CAPA: O MULTITALENTOSO HERSON CAPRI EM AÇÃO

São mais de 50 anos de carreira, muitos personagens marcantes e diversas histórias contadas nos palcos, nos cinemas e na TV. A trajetória de Herson Capri é algo brilhante e muito bem traçada pelo destino ao ponto de você não saber bem escolher os tipos que mais gosta. Ou qual versão de Herson Capri é a mais incrível. Entre vilões e mocinhos, pessoas simples ou grandes empresários, Herson se molda, se camufla com as características daquele personagem onde cada um é único. Mas que trazem a multiplicidade desse ator talentoso, generoso e muito simples. Um homem que adora malhar e jogar xadrez nas horas vagas, que acabou de dar vida a dois personagens bem distintos, se prepara para voltar aos palcos em dose dupla. Não vou me alongar demais, o papo com Herson foi incrível e vocês precisam ler logo.

Este ano você está celebrando 50 anos de carreira e mais ativo do que nunca. Recentemente, você esteve em dois trabalhos na TV e no streaming. O que lhe provoca estar na ativa sempre? É, tenho 50 anos de carreira profissional. E antes de começar profissionalmente, eu já tinha feito oito anos de teatro colegial, amador e universitário, e esse foi o começo da minha formação como ator. Comecei com 15 anos, em 1967. Depois, fiz testes para trabalhos em teatro e, comecei profissionalmente, em 1975. Então, são 50 anos de profissão, sendo 58 anos de teatro ao todo. E agora, com 73, o que me mantém na ativa são dois pilares. Um deles, é óbvio e muito pragmático, que é o meu sustento. É o meu trabalho e com ele eu ajudei a sustentar uma família junto com as minhas respectivas esposas em três casamentos e cinco filhos, e esse é o pilar da sobrevivência. E o outro pilar, que é tão ou mais importante, é o gostar muito desse trabalho. Eu gosto muito de interpretar. É apaixonante entrar num teatro, se concentrar para fazer uma peça, ter estudado profundamente cada palavra, cada gesto, cada olhada, para contar uma história para o público. É uma sensação muito forte, muito gostosa, super interessante e prazerosa. E é arte, é artesanato. Então, esse é o segundo pilar que me provoca continuar na ativa. É o prazer, é a alegria de fazer um trabalho difícil sim, mas muito gratificante. 

Ao longo dessa trajetória heróis e vilões passaram por você em trabalhos memoráveis. Olhando para trás, se sente realizado? Que personagem ainda falta? Eu me sinto realizado, à minha maneira. Minha realização tem a ver com a alegria de ter criado meus cinco filhos e ter lhes dado uma formação bacana. E fiz isso através de um trabalho que considero especial, um trabalho artístico. Eu fico muito feliz com isso. E eu fiz trabalhos lindos com pessoas maravilhosas. Tive uma vivência profissional rica. E que personagem falta fazer? Não sei, eu já fiz tanta coisa boa que eu gostei de fazer. Fiz clássicos maravilhosos com atores e com diretores sensacionais. Trabalhei com grandes ícones da dramaturgia brasileira da TV, do cinema e do teatro. Já me sinto bem preenchido. Eu estou sempre aberto às novidades. Quando vem um trabalho que eu gosto e quero fazer, já sei que vou mergulhar nele com tudo. Quero fazer bons personagens, quero contar boas histórias, entrar em cena, estar no palco, filmar num set, quero gravar novela, ou série, e seguir sempre fazendo teatro. 

No cinema foram mais de 20 filmes, dentre eles clássicos como O Beijo da Mulher Aranha, O Guarani e A Partilha. Qual o prazer de fazer cinema? Como ele mexe com você? O Beijo da Mulher Aranha foi um filme importante pra mim, personagem difícil, um oficial nazista na época da Segunda Guerra Mundial, falado em inglês com a Sônia Braga e William Hurt, que ganhou o Oscar como melhor ator no ano e teve outras indicações. Foi muito marcante. A Partilha também foi meu primeiro contato com Miguel Falabella, ele como autor da história original, vinda de uma peça de teatro dele que circulou o Brasil inteiro com sucesso enorme. Eu acho o cinema fascinante, sempre achei desde criança, desde que eu vi os primeiros filmes. Eu acho que foi com 5, 6, 7 anos que eu comecei a ver filmes e ali eu me apaixonei por estar numa sala de cinema assistindo uma história naquela tela imensa com aquela luz, aquela vida que não tem vida, mas ao mesmo tempo tem, é muito doido, eu sempre fiquei fascinado. Na minha adolescência, a gente via os filmes de arte europeus, russos, até japoneses, os franceses e italianos naturalmente, e os ingleses. Era mais diversificado, não eram só os americanos. Mas,  os americanos, também têm filmes fantásticos. E o prazer de fazer cinema é que o trabalho vai para aquela tela enorme, é uma coisa muito intensa e mágica. O cinema sempre mexeu comigo. 

