CAPA: GUSTAVO VAZ DE “REENCARNE” PARA AS TELAS E PALCOS

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Ator, dramaturgo, escritor, diretor, artista sonoro e criador multimídia brasileiro, o carioca Gustavo Vaz, de 41 anos, é o tipo de pessoa que não consegue se acomodar. E com a cabeça à mil não procura atuar em diversas áreas ligadas às arte, em especial, a dramaturgia. Formado em artes cênicas pela Escola Técnica de Teatro Martins Penna, no Rio de Janeiro. Em 2025 completou 21 anos de carreira. E para marcar a data estreou agora em outubro na série “Reencarne” (Globoplay), que tem uma história que tem uma pegada sobrenatural, com toques de terror. Além da série, Gustavo já tem alguns outros projetos engatilhados. Ele retornou aos palcos cariocas com a segunda temporada do espetáculo “Terminal”, que tem texto dele, e já começa a filmar “Justino”, do diretor José Eduardo Belmonte. Por fim, o ator diz que já está escrevendo um novo texto de teatro, dessa vez, um monólogo.

21 anos de uma carreira que transita por várias áreas, ator, dramaturgo, escritor, diretor, artista sonoro e criador multimídia, conta como cada parte dessa foi se integrando na tua história artística. Eu venho de uma família de artistas. Meu avô foi ator nas décadas de 1940, 1950 e 1960, no Rio de Janeiro, integrante de um grupo importantíssimo para o teatro brasileiro, Os Comediantes. Minha mãe também tinha forte vocação artística — desenhava, escrevia — mas foi impedida pelo meu avô, muito conservador, de seguir carreira por acreditar que o palco não era lugar para mulheres. De certa forma, sinto que concretizei um desejo dela quando descobri que poderia, eu mesmo, trilhar esse caminho. Essa percepção surgiu ainda na escola, quando fui escolhido para ser o orador da minha turma de formatura. Escrevi um texto poético e bem-humorado sobre nossa trajetória e a reação efusivas das pessoas me marcou profundamente. Ali, experimentei pela primeira vez essa espécie de magia que existe quando alguém ocupa um palco e efetivamente se comunica com uma plateia.

Pouco depois, motivada pelo meu interesse em estudar teatro, uma das minhas avós — que sempre buscava experiências gratuitas e oportunidades acessíveis pela cidade — encontrou a Escola de Teatro Martins Penna, no Rio de Janeiro. Me deparei com uma instituição histórica, crucial para a formação de atores no país. Foi ali, guiado por professores extraordinários, que começaram meus estudos formais e que compreendi, de fato, que este seria o meu ofício. Quando me formei, percebi que seria difícil estabelecer minha carreira no Rio naquele momento. São Paulo começou a se apresentar como possibilidade. Fui selecionado para um estágio no Teatro da Vertigem, durante a montagem de BR3, realizada dentro do Rio Tietê. Permaneci por seis meses trabalhando em produção e transitando por diferentes áreas, e na cidade conheci uma rede de artistas que seria decisiva para meus próximos passos. Pouco depois, retornei à São Paulo definitivamente.

Passei então pela Kompanhia do Centro da Terra, onde conheci Bernardo Galegale. Juntos, fundamos a ExCompanhia (à época, ExCompanhia de Teatro). Desde o início, o grupo foi guiado por uma palavra: experiência. Nosso interesse era questionar os limites da cena, expandir possibilidades de teatralidade e explorar novas relações entre linguagem, público e tecnologia. A pesquisa sonora surgiu naturalmente nesse processo. Descobrimos um microfone binaural e, a partir dali, o som tornou-se um eixo de investigação: criamos um aplicativo com áudio 3D e grafite digital que funcionava também como mediação com bibliotecas públicas, uma série para o GShow inteiramente em primeira pessoa e em áudio binaural, além de experiências imersivas de longa duração usando redes sociais como espaço cênico, entre outros projetos. A ExCompanhia transformou-se em um laboratório expandido e híbrido, e foi nesse ambiente que me formei como criador multimídia.

