BEBIDA: O HOMEM QUE ENGARRAFOU O TEMPO

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Por Carlos Henrique

Fotos Vinícius Alencar

Há coleções que nascem de um plano. Outras, mais raras, começam como um impulso quase distraído e, sem pedir licença, tornam-se destino. A de José Luiz Bringueti pertence a essa segunda categoria e talvez resida aí o seu fascínio mais profundo. Nada, a princípio, indicava grandeza. Um empresário de olhar atento e gosto apurado decidiu apenas abastecer melhor o próprio bar. Queria variedade, contraste, repertório. Comparar rótulos, entender estilos, preencher o balcão com possibilidades. Não havia manifesto, tampouco ambição de recorde. Apenas o gesto simples de quem compra “algumas” garrafas. O restante seguiu o curso natural das obsessões bem-sucedidas: cresceu, ganhou corpo e, em silêncio, saiu do controle.

Em poucos anos, o que era escolha tornou-se acúmulo; o acúmulo, método; e o método, legado. Dois anos bastaram para que o espaço inicial se tornasse insuficiente. Faltava lugar, sobrava vontade. Assim nasceu a chamada Catedral do Whisky, não como símbolo de ostentação, mas como resposta prática a uma pergunta quase filosófica: onde guardar o tempo quando ele se apresenta engarrafado? O que começou como um conjunto de rótulos transformou-se em acervo. O hobby encontrou seu destino. E Bringueti, sem jamais perseguir os holofotes, tornou-se o detentor da maior coleção particular de whisky do mundo.

Em Itatiba, no interior paulista, essa história ganha cenário. A propriedade, envolta por vegetação abundante, parece menos construída do que revelada. O verde não apenas cerca a casa: protege, emoldura, quase a oculta. Há caminhos de pedra, árvores altas e uma quietude que se impõe como presença. Do lado de fora, um alambique de cobre repousa como uma escultura industrial esquecida pelo tempo, ou talvez deixada ali por algum deus indulgente do malte. Antes mesmo de qualquer garrafa, compreende-se que não se trata apenas de um endereço, mas de uma atmosfera.

E há, nesse conjunto, uma ironia elegante. Em uma era em que colecionar frequentemente significa exibir, aqui prevalece o oposto. A coleção não se oferece ao público. Não há visitas regulares, bilheteria ou vitrines. A casa permanece, acima de tudo, casa. Bringueti recebe poucos, preserva a intimidade, controla o acesso. Há fortunas que fazem questão de serem vistas; esta, curiosamente, prefere ser descoberta.

NÚMEROS QUE IMPRESSIONAM

Os números impressionam, mas não explicam. São mais de 15 mil garrafas e cerca de 10 mil miniaturas. Ainda assim, a essência não está na quantidade, mas na densidade. Trata-se de uma coleção construída com continuidade, curiosidade e rigor. Cada peça funciona como um fragmento de tempo, uma memória líquida que resiste ao esquecimento. O percurso começa na garagem, o que por si só já carrega uma ironia silenciosa. Onde se esperaria o banal, encontra-se o extraordinário. Milhares de garrafas de porcelana ocupam o espaço com uma lógica que escapa ao olhar apressado. A umidade contribui para a preservação, enquanto a porcelana protege o conteúdo do desgaste do tempo. O aparente caos revela, na verdade, uma organização meticulosa.

Ali já se percebe uma das qualidades mais raras do acervo: sua recusa ao óbvio. Estão presentes nomes consagrados como Macallan, Port Ellen, Chivas Regal, Johnnie Walker e Talisker. Mas convivem com eles rótulos esquecidos, garrafas populares de mais de meio século, exemplares de uma era anterior ao código de barras. Um tempo em que o whisky ainda carregava algo de artesanal até mesmo em seu anonimato. A coleção não reverencia apenas o prestígio; ela o questiona. Dentro da casa, a narrativa se expande. A arquitetura equilibra rusticidade e sofisticação com naturalidade. Tijolos aparentes, madeira, amplas aberturas para o verde. Um lustre monumental marca o espaço com presença quase cênica. Máscaras, vitrais e objetos decorativos compõem um ambiente onde estética e conteúdo dialogam sem esforço.

