
Por Ivan Reis
Há tempos, o guarda-roupa masculino passa por transformações significativas. Quando falamos de roupas, elementos como modelagem, proporção e outros detalhes sofrem releituras que atendem à diversidade de estilos. Um deles é a cor que, na última edição da São Paulo Fashion Week, marcou algumas produções de criativos que mostraram suas coleções na maior semana de moda da América Latina.
Do traje formal do universo corporativo aos shorts de banho na praia do final de semana, as cores transformam e ditam o estado de espírito de qualquer momento. Atentos às semanas de moda – que funcionam como verdadeiros termômetros das tendências do mundo -, as cores marcantes apareceram na edição que celebrou os 30 anos da semana de moda paulistana.
Entre desfiles e bastidores, destacamos alguns momentos que podem inspirar o guarda-roupa do homem contemporâneo.

QUESTÕES DE ESTILO
“A gente é um país que tem vontade de cor”, disse o estilista David Lee à MENSCH no backstage da coleção ‘Nascente’, desfilada no Pavilhão das Culturas Brasileiras na 60ª edição da São Paulo Fashion Week. No burburinho de modelos, fotógrafos e maquiadores, um detalhe era certo: as cores fortes seriam as protagonistas do desfile.
Para a consultora de imagem e estilo Patrícia Sá, a leitura cromática das roupas é um dos aspectos que devemos considerar. “A cor é um elemento visual muito importante e não pode ser ignorada quando falamos das produções que usamos diariamente. Mesmo para aqueles que não apreciam uma imagem impactante e preferem algo mais neutro e sóbrio, sempre existe uma preocupação com a cor escolhida”, explicou a profissional. “Quanto mais sóbria e escura, maior será a sensação de seriedade, credibilidade e conservadorismo — características ideais para ambientes corporativos e formais. Já as cores mais vibrantes e intensas passam uma imagem jovial e impactante, sendo excelentes para momentos ou profissões que demandam criatividade e inovação”, completou a profissional sobre os significados que a cor pode assumir no cotidiano.
Na semana de moda paulistana, os tons saturados e marcantes se destacaram entre as criações de alguns designers e merecem atenção quando se trata de estilo pessoal. Ainda de acordo com a consultora, “os desfiles são uma forma que os estilistas e diretores criativos das marcas encontram para demonstrar determinadas tendências e até mesmo contar as suas inspirações artísticas de maneira mais literal, teatral e exagerada. No entanto, quando falamos de produções do dia a dia, é preciso fazer algumas adaptações e com a cor, não seria diferente”, esclareceu. Patrícia Sá também explicou o surgimento da tendência e como é possível incorporá-la no guarda-roupa. “Mesmo que as passarelas tenham apresentado peças mais saturadas e coloridas, no cotidiano, veremos essa tendência em menores proporções, como em acessórios ou em combinações com cores neutras e menos impactantes, para equilibrar o look”, explicou.

FORÇA CROMÁTICA
Minutos antes do desfile da David Lee, conversamos com o diretor criativo da marca homônima para entender mais sobre a tendência das cores e suas inspirações. Foi possível perceber que as peças – especialmente, as calças, camisas e shorts – traziam referências asiáticas em alusão às artes marciais em formatos de quimonos com amarrações, enchimentos e proporções amplas. “Essa coleção mergulha na história do meu nome, brinca com artes marciais porque o meu pai era muito fã do [ator de filmes de ação] Bruce Lee, e aí o meu nome é composto. As pessoas acham que é um nome artístico, mas, na verdade, é uma homenagem ao ídolo do meu pai”, explicou o estilista.
Nos 25 looks apresentados no desfile, as cores saturadas – especialmente o laranja e o amarelo – aparecem em amarrações, shorts e camisas inspirados na cultura oriental com náilon, crochê e enchimentos, além dos trabalhos manuais tramados da marca de Fortaleza. De acordo com o designer, “existe esse mergulho nas artes marciais, mas também o mergulho em outras artesanias, como o restilié, uma técnica que existe há muito tempo (um tipo de bordado) e que é uma vontade também de explorar outras técnicas, além do crochê que já é muito característico da marca”, completou o criativo.
As cores também apareceram como forma de marcar um novo momento. Abrindo a semana de moda paulistana, o estilista João Pimenta, cujo trabalho se debruça na alfaiataria, também usou as cores para redefinir os contornos do estilo masculino. No backstage dos corredores da Biblioteca Mário de Andrade, edifício icônico do centro de São Paulo, o diretor criativo explicou as suas escolhas. “É uma busca de tentar entender um pouco mais sobre o que seria uma alfaiataria brasileira. Essa busca de uma cartela bem colorida, de ter tecidos naturais e mais leves”, disse ele antes de iniciar a apresentação que contou com a participação da atriz Bárbara Paz em uma performance artística.
Soltando as proporções e desafiando as convencionalidades, João Pimenta mostrou que é o mestre do movimento e da alfaiataria bem construída. Entre as dobras de golas e punhos, havia amarrações em camisas, paletós e calças amplas. A novidade conta com tons saturados de azul e laranja acompanhados do off-white e de tonalidades suaves e adamascadas. Elegância e ousadia realizaram uma parceria de sucesso.