Dentro do grupo, assumi também a dramaturgia dos trabalhos, o que despertou em mim o desejo de escrever em formatos mais longos, capazes de aprofundar personagens e conflitos com outra temporalidade. Assim nasceu meu primeiro romance, Como Não Morrer de Uma Só Vez, publicado em 2023. Desde então, a escrita tem ocupado um lugar cada vez mais presente e instigante na minha trajetória. Recentemente, escrevi também meu primeiro texto para palco italiano, o espetáculo Terminal.

A direção surgiu de forma igualmente orgânica. Não sou e nunca me considerei um diretor tradicional de teatro, mas dentro da ExCompanhia passei a dividir esse espaço de elaboração estética e condução criativa. No encontro com trabalhos multimídia, imersivos e sonoros, fui desenvolvendo prazer, rigor e um olhar atento para as escolhas, os caminhos e as formas possíveis de construir uma obra. No fim das contas, todas essas camadas — atuação, dramaturgia, literatura, direção, arte sonora e criação multimídia — não se apresentam separadamente na minha trajetória. São partes que se entrelaçam, se alimentam e se deslocam conforme as perguntas que faço e conforme o que cada obra exige. Sempre fui movido por uma curiosidade profunda e por um impulso de construção: de mundos, de sentidos, de experiências possíveis.

Conta pra gente a história da ExCompanhia que completou 13 anos e tem apresentações em vários países. A ExCompanhia surgiu em 2012, a partir do meu encontro com Bernardo Galegale, e nasceu de um desejo comum: explorar o teatro e suas potencialidades a partir da ideia de experiência — uma experiência que não é apenas informativa, mas sensorial, afetiva e transformadora. Desde o início, entendemos que a experiência produz um tipo de saber distinto daquele que nasce apenas da informação; ela convoca o corpo, a escuta, a percepção, o tempo, e cria vinculações profundas entre obra e espectador.

Por isso, o público ocupa um lugar central no nosso processo. Em muitas de nossas criações, o espectador se torna personagem ou parte integrante da dramaturgia. Nas obras de caráter mais imersivo, desenvolvemos experiências destinadas a poucas pessoas por vez, buscando construir vivências singulares, quase exclusivas — como se cada obra acontecesse de maneira única para cada corpo presente. É uma radicalização da ideia de singularidade da experiência artística. Desde o começo, também existe um desejo de olhar para o contemporâneo, para o espírito do tempo, para o nosso zeitgeist. Tentamos traduzir, em nossas obras, as angústias, tensões e contradições da época em que vivemos. Isso, inevitavelmente, nos levou à investigação da tecnologia: sua onipresença, suas potências e seus danos, e como ela tem transformado não apenas as relações humanas, mas a própria noção de humanidade. Em maior ou menor grau, todos os nossos trabalhos atravessam essa reflexão.

A ExCompanhia também se interessa profundamente por dramaturgias site-specific. Criamos obras que dialogam diretamente com os lugares onde acontecem — espaços que deixam de ser meros cenários e passam a ser matéria dramatúrgica, personagens, atmosferas físicas da narrativa. O espaço é parte constitutiva da obra. Ao longo de sua trajetória, o grupo apresentou trabalhos em diversas cidades brasileiras e em outros países, como Portugal, Alemanha, Suíça e Montenegro — onde recebemos um prêmio internacional de dramaturgia pela experiência Frequência Ausente 19Hz. Esse trânsito internacional reforçou para nós a potência das nossas investigações e a relevância de discutir, em cena, temas que atravessam de forma global a subjetividade contemporânea.