No teatro, você já atuou em diversos espetáculos como ator assim como diretor. Como cada função lhe completa nos palcos? Olha, entrar em cena me preenche, me completa. E no teatro, ter essa sensação depois de meses de trabalho em cima de um personagem para contar uma história, é excitante e arrebatador. E as luzes se acenderem, o pano se abrir finalmente, depois de muito ensaio, é uma senhora experiência! Não é a coisa egocêntrica, mas é a coisa de você contar uma história, é uma arte, é especial. E você ter na plateia as pessoas querendo conhecer essa história é uma relação muito, muito forte. Escolho com cuidado os trabalhos, com gente bacana, e tento escolher histórias que me digam alguma coisa e que eu sinto que vão atingir o público. Sobre a direção, gosto também de dirigir teatro e TV. É um trabalho diferente e gostoso porque eu não tenho o compromisso da exposição do ator nem a necessidade do decorar o texto. Na direção, eu fico do outro lado, é outra visão, todo um universo, porque são vários universos dentro de um grande universo. 

Existe um Herson diferente como ator e outro como diretor? Então, como diretor sou um, e como ator sou outro. E ao dirigir, eu consegui aplicar minha experiência de muitos anos e me senti bem. Como sou um ator dirigindo, eu tenho uma empatia especial com o elenco e vice-versa – eu os trato com muito carinho e respeito e recebo o mesmo de volta. Eu me sinto melhor em teatro, claro. Me sinto mais confortável. Mas o que me deixa pleno, em qualquer formato, é interpretar. Então, fazer uma novela como ator, embora seja bem cansativo (ficar 10 meses na pauleira, muita cena pra decorar) é um exercício maravilhoso que poucos países conseguem dar para um ator. Fazer uma novela com, sei lá, 100, 150, 200 cenas em um ano, não é tão fácil de aparecer na vida de um ator. Em novela, fazemos. De repente, você sai fazendo um número enorme de cenas, que é uma experiência fantástica, contando histórias grandes, pequenas, de todos os jeitos, comédia, drama, tragédia… É um mundo. Eu prefiro teatro porque é uma coisa mais aprofundada – você consegue ter mais domínio de si mesmo, consegue se integrar melhor. Tem mais tempo de estudo. Em novela. há muita gente envolvida. Então,  você tem que se concentrar no personagem, não sair do foco, né – para poder fazer bacana. Mas é um exercício maravilhoso fazer 15, 20, 25 cenas em um dia – como acontece muitas vezes. É um exercício desafiador para o ator, e o ator gosta de interpretar e gosta de desafios. Então, novela é importante. Cinema é uma paixão. Cinema é uma coisa maravilhosa. Mas onde eu me sinto melhor, é no teatro. 

No streaming, recentemente ,você participou de Beleza Fatal, onde seu personagem Dr. Átila Argenta era um falso moralista que tinha uma relação homoafetiva. Foi o primeiro personagem gay na sua carreira? Como encarou esse desafio e como foi a repercussão? Beleza Fatal foi um trabalho interessante, com um formato diferente. São 40 capítulos escritos por um autor premiado na literatura, Rafael Montes, e uma direção maravilhosa da Maria de Médicis, que tem duas características fantásticas, ela carrega uma duplicidade que é muita competência junto com muita alegria de dirigir, sempre com bom humor. Foi um trabalho agradável, onde todo mundo se empenhou bastante. Até por causa do momento de transformação da televisão, a chegada louca dos streamings, a retração da TV aberta e a mudança na forma dos contratos da TV Globo. E o texto é bom, a produção foi boa também, a equipe técnica afinada. Foi muito bom trabalhar nessa novela.

