Completando 40 anos em 2021, o ator Vandré Silveira vive um momento ótimo em sua carreira, afinal são 20 anos dedicados às Artes com personagens marcantes, e bem diferentes, na TV, no Teatro e no Cinema. Ainda em 2021, a partir de 12 de dezembro, ele poderá ser visto como o caminhoneiro Eurípedes na série ‘Amor dos Outros’, que será exibida pelo CineBrasilTV.  Em 2022, o ator fará o seu primeiro protagonista, o fazendeiro e comerciante Simplício Dias da Silva, figura histórica, na série ‘Jenipapo – A Fronteira da independência’. Ambas são produções da Framme Produções com direção de Alexandre Mello. O ator fez um ensaio exclusivo para a MENSCH. Nos intervalos dos cliques, feitos pelos fotógrafos Oseias Barbosa e Rebecca Wesolowski, Vandré falou sobre carreira, personagens marcantes, estilo de vida, fama de sex symbol e sobre novos trabalhos na TV e no Teatro.

São 20 anos de carreira. Como você se sente ao olhar o caminho que você traçou? Sinto orgulho da minha trajetória profissional. A carreira do ator é instável e infelizmente vemos um crescente desmonte no setor cultural. Mas fazer arte é resistir. Durante estes 20 anos, com trabalhos no Teatro, na TV e no Cinema sempre busquei escolher personagens em que pudesse expressar não só minha subjetividade, como também colocar uma lente de aumento sobre questões humanas que nos sãos essenciais e assim possibilitar reflexão e mudança em nossas atitudes e comportamentos, em prol de um mundo com maior tolerância e respeito. 

Com 40 anos, você exibe uma ótima forma e arranca elogios do público. Tem alguma rotina de alimentação e exercícios? Malho cinco vezes por semana. E também costumo correr. Para mim é uma terapia. Para além da questão estética, os exercícios físicos trazem um bem-estar e ajudam a ter uma vida mais saudável. Me alimento bem. Evito frituras e não bebo refrigerantes. Mas não me privo de comer um doce ou uma batata frita quando bate vontade. 

Você é um ator que já esteve em todas as plataformas da cultura: TV, teatro, cinema. Você se sente privilegiado por ter conseguido fazer todo o seu ofício como ator? Me sinto privilegiado por ser um trabalhador da Cultura. Apesar das dificuldades da carreira, sou muito grato pelas oportunidades que tive. Mas a resiliência é sem dúvida um aspecto fundamental na carreira do ator. Há de se ter uma segurança emocional para lidar com tantos “nãos”. Não dá para ficar esperando ser convidado para um trabalho. A grande virada para mim foi o fato de me produzir. Assim, consegui empreender projetos artísticos que vinham de encontro ao que eu desejava expressar e criar.  Ser ator é uma benção. A criação artística nos aproxima do divino. 

Você foi destaque na novela ‘Jesus’, da Record TV, com o personagem Lázaro. Me fala mais dessa experiência? Foi meu primeiro grande personagem na TV. Uma produção muito bem realizada que abordou a trajetória de Jesus e seus ensinamentos através da prática do amor e da empatia por aqueles que mais necessitavam. Tenho muito carinho por este trabalho. Lázaro era um homem bom, trabalhador, sempre disposto a ajudar às pessoas. Era o melhor amigo de Jesus. Um dos grandes acertos desta produção foi a complexidade das tramas. Pudemos acompanhar o cotidiano de Lázaro, sua relação com as irmãs Marta (Dani Moreno) e Maria de Betânia (Jessika Alves) e o romance com a gladiadora Susana (Bárbara Reis). Independente de religião, a novela trouxe uma importante mensagem de fé e amor. 

Depois você viveu o advogado Tibério de ‘A Dona do pedaço’, da TV Globo, como foi mudar para esse personagem e a experiência? Foi uma experiência maravilhosa. Fui de um extremo ao outro. Do melhor amigo de Jesus para o “advogado do diabo” (risos), como algumas pessoas e veículos da imprensa se referiram na época. Tibério foi o advogado da vilã Josiane (Agatha Moreira). Um desafio defender uma assassina sem também ser considerado um vilão. Busquei humanizar o personagem. Todas as pessoas têm direito à defesa e Tibério não concordava com as ações da sua cliente. Faz parte do jogo jurídico, a acusação e a defesa. Tirei meu julgamento pessoal e construí um advogado apaixonado pelo seu ofício. Fiquei muito feliz com o retorno do público, inclusive de advogados criminalistas que se sentiram muito bem representados. Agradeço ao Gui Gobbi e ao Walcyr Carrasco pela oportunidade. 