A ExCompanhia segue como um espaço de pesquisa das artes da cena, dialogando com outras linguagens, mas, neste momento, voltando-se especialmente para o teatro. Acreditamos que existe algo profundamente necessário nessa coletividade do encontro presencial — um gesto que resiste a um mundo cada vez mais atomizado, individualista e esvaziado de sentido, onde o neoliberalismo e o fascismo vêm produzindo rupturas e descrença no outro. Nos próximos anos, o desejo do grupo é se organizar ainda mais para ampliar o alcance das obras, das pesquisas e das experiências, consolidando-se como um espaço fundamental de dramaturgia, pensamento e prática cênica contemporânea na cidade de São Paulo e no Brasil.

Em 2017 você venceu os mais importantes prêmios de teatro do Brasil como Melhor Ator no Prêmio Shell e no Prêmio Cesgranrio e Melhor Ator Coadjuvante no Prêmio Botequim Cultural e no Prêmio Cenym pelo espetáculo Tom na Fazenda. Qual a importância desses prêmios para você? Eles são uma busca ou uma consequência? Receber o Prêmio Shell foi uma honra imensa. Trata-se do prêmio mais importante do teatro brasileiro, conquistado por pouquíssimos atores e atrizes ao longo da história, nomes gigantescos que ajudaram a moldar a nossa cena. Estar ao lado deles é algo que ainda hoje me comove profundamente. Os demais prêmios que Tom na Fazenda trouxe — Cesgranrio, Botequim Cultural, Cenym — também funcionaram para mim como confirmações silenciosas de que eu estava fazendo escolhas consistentes, alinhadas com um senso de propósito e de relevância artística. Eram sinais, naquele momento, de que eu estava no lugar em que deveria estar.

Mas junto da alegria veio também um sentimento de responsabilidade. Lembro que, na época, a ideia de corresponder a uma expectativa externa e interna — essa definição de “melhor ator” — foi um pouco desconfortável. Hoje, porém, olho para isso com enorme orgulho. Meu nome está registrado, de alguma forma, na longa história do teatro brasileiro. Ainda assim, guardo isso como uma boa lembrança, porque a vida acontece no presente. Agora, tenho outros desafios: um novo espetáculo para viver, Terminal, projetos de audiovisual em andamento e caminhos que se abrem constantemente.

Não acredito que os prêmios sejam uma busca. É claro que, quando eles acontecem, ajudam a comunicar nosso trabalho para mais pessoas, a abrir portas que talvez demorassem mais a serem encontradas. Mas não resolvem a complexidade que é construir uma carreira artística no Brasil. Eles acontecem como consequência — e não como objetivo — de um percurso longo, às vezes árduo, feito de muitas escolhas, muitos encontros e uma dose considerável do imponderável. Nada é matemático nesse processo. O que sigo buscando são obras que comuniquem, questionem estruturas, provoquem movimento interno e externo — e que mantenham viva alguma utopia num tempo em que sonhar tem se tornado cada vez mais difícil.

Você tem uma lista grande em atuações no cinema, além de TV, streeming e teatro, como é atuar em linguagens diferentes e como costuma se preparar para cada uma? Já acreditei em diferentes tipos de processo ao longo da minha carreira, mas hoje, depois de 21 anos de trabalho e também em função de transformações pessoais, passei a escutar minha intuição com muito mais atenção. Embora muitas vezes eu ainda precise lutar contra o impulso de racionalizar excessivamente, meu processo atual se baseia sobretudo em uma busca intuitiva pelos personagens: percebo pequenos insights sobre a cena e tento explorá-los de maneira igualmente intuitiva, permitindo que algo vivo e inesperado surja dali. Continuo sendo — e acredito que sempre serei — um artista movido pela pesquisa. Gosto da teoria, de realizar pesquisas de campo e mergulhar profundamente nos universos que estou prestes a habitar, seja como ator, dramaturgo, diretor ou criador multimídia. Mas hoje a pesquisa ocupa um lugar diferente no meu processo. Ela funciona mais como um gatilho provocador, uma estrutura de apoio que me oferece segurança até certo ponto, para que depois eu possa abrir mão dela e permitir que a intuição assuma o primeiro plano.

