Na minha época, não tinha essa de conversar com os pais, de boa, sobre sexo. Nada de aulas na escola ou de pesquisas na Internet. O que eu aprendi sobre o assunto na minha adolescência veio dos filmes americanos de final dos anos 80 e começo dos 90. Baseado neles, eu fiquei achando que transar só acontecia entre homens e mulheres, que tinha que ser escondido, que era meio que um prêmio dado pela mulher e sua falta, uma punição para o homem (“Pois vá dormir no sofá e nada de sexo por uma semana, Jake!”), que dava amnésia (“Meu Deus, Terry! Você foi até o fim ontem? Você foi até o fim, não foi?!”), que envolvia, quase sempre, ficar pelado em uma cama, que universitários faziam isso o tempo todo, que era preciso encerrar o ato com um cigarro (para mim, o aspecto mais preocupante da coisa, já que sempre detestei o fumo e morria de medo de morrer virgem por causa disso) e que quase sempre só era bom para o homem. As dúvidas eram tantas, que acabei postergando minha primeira vez em alguns anos. Tinha medo de, na hora do vamos ver, não saber bem o que fazer (“Não, Fred, isso aí é o meu umbigo”) ou acabar machucando alguém (“Arrrrrgh, você deslocou meu clitóris! Me leve a um hospital, temos que mandar engessar!”).

 

Mesmo com a falta crônica de informação, as conversas com os amigos e o inescapável instinto masculino quase sempre acabavam compensando. Das poucas certezas que eu tinha, uma delas era que sexo envolvia, de alguma forma, meu pinto. E ele parecia, quase o tempo todo, ter vida própria. Quando o homem é jovem, basta uma brisa mais forte que a bilola se manifesta. A coisa é tão sensível que pegar ônibus lotado, só mesmo escudando a braguilha com um caderno de 38 matérias ou você pode acabar cegando alguém e ser convidado, aos murros, a descer do coletivo. Se para as mulheres é bem mais fácil disfarçar excitação – basta, no máximo, um sutiã reforçado -, para os homens, especialmente os meninos, é preciso praticar um autocontrole budista no dia a dia. A professora se abaixou para verificar a tarefa e encostou o peito no seu ombro? Pitoca dura. Aula mista de educação física com meninas de shortinho? Pitoca dura. Abraço de aniversário da prima? Pitoca dura. Transformação da Princesa Adora em She-Ra, de minissaia e tudo mais? Pitoca quase quebrando a tela da TV. Seu amigo aponta para uma nuvem que tem uma forma vagamente feminina? Nem comento. Tentando controlar a chibata, adquiri o hábito de, nesses momentos, imaginar a minha avó vestida com o biquíni dourado da princesa Léia. Até hoje tenho dificuldade em abraçar a velhinha.

Ao menos nessa questão, o mulherio sempre teve larga vantagem. Enquanto os homens gaguejam, suam frio, tropeçam nos próprios pés e precisam usar os cintos para disfarçar a ereção que surge nas horas mais impróprias (“Fred! Respeite o funeral da sua tia, menino!”), as garotas estão sempre lá, majestosas, indiferentes, rindo do macho desengonçado que mal consegue controlar o próprio corpo, provocando o imaginário masculino com um andar, um gesto distraído, uma caneta entre os lábios, um rabo-de-cavalo apressado, um toque desinteressado, um sorriso se espalhando a partir dos olhos. Até que chega aquele momento mágico no qual ela, ela sim, de verdade, passa a te perceber, a te enxergar de um jeito diferente, a ficar vermelha sem precisar passar blush e a respirar apressadamente quando você chega perto, seios subindo e descendo na cadência do seu coração. Chega a vez dela finalmente perder o controle. E por sua causa.

E é aí, meu velho, que você descobre exatamente o quanto um homem pode ser sortudo.