Além desses dois personagens, que ganharam mais destaque na TV, quais outros que você guarda na sua memória? Em 2007, protagonizei o curta “Bárbara” no qual interpreto uma travesti. Foi um trabalho muito especial e delicado. Naquela época não havia esse entendimento importante de dar visibilidade e espaço para as pessoas travestis e transgêneros. Me entreguei absolutamente. Frequentei durante um mês o extinto projeto “Damas” (RJ) que buscava a inserção profissional de travestis e transgêneros no mercado de trabalho. Foi um grande aprendizado estar próximo e ouvir as dificuldades que essas pessoas enfrentam pela questão do preconceito. Também tive uma transformação física como colocar cabelo, unhas e depilar todo o corpo. Todo o processo foi fundamental para fazer um trabalho sensível e não estereotipado. Ganhei 4 Prêmios como melhor ator em Festivais de Cinema. São muitos os personagens que me atravessaram. Cada um trouxe um deslocamento de percepção e aprofundamento. O Merrick foi sem dúvida um dos personagens mais difíceis porque exigia acessar extremos. Um trabalho que fala sobre a atração e a repulsa em relação ao que nos é diferente e também sobre a falta de empatia. O personagem Basílio do espetáculo “Casa Apodrecida”, inspirado em “O primo Basílio” de Eça de Queirós, foi também um desafio. Um espetáculo sem texto onde o corpo e as ações físicas contavam a história. 

Em dezembro você estreia mais um personagem na série ‘Amor dos Outros’. Fala mais sobre ele. Faço o caminhoneiro Eurípedes. Um homem trabalhador, bronco, machista e que é apaixonado pela esposa Sandra (Júlia Horta). Ele precisa voltar para a estrada para realizar o sonho da mulher de ter uma casa própria. Ele não quer que a esposa trabalhe fora. E ela acaba indo trabalhar escondida como arrumadeira num motel. Daí já dá para imaginar que essa história não vai dar certo (risos).  É uma comédia dramática deliciosa. Gravamos a série no Maranhão em 2019. Me encantei por São Luís e também por Alcântara, uma cidade histórica no interior de estado. Aliás, aprendi a dirigir caminhão para a série. Meu avô foi caminhoneiro e foi muito emocionante ter tido essa experiência artística. A série vai ser exibida no canal CineBrasil TV em dezembro. 

Você também fará em 2022 o seu primeiro protagonista da TV. Me fala mais sobre a experiência, as gravações e o personagem. Simplício Dias da Silva, o protagonista da série “Jenipapo- A Fronteira da Independência”, foi uma figura importantíssima na adesão do Piauí no processo de independência do Brasil. Um rico fazendeiro e comerciante cheio de complexidades. Escravocrata, Simplição como era chamado, foi também bastante conhecido pelo seu lado cruel. Busquei humanizar esta figura e este foi o grande desafio. Tive cenas bastante difíceis e mergulhei verticalmente no processo de construção deste personagem. Foram três meses no Piauí entre a preparação e as filmagens. Digo que foi meu personagem mais maduro porque também tive escolhas mais objetivas na composição deste personagem tão complexo e rico que só a maturidade possibilita. 

Vimos pelas suas redes sociais que você é um defensor da causa animal. Sempre foi? Tem animais em casa? Como vê a causa no Brasil? Sempre tive uma ligação forte com os animais. Tenho um cachorro e três gatos. São minha paixão. Creio que estamos evoluindo em relação ao entendimento de que os animais devem ser tratados com respeito e amor. Mas infelizmente ainda vemos muita crueldade. Me anima ver o trabalho fundamental de tantos protetores de animais. Não somos superiores a nenhum ser. Devemos sempre denunciar ações de maus tratos para que as medidas cabíveis sejam tomadas. 

Em 2022 tem algum projeto para o teatro? Pretendo estrear meu monólogo “A hora do boi” com direção de André Paes Leme, texto de Daniela Pereira de Carvalho e direção de produção de Caio Bucker. A peça aborda a relação de crueldade e exploração do Homem em relação aos animais. Esta visão antropocêntrica que coloca o Homem como superior aos outros seres sencientes (que possuem a capacidade de sentir ou perceber através dos sentidos). Momento mais que oportuno, urgente, para discutirmos nossa relação com o mundo e os seres que nele habitam, como forma de estabelecermos uma relação de respeito, de consciência ecológica e também de consumo consciente dos recursos naturais. A mudança começa a partir de cada um de nós.

Fotos Oseias Barbosa (@oseias_b) e Rebecca Wesolowski (@becky.trips)

Produção Ribamar Filho (@filhoribamar) Assessoria de Imprensa MercadoCom (@mercadocombr) / Ribamar Filho (@filhoribamar)