O mesmo vale para a técnica de atuação: ela é fundamental, mas não pode aprisionar. Tenho buscado aceitar o erro com mais leveza, aceitar o não saber, o não estar “certo”, e trabalhar a partir desse campo de coragem e liberdade que permite experimentar caminhos não óbvios e, muitas vezes, mais verdadeiros. Essa lógica vale para todas as linguagens. Claro que há diferenças de modulação — a energia do teatro, por exemplo, por vezes é distinta da energia exigida pela TV ou pelo cinema — e existem especificidades técnicas próprias de cada formato. Mas a essência permanece a mesma: uma investigação intuitiva, uma escuta fina do momento presente e o desejo de estar cada vez mais livre para que algo espontâneo, orgânico e verdadeiro aconteça.

Além de atuar você também escreve e dirige, conta um pouco dessas duas facetas e como você se comporta em cada uma delas. Como mencionei, meu trabalho como diretor aconteceu majoritariamente dentro da ExCompanhia. Minha única experiência relevante fora do grupo foi quando me tornei diretor-residente do musical O Rei Leão, da Broadway, na primeira versão brasileira apresentada no Teatro Renault, entre 2013 e 2014. Foi uma experiência muito significativa para mim, ainda que essa função, no teatro musical, seja muito mais burocrática do que propriamente criativa. Mesmo assim, aprendi enormemente. Na ExCompanhia, porém, a direção surge de outro lugar — muito mais orgânico. Como participo da criação desde os estágios mais iniciais, estou profundamente envolvido na concepção das obras: do pensamento conceitual à definição de formatos, temas e dispositivos. É uma direção que nasce já atravessada por um processo longo e intenso, e que acontece de maneira natural, quase inevitável.

Há também, dentro do grupo, um aspecto que considero essencial: cada trabalho inaugura um formato novo. Nada se repete. Isso significa que, para mim, dirigir é sempre entrar num território desconhecido, quase como partir em viagem sabendo o destino, mas não exatamente o caminho. Essa sensação de descoberta constante me interessa muito. E o fato de eu ser ator, de ter atravessado tantos processos e conflitos próprios da cena, me oferece uma escuta empática e um olhar sensível na hora de dirigir outros atores. Reconheço nossas fragilidades, os medos, as travas — e também os lugares onde a liberdade pode florescer. Já a escrita ocupa um espaço completamente distinto. Se na direção e na atuação existem limites definidos pela presença, pela partitura técnica, pela materialidade da cena, na escrita há um grau de liberdade que não encontro em nenhum outro lugar. Estar diante de uma página em branco é, ao mesmo tempo, uma dádiva e um abismo: tudo pode acontecer, e nada pode acontecer. É maravilhoso e aterrorizante na mesma medida.

Minha escrita também nasce da pesquisa — teórica, histórica, sensorial. Mas, assim como na atuação e na direção, chega um momento em que deixo o estudo descansar e permito que a intuição conduza. Escrevo muito em fluxo de pensamento, deixando que a ideia se apresente antes de ser organizada. Depois, reviso e lapido. Tento criar condições para que essa intuição siga viva no processo e não seja engessada por uma lógica excessivamente racional ou técnica.

O que é mais difícil no ato de escrever uma história e quando considera que ela está pronta para ganhar os palcos, as telas, o papel…? Tem algum rito para escrita? Começar é sempre a parte mais difícil. Depois que finalizei a pesquisa e organizei ideias, imagens, referências e insights, sinto-me diante de um caldeirão prestes a eclodir. Há uma energia acumulada, uma vontade de ir adiante, mas ainda sem total clareza sobre o estilo, sobre quem são exatamente aquelas figuras que começam a nascer, sobre as camadas de complexidade que cada personagem vai revelar. O primeiro passo, para mim, é sempre o mais desafiador. Costumo escrever alguns inícios — muitas vezes várias versões — até que, de repente, entro em um fluxo. E, quando esse fluxo se instala, ele geralmente segue até o fim, mesmo que eu precise parar, voltar, refazer trechos inteiros. O mais difícil é esse nascimento inicial.

