, de Chico Buarque, mas cantado em dueto com a Nana Caymmi.
Uma referência: Lina Bo Bardi.
Um lugar: Qualquer um onde eu possa aprender fazendo.
*Ricardo Cota é jornalista, escritor, crítico de cinema e curador de festivais internacionais e da Casa Cine Brasil.