Átila não foi o primeiro personagem gay que eu fiz, mas foi o primeiro personagem gay em que a parte da orientação sexual era mais importante do que nos outros dois que fiz há alguns anos. Um deles foi o filme do Felipe Bragança chamado Um Animal Amarelo, no qual fiz uma participação pequena. E o outro foi uma peça chamada Caixa de Sombras, que eu fazia um “bofe” casado com um homem mais velho terminal de câncer. Isso foi em 1978! O Átila de certa forma foi o primeiro personagem gay “transante” que eu fiz. Não foi um grande desafio o fato de ele ser gay, mas foi um ótimo desafio pela complexidade do personagem. E personagem complexo é um prato cheio para o ator. A recepção do público foi calorosa e respeitosa, o Atila “causou”! Acho que desafio maior é você fazer um vilão muito cruel, assassino terrível que trai a própria esposa com a mulher do melhor amigo, que só apronta, manda matar pessoas ou mata pessoalmente. Esse sim é terrível, mexe com a gente de um jeito complicado. Fazer maldades é ruim mesmo na ficção. 

Com esse personagem você meio que mostrou ao público e crítica que é um ator sem preconceitos. Aliás, você acha que tem como ser ator e ter preconceitos? Limites? Existe algum ainda dentro de você? Ator não pode ter nenhum preconceito. Não tem sentido o preconceito guiar uma escolha. Artista preconceituoso é muito estranho. Os preconceitos estão sendo combatidos com veemência pelas melhores cabeças pensantes e há uma evolução grande no sentido contrário a qualquer preconceito. Chega a ser uma revolução paulatina das mulheres, das diversas orientações sexuais, de todas as raças, aos poucos, mas forte como um tsunami. O ator deve fazer o papel no qual ele se encaixe bem na história que vai contar que ele goste, ou se identifique de alguma forma. O importante é gostar ou não gostar do trabalho. Se não gostar, não deveria fazer. Mas é claro que todo ator já passou e muitos passam por escolhas de trabalho guiadas muito mais pela sobrevivência. E além das necessidades econômicas, o ator precisa de trabalho pra evoluir na profissão. Quanto mais trabalhos ele faz melhor ele interpreta, e aí qualquer trabalho vale! Não dá pra escolher. Eu não tenho idade pra fazer qualquer trabalho. Faço só os que quero fazer. É um privilégio. Mas já passei muito por tudo isso. 

Você tem alguma superstição antes de entrar em cena? Como é sua preparação? Acho que não tenho exatamente uma superstição para entrar em cena. Eu tenho um preparo, quase um ritual, que eu preciso muito, uma concentração total que, na verdade, começa quando eu leio o trabalho para o qual fui convidado e decido que vou aceitar. Ali começa essa concentração. E no dia de cada espetáculo, já acordo com a cabeça no trabalho que acontecerá só de noite. Faço um pouco de alongamento para o corpo ficar atento, procuro dormir bem, comer bem e passo o texto todo em voz alta. Então, é mais um ritual do que uma superstição. Televisão é uma coisa muito rápida, são várias cenas, difícil se aprofundar, não há tempo. No teatro, a gente já ensaiou muito, tem mais tempo para chegar, se concentrar, passar o texto com calma, sentir o ambiente, se lembrar do personagem. Algumas vezes, faço dez flexões antes de entrar em cena, pra equilibrar as energias, tirar um pouco do excesso das tensões que as minhas exigências comigo mesmo me trazem. 

Hoje em dia, muito se fala em etarismo. Acredita ser algo que as mulheres sofrem mais? Já percebeu isso na pele? Os velhos são desvalorizados sempre, né? Isso não tem lógica, muito menos humanidade. O que mais incomoda é a indiferença generalizada com os idosos. Em qualquer função, quanto mais velho for o trabalhador, mais experiente ele é, por isso tem mais para contribuir e ensinar aos mais jovens. Não tem sentido desprezarmos os idosos. Eu acho que as mulheres ainda sofrem mais com a questão da idade porque elas ainda têm uma outra luta difícil contra a misoginia, contra uma hierarquia de gênero burra numa sociedade machista. Mas, essa luta está rica e bonita de se ver. Chegaremos lá! Pessoalmente, fora o desgaste natural, não estou tendo problemas com a idade – por enquanto. Estou sempre trabalhando. Sorte minha! 