Existe uma frase muito dita no cinema: você não termina um filme, você desiste dele. Em algum momento, é preciso parar de mexer, porque, caso contrário, a obra nunca encontra o mundo. Acho que a escrita carrega algo disso, mas também traz outra dimensão: o tempo. Esse tempo tão raro hoje, e que muitas vezes obriga a obra a estar pronta antes do que seria ideal. Em alguns casos, é a própria obra que diz quando está madura; em outros, fatores externos a obrigam a nascer. Quanto aos meus ritos, procuro sempre escrever em um lugar silencioso — o mais silencioso possível. Normalmente escrevo pela manhã, quando a cabeça ainda está fresca. Tento estabelecer metas de páginas por dia, não como uma forma de produtividade cega, mas como um modo de organizar um cronograma que dialogue com a vida pessoal e com a vida prática, e que ajude a manter a disciplina. É uma forma delicada de equilibrar essa tensão entre permitir que a intuição apareça e, ao mesmo tempo, provocá-la a surgir.

Em 2023 você lançou seu primeiro romance “Como não morrer de uma só vez”. Conta um pouco dele pra gente e sobre o processo de escrita. Como Não Morrer de Uma Só Vez narra a história de Walter Galego, um homem que se suicida e, arrependido, firma um pacto impossível, metafísico, para regressar ao início da própria existência, antes mesmo da concepção. Ele retorna ao próprio corpo sem controlá-lo plenamente, mas com a chance de, em momentos específicos, tentar alterar sua trajetória e, nesse processo, compreender quem foi e qual o sentido de sua existência. É um romance que investiga questões filosóficas e existenciais: por que estamos aqui?, o que fazemos com o tempo de vida que recebemos?, como lidamos com a experiência de existir? A narrativa atravessa o Brasil dos anos 1980 aos anos 2020, tendo o país como pano de fundo — suas transformações sociais, seus tensionamentos — mas o eixo central é o masculino.

Nessa jornada de retorno, Walter se confronta, de forma dura e inevitável, consigo mesmo e especialmente com o pai, figura que funciona como espelho e origem. Nesse embate, ele reconhece uma violência que rejeita e, simultaneamente, reproduz sem perceber. O livro é, portanto, também uma reflexão sobre consciência e ação: o narrador é uma espécie de consciência primordial de Walter, presente antes do início e acompanhando seu crescimento, como um observador íntimo que raramente consegue interferir no curso dos acontecimentos, mas que, impelido pelo desejo de se salvar, age. Quando falo de consciência, falo também de uma busca que considero urgente: a necessidade de repensar, reconstruir e ressignificar as formas de ser homem no mundo. A jornada de Walter é, de certo modo, uma jornada de recriação simbólica do masculino — e de tentativa de reconectar-se com um feminino que, na história, parece sempre ausente ou em desaparecimento ao redor desse personagem.

Sobre o processo de escrita, ele seguiu muito o que descrevi anteriormente: trata-se de um trabalho que combina pesquisa, estrutura e fluxo. Escrevi a primeira versão durante a pandemia, em cerca de três meses. Estabeleci metas diárias de páginas e criei uma espécie de escaleta — um esqueleto que orientava a narrativa. Tinha algumas decisões prévias sobre o destino das personagens, mas, conforme escrevia, elas começaram a expandir suas próprias vozes, a insinuar caminhos novos, a desviar — com uma certa autonomia misteriosa — do que eu havia planejado. Isso, para mim, é uma das experiências mais bonitas e enigmáticas da literatura: quando as personagens parecem escrever sua própria história. E foi exatamente o que aconteceu em diversos momentos ao longo do processo desse romance.

