Ali viveu 74 anos. Um lutador ao mesmo tempo que um pacifista e humanista – sete décadas e meia de lutas ininterruptas. Ali disse não à pobreza, não ao racismo, não aos limites do esporte, não à guerra do Vietnã, não às federações de boxe, não ao próprio nome de batismo, para poder dizer sim para si e os seus. Sua história se confunde com a história do século 20, e sua vida, dentro ou fora dos ringues, foi do tamanho do mundo. Nenhum outro atleta personificou melhor seu tempo, seu contexto e seus sonhos do que Muhammad Ali, o maior lutador de boxe de todos os tempos, uma das maiores personalidades do século. Ali completaria 80 anos nesta segunda-feira (17) se não tivesse morrido em 3 de junho de 2016. Suas vitórias e sua importância na história são tão grandes quanto sua força em mudar muita coisa que estava errado na sua época. Mas vamos nos deter aqui numa foto histórica, aliás, numa capa histórica e uma das mais clássicas de todos os tempos. A capa da revista americana Esquire de abril de 1968.

Porém, Ali não se calou: começou a fazer discursos em escolas, rádios e TVs, colocando pra fora tudo que acreditava que era errado não só naquela guerra, mas na sociedade americana. Na visão daqueles jornalistas, Muhammad Ali era um mártir. “E quem é um mártir? São Sebastião é um mártir”, disse Carl Fischer, fotógrafo da revista Esquire na época.

SÃO SEBASTIÃO E A GUERRA

São Sebastião, para quem não sabe, era um cristão que, de acordo com a lenda, se alistou no exército do Império Romano. Porém, se viu obrigado a matar outros cristãos e, ao ser benevolente com eles, acabou condenado à morte por flechas pelo Imperador Diocleciano. Com o corpo fatalmente ferido, Sebastião foi jogado no rio apenas para ser encontrado por Santa Irene, que cuidou das feridas do soldado. 

Recuperado, Sebastião não baixou a cabeça e voltou até Diocleciano para enfrentá-lo, sendo mais uma vez condenado à morte – agora por espancamento. Nessa segunda vez, São Sebastião não resistiu, mas esta história foi o suficiente para atravessar séculos, transformando o soldado em um mártir da luta dos cristãos e sendo representado por toda a Idade Média em quadros no qual aparecia com o corpo cravejado de flechas.

ALI NA CAPA

E foi assim que Fischer quis representar Ali: como um boxeador negro, que mesmo sendo condenado à morte pública, não se calou. Continuava expondo seu corpo, agora cheio de flechas. Só que São Sebastião era um santo cristão.

“Eu sou um muçulmano agora”, disse Ali ao fotógrafo quando soube qual era a ideia da capa da revista. Para resolver a questão, o fotógrafo ligou diretamente para Herbert Muhammad, filho do líder religioso que Ali seguia, Elijah Muhammad. “Ah, isso é uma boa publicidade. Pode falar pra ele que ele pode fazer”. E assim foi publicada a edição de Abril de 1968 da revista Esquire, com uma das mais icônicas imagens da cultura pop – um reflexo daquela década, que trouxe a coragem de unir, em uma só foto, contraversão, religião, política, esporte e cultura para criticar tudo aquilo que havia de errado na sociedade.

Fonte: Judão / Renan Martins Frade – Hypeness / Vitor Paiva