Qual sua maior vaidade como homem e como ator? Minha vaidade como homem é sempre tentar passar os bons valores para os meus filhos e aplicá-los no meu trabalho. Acho que consegui ter uma vida baseada nisso. Valores que levam em consideração a alteridade, o olhar para os outros, o acolhimento, a compreensão, a justiça e o afeto. Um pouco de simplicidade e humildade é bom, é saudável. 

Quem é o Herson Capri de hoje e o que deseja para o futuro? Eu me vejo como pai e ator. Fiz e faço tudo com o máximo de amor que eu conseguir. Tento trazer afeto nas relações. E o que eu desejo para o futuro, não tenho ideia. O futuro, eu espero ele chegar e o acolho do jeito que ele vier. Eu acho que eu vou curtir o meu futuro, seja ele qual for, como eu curti o meu passado, como ele foi. 

Na hora de se inspirar e recarregar as baterias, o que procura? Malhar é muito bom. Quando eu não tô muito legal, eu entro numa pilha de malhar e saio malhando feito um louco, duas, três vezes por semana. E isso me faz muito bem, mas eu sou preguiçoso – de repente, canso e paro um tempo. Aí quando eu começo a sentir necessidade e eu volto. Mas, o que mais me acalma e me relaxa é jogar xadrez. Eu brinco de jogar xadrez com o computador, só com o computador. Perco muitas partidas, a maioria, e tento ganhar e aí é um barato porque a minha cabeça sai de todos os problemas, de todas as questões. Então, quando eu jogo xadrez, parece que o mundo para. E aí eu fico mais leve. Tem outras coisas também, as leituras, né? Um livro! As leituras das novidades do dia. Gosto de saber das questões políticas. E o meu futuro é continuar na minha relação linda que eu tenho com os meus filhos, que são meus amigos, são meus confidentes. Eles trocam comigo as coisas deles, eu troco com eles as minhas coisas e isso é excelente para recarregar as baterias. 

Quais os próximos passos na carreira? Eu estou fazendo dois trabalhos em teatro ao mesmo tempo. Estou em cartaz numa peça e já estou ensaiando outra. A que eu estou apresentando agora, durante os meses de julho e agosto, é Memórias do Vinho, de Jandira Martini que a escreveu junto com Maurício Guilherme. A Jandira Martini, falecida em 2024, além de ótima atriz, foi uma dramaturga paulista que escreveu várias comédias para o teatro junto com Marcos Caruso sempre com muito sucesso. Memórias do Vinho é a última peça da Jandira Martini e foi dirigida pelo Elias Andreato, que eu gosto muito. Estou em cena junto com o Caio Blat, ótimo ator e grande parceiro de cena. É uma história muito interessante que se passa numa adega. Tem vinhos como pano de fundo e a relação entre um pai e seu filho. Eu e o Caio Blat estamos repetindo a dobradinha da novela Beleza Fatal, em que fazíamos também pai e filho, mas as questões são muito diferentes. Vai até 31 de agosto no Teatro Renaissence, em São Paulo, aos sábados e domingos. 

E ao mesmo tempo estou ensaiando outra peça para estrear em setembro, no Teatro Vanucci, no Rio de Janeiro: A Sabedoria dos Pais. Que é uma peça escrita e dirigida pelo Miguel Falabella. No palco, a Natália do Vale e eu. É uma comedia sobre um casal que está junto há 35 anos e se divorcia. É o pós-divórcio do casal. Estou bem feliz com esse trabalho. Natália é ótima atriz, divertida e carismática. E o Miguel é o Falabella! Ator, autor, diretor, produtor, sempre em alto nível. Uma honra ser dirigido por ele em um texto que acabou de escrever para a Natália e pra mim! E ainda temos a colaboração preciosa do premiadíssimo Edwin Luisi como assistente de direção. Muito chique. 

Fotos Nanda Araújo 

Produção executiva e styling Samantha Szczerb

Agradecimentos: Angelo Bertoni, Amil Confecções, Democrata e Oficina