O que tem na gaveta e já prestes a dar a cara pro mundo entre teatro, TV, cinema, streeming, literatura. O que você anda aprontando? Agora estou filmando o longa Justino, dirigido por José Eduardo Belmonte, um cineasta que admiro há muito tempo e com quem sempre desejei trabalhar. No filme, interpreto um pastor evangélico, em uma narrativa inspirada no livro Nos Bastidores do Reino, de Mário Justino. A obra aborda o surgimento de uma grande igreja evangélica no Brasil e revela os bastidores de sua construção. O filme dialoga com questões cruciais sobre fé, poder e política, olhando para o passado do país para compreender o presente e, talvez, imaginar possibilidades de futuro. As filmagens acontecem em Salvador, e acredito que será um trabalho profundamente relevante. Por fim, estou desenvolvendo um novo espetáculo dentro da ExCompanhia. Será o meu primeiro monólogo, um projeto que investiga temas que têm atravessado o grupo nos últimos anos: a tecnologia, seus impactos sobre as relações humanas e, de forma central, a crise ambiental.

Atualmente você tá na minissérie Reencarne, no papel de Ricardo, pai, marido, homem zeloso com a família, mas que vê o casamento com a Bárbara, personagem da Thais Araújo naufragando. Fala um pouco do Ricardo e dessa relação pra gente. Acabei de estrear a série Reencarne, no Globoplay, onde interpreto Ricardo — companheiro de Bárbara Lopes, personagem vivida pela querida Taís Araújo, e pai de Bela, uma menina que passa a ter visões sobrenaturais enquanto a mãe se ausenta de casa devido a investigações que começam a escapar à ordem do natural. Ricardo é um homem profundamente ligado à paternidade e aos vínculos familiares, mas que se vê diante da distância emocional da esposa e da impotência de proteger a filha dessas experiências inexplicáveis. Ele encarna, de certa forma, um masculino em transformação: alguém que permanece em casa para cuidar da filha, enquanto a esposa assume um protagonismo profissional que também a conduz a lugares desconhecidos e perigosos. Foi um processo especialmente marcante porque, durante a preparação da série, descobri que me tornaria pai — algo que atravessou profundamente minha relação com o personagem. Reencarne está disponível no Globoplay e convido todos a assistirem: é uma obra que combina terror, brasilidade, diversidade de corpos e trajetórias, com uma qualidade técnica primorosa e um elenco extraordinário.

Reencarne tem um misto de horror, sobrenatural, suspense…É sua primeira experiência no gênero? Tem alguma crença no místico? Sim, Reencarne é minha primeira experiência como ator no universo do terror. Já a busca pelo sagrado e pelo místico é algo que tem se intensificado na minha vida nos últimos anos. Sempre me conectei profundamente com a vida e com a natureza por meio da poesia, da arte, da beleza — mas nunca a partir de um invólucro institucionalizado de religião. De algum tempo para cá, porém, tenho sentido a necessidade de buscar algo além disso. Acredito, sinceramente, que existem forças que ultrapassam a nossa compreensão, forças que movem o universo, fazem os corações baterem, as coisas morrerem, se transformarem e renascerem. Há uma inteligência viva, inexplicável, que sustenta esse fluxo — algo que certamente existe e que vem sendo nomeado pela humanidade de diversas formas ao longo da História.

Também acredito que essa força se manifesta de modos distintos em diferentes culturas, épocas e pessoas — e que ela existe dentro de cada um de nós, porque somos reflexo do todo, tanto quanto o todo faz parte de nós. É nesse estado, um pouco dentro dessa ‘salada’, que me encontro agora: com um desejo genuíno de estudar, visitar e conhecer diferentes tradições religiosas para ampliar a minha percepção. Mas sempre partindo da sensação de que, no fundo, tudo é uma coisa só — interligada, múltipla e continuamente reinterpretada.

Você atuou em Aruanas com Thaís Araújo, ainda assim, mesmo sendo personagens diferentes, histórias diferentes, esse “de novo” vai ajudando a criar mais cumplicidade em cena, melhorando a atuação? Fala um pouco dessa experiência. A Taís é uma dessas pessoas que, desde o primeiro momento, torna o encontro em cena muito fácil e muito divertido. Quando nos encontramos pela primeira vez, tive a sensação imediata de que já a conhecia. Existe uma tranquilidade enorme em estar num set com ela. Eu sempre digo que ela é uma atriz que, a cada take, traz um frescor e uma novidade impressionantes. Então, tanto em Aruanas quanto agora em Reencarne — onde tivemos muito mais tempo de contracena — o jogo parecia sempre disponível, vivo, desde a primeira até a última cena. Trabalhar com a Taís é sempre um grande prazer.

O que diria para quem não vê importância na arte? A arte e a cultura, no Brasil, sempre foram tratadas como algo menor. Historicamente, porém, elas são ferramentas de transformação, de construção de conhecimento e também de enriquecimento sensível da população. Em um país cuja formação está profundamente atravessada por sistemas de exploração — onde coronéis comandam regiões inteiras desde o início dos tempos e onde a estrutura social foi planejada, desde sempre, para servir à classe dominante — a arte e a cultura surgem como forças que se contrapõem a esse projeto de acumulação e de poder.

Não à toa, nos últimos anos, vimos discursos fascistas e de extrema-direita tentarem reduzir o papel do artista e da cultura na sociedade. Isso não é casual: historicamente, sempre que um governo totalitário busca se instaurar, uma de suas primeiras ações é destruir o campo cultural e silenciar artistas. Não podemos esquecer que, no Brasil recente, um presidente condenado e genocida extinguiu o Ministério da Cultura como um de seus primeiros atos e o rebaixou à secretaria. Lembremos também do discruso de um ex-ministro inspirado explicitamente na estética nazista ao propor uma ideia de “arte pura”. São sinais claríssimos de como a arte é um território de disputa — seja para impor narrativas autoritárias, seja para impedir que o pensamento crítico se desenvolva.

Vivemos também um tempo de endeusamento da informação — como se informação fosse, por si só, poder. No entanto, nesta era de hiperinformação, estamos exaustos: conectados 24 horas por dia, atravessados por estímulos constantes que invadem até nossos espaços mais íntimos — a cama, o quarto, a mesa de jantar. Deixamos de nos olhar para permanecer continuamente abastecidos de dados. E, assim, a vida enquanto experiência deixa de acontecer. Surge então uma provocação necessária: de nada adianta acumular conhecimento e informação se não houver sensibilidade para transformá-los em algo concreto e verdadeiramente benéfico para a humanidade. A arte, nesse sentido, ocupa a etapa seguinte e indispensável desse processo. Informação, isoladamente, não é poder. Poder é informação aliada a uma sensibilidade crítica, a um olhar simbólico capaz de converter dados em consciência, ética e transformação social. É exatamente aí que a arte e a cultura exercem um papel fundamental: o de traduzir o conhecimento humano em experiência sensível e, assim, contribuir para a construção de um mundo onde haja empatia, coletividade, igualdade e uma escuta profunda entre as pessoas.

Para mim, a arte é tão essencial quanto saúde e educação. O ser humano não vive apenas de alimento ou trabalho: vive também de imaginação, de beleza, de sentido. Em um cenário distópico, onde não existissem música, teatro, dança, pintura, filmes, séries, novelas, livros — onde não houvesse mais ficção, poesia, narrativa — a existência humana perderia completamente seu propósito. Porque a vida não se sustenta apenas pelo concreto, mas também pelo simbólico; não apenas pelo real, mas pelo sonho.

Acredito profundamente que, diante de um mundo cada vez mais atomizado, violento, acelerado e dominado por ideologias que glorificam o individualismo e o empreendedorismo como destino único, a arte e a cultura terão um papel fundamental na reconstrução e na reinvenção do humano. Não haverá transformação sem o artista. Não haverá novo mundo possível sem o artista. Não haverá qualquer horizonte de salvação da humanidade que não passe, de maneira radical, pela arte e pela cultura.

Fotos @caiooviedo

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