A diferença do uso de tons intensos e brandos pode revelar questões do contexto em que vivemos, uma vez que moda e sociedade estão intimamente ligadas. “É possível observar que, em momentos de crise, recessão e instabilidade, as paletas tendem a se tornar mais neutras, sóbrias e contidas. Tons de cinza, preto, bege e azul-marinho ganham destaque por transmitirem segurança, discrição e estabilidade, atributos desejados em tempos de incerteza. Nesses períodos, o consumo tende a se tornar mais racional, conservador e isso reflete diretamente na forma como as pessoas se vestem”, esclareceu a consultora de imagem Patrícia Sá.
Na apresentação do estilista João Pimenta, é perceptível o jogo de contrastes. As peças chamaram a atenção pelas cores saturadas em detalhes da releitura da alfaiataria clássica para o homem contemporâneo. “As cores vibrantes, intensas e saturadas retornam às passarelas e às ruas, representando esperança, liberdade e vontade de se expressar. Esses períodos são marcados por um desejo coletivo de celebração e ousadia — as pessoas se sentem mais abertas ao novo, mais seguras para experimentar, e as cores se tornam um reflexo dessa vitalidade”, disse a profissional. Nesse sentido, os desejos de João Pimenta para descobrir os novos rumos do estilo do homem de hoje também confirmam o entusiasmo para encarar novos tempos.

AZUL É A COR MAIS QUENTE
Se as tonalidades saturadas fizeram sua vez na semana de moda, a família dos tons azulados marcou presença em diferentes estilos. Sobre a questão, a consultora Patrícia Sá alerta sobre os significados que uma mesma cor pode assumir em diferentes contextos. “Apesar da cor ser o primeiro elemento percebido por quem observa, outros aspectos, como tecido, modelagem, aviamentos e acabamento, também exercem papel fundamental na construção de uma peça. Cada um desses elementos contribui de forma única para a mensagem que a roupa transmite, influenciando diretamente na percepção de estilo, personalidade e intenção comunicativa”, explicou.
Ao longo da São Paulo Fashion Week, algumas marcas apostaram nos tons de azul como escolha temática no desenvolvimento de seus temas; uns mais figurativos e artísticos e outros apenas com o uso da cor em produções que ressaltassem os códigos de estilo da etiqueta.
Em seu retorno à semana de moda paulistana, a marca Santa Resistência se inspirou em elementos marítimos para elaborar estampas que representassem divindades e seres mitológicos. Na coleção, há uma parceria com a designer Marcela Citon, além de prestar uma homenagem à artista plástica Adriana Varejão, referência nas artes visuais brasileiras. Entre os looks masculinos desfilados, havia alusões aos marinheiros em camisas, botões e detalhes em acessórios, além de peças confeccionadas em diferentes tonalidades do azul que mesclavam ao verde e ao off-white.

De outra maneira, a urbana À La Garçonnne, do diretor criativo Fábio Souza, trouxe um realinhamento de seus códigos para uma nova fase da marca estabelecida no streetwear. Dessa vez, a estética underground deu lugar a um visual mais limpo, um tanto minimalista, elegante e jovem. O azul em tom profundo apareceu em várias peças, como camisas, calças e camisetas em proporções amplas e já conhecidas do público. “A cor não se comunica sozinha. Uma peça pode se tornar marcante pela textura do tecido, pela modelagem ou ainda pelos detalhes de acabamento. Esses fatores, combinados, são responsáveis por dar vida à roupa e transformá-la em uma verdadeira expressão de identidade”, explicou a consultora Patrícia Sá. As considerações poderiam ser aplicadas à nova fase do estilista que usou cores e detalhes para reposicionar o estilo da marca brasileira.
NO COTIDIANO
Não é difícil questionar as formas pelas quais é possível adaptar as tendências das passarelas para o dia a dia. Em meio a tantas opções, adequar o que as marcas apresentam pode parecer um desafio para aqueles que desejam acompanhar o movimento das tendências sem abrir mão de um estilo mais contido. “A presença da cor nas produções masculinas, especialmente quando falamos de tonalidades mais vibrantes e saturadas, ainda é algo explorado com cautela para esse tipo de homem. Dificilmente alguém que tenha um estilo mais conservador e clássico se arrisca a usar peças de roupa, como camisas, calças ou jaquetas, em cores excessivamente saturadas e chamativas”, alertou a consultora de imagem Patrícia Sá. Neste contexto, é preciso se atentar para alguns pontos-chave que podem fazer diferença na hora de se vestir. “O ideal é que essas tonalidades apareçam de forma estratégica e pontual, principalmente por meio dos acessórios, como meias, gravatas, tênis e bonés. Esses elementos permitem incluir toques de cor e personalidade de maneira equilibrada, sem comprometer a coerência da imagem e estilo pessoal”, orientou a profissional da imagem.