PAIXÃO POR COLEÇÃO

As digressões, longe de dispersar, aprofundam o sentido do conjunto. Mais de 10 mil lápis publicitários das décadas de 1950 e 1960 evocam um tempo em que o marketing se insinuava com delicadeza. Xícaras de café adquiridas diretamente de produtores sugerem que até o cotidiano merece origem e narrativa. Bringueti não coleciona objetos. Coleciona contextos. A sala das garrafas figurativas talvez seja o exemplo mais eloquente. Cerca de 800 peças em formas de caminhões, aviões, personagens históricos e figuras da cultura popular compõem um universo onde o whisky dialoga com o lúdico e o inesperado. No centro, uma mesa de xadrez monumental, cujas peças são garrafas, sintetiza a tensão entre estratégia e tentação.

José Luiz Bringueti

Em outro ambiente, a imersão na Jack Daniel’s revela como uma marca pode transcender o produto e se tornar narrativa. Garrafas raras, objetos e edições especiais, entre elas duas Sinatra Century, compõem um conjunto que parece capturar não apenas um destilado, mas uma atmosfera cultural inteira. E é no bar, origem de tudo, que a história encontra sua forma mais viva. O espaço, com inspiração de pub europeu reinterpretado sob sensibilidade brasileira, combina madeira escura, iluminação âmbar e amplitude arquitetônica. A hospitalidade não é detalhe, mas estrutura. Café, pão de queijo, bolo de mandioca, refeições preparadas em forno a lenha. Tudo ali convida à permanência. No mezanino, novas camadas se revelam. Mais de 300 garrafas de whisky japonês evocam o legado de Masataka Taketsuru, responsável por transpor a tradição escocesa para outro território cultural. Ao lado, peças da linha Kingsware da Royal Doulton transformam cerâmica em expressão artística.

E ENTÃO, INEVITAVELMENTE, CHEGA-SE À CATEDRAL

O aviso na entrada, nascido de um acidente com um raríssimo Macallan Lalique de 62 anos, introduz o visitante com humor e precisão. Lá dentro, a escala impressiona. Milhares de garrafas organizam-se como uma paisagem contínua. Rótulos históricos, edições raras, exemplares com mais de cinquenta anos. Entre eles, mais de 700 garrafas brasileiras, incluindo relíquias da Antarctica das décadas de 1930, revelando um capítulo frequentemente negligenciado.

A coleção ganha ainda mais profundidade ao incorporar linhagens provenientes de outros grandes nomes. Acervos de figuras como o Dr. Jorge Miguel e Francisco dos Santos adicionam densidade histórica, enquanto raridades como Port Ellen, Chieftain’s Choice e Old Malt Cask reforçam seu caráter quase enciclopédico. Nesse diálogo silencioso entre colecionadores, surge também a figura de Claive Vidiz, empresário paulista cuja coleção, posteriormente adquirida pela Diageo, hoje se encontra em Edimburgo, como se parte dessa história tivesse atravessado o oceano para se tornar memória institucional. Em um detalhe que beira o simbólico, Santo Onofre, intercessor contra o alcoolismo, observa o ambiente em silêncio, cercado por tentações. Uma presença que sintetiza, com elegância, a ambiguidade inerente ao universo que vigia.

E, AINDA ASSIM, A HISTÓRIA NÃO SE ENCERRA NA CONTEMPLAÇÃO

Em uma noite específica, a Catedral abriu espaço para o presente. Um encontro, realizado em parceria com a MENSCH, trouxe ao ambiente uma nova dinâmica. A degustação guiada transformou o acervo em experiência. Porque o whisky, quando narrado com precisão, deixa de ser líquido e se torna linguagem. Com o apoio da Brown-Forman, três rótulos conduziram essa travessia sensorial: Woodford Reserve, Jack Daniel’s Single Barrel e Jack Daniel’s Sinatra Select. Mais do que degustados, foram interpretados. Cada um, à sua maneira, reafirmou que o valor de uma coleção não está apenas no que se guarda, mas no que se compartilha.

Ao final, a Catedral do Whisky impressiona menos por sua escala, embora seja monumental, e mais por sua coerência. Tudo ali obedece a uma lógica contínua: curiosidade que se transforma em hábito, hábito que se transforma em acervo, acervo que, inevitavelmente, se transforma em legado. E, talvez, essa seja a sua maior sofisticação. Nunca foi apenas sobre whisky. Mas sobre tudo aquilo que acontece ao redor dele.

Assista o MENSCH EXPERIENCE que aconteceu na Catedral do Whisky: