
Por Ivan Reis
Um dos itens mais reconhecíveis e clássicos do universo masculino vem ganhando adeptos das novas gerações ao aderirem a tendência que traz elegância com modernidade. Compondo parte dos trajes tradicionais, a gravata atravessou o tempo e atualizou o guarda-roupa do homem nos dias de hoje.
Retomando o uso da gravata, é possível fortalecer o legado de elegância do item e adaptá-lo a novos e promissores tempos na moda masculina. Confeccionada em várias cores, texturas e padronagens, a gravata garante possibilidades de combinação para o cotidiano em diferentes estilos. Das passarelas das semanas de moda ao despojamento e casualidade do street style, a tradição pode ser juntar à contemporaneidade para uma mistura inusitada – e com muita personalidade!

ELEGÂNCIA, TEMPO E HISTÓRIA
Mesmo em formas rudimentares, a gravata marca presença na história da moda – posteriormente, masculina – em momentos que estabelecem o seu uso no cotidiano. Antes de transmitir elegância, o item surgiu como um distintivo social.
A origem do acessório remete ao século I a.C quando os soldados romanos usavam algo parecido como hoje. Um cachecol úmido, amarrado no pescoço em dias quentes era usado por necessidade. Com o fim do Império Romano, o uso foi esquecido e ressurgiu com os franceses, os visionários e criadores de tendências, séculos depois.
Para o consultor de imagem masculina Rafael Flumingnam, a origem da gravata e sua performance social resgatam os hábitos e as referências cotidianas da corte francesa do Rei Luís XIV, uma das figuras mais emblemáticas da história da moda. Supostamente, o monarca copiou a forma de usar um adereço chamado ‘kravat’ pelos soldados croatas. Com o intuito de reforçar os códigos de refinamento e classe social, o acessório se popularizou entre a nobreza. Em terras francesas, a gravata começou a ser fabricada em materiais mais nobres, como linha ou renda, e ganhou a forma como é usada hoje: com nó no centro formado por duas pontas longas que envolvem o pescoço.
A partir disso, o acessório simboliza a elite e traduz as formas de luxo e sofisticação masculinas. “Mesmo depois da Revolução Francesa e da Revolução Industrial, os homens ainda marcaram a gravata como um elemento da aristocracia e da burguesia, fazendo com que o item se tornasse obrigatório para os ‘dress codes’ mais formais, em suas mais variadas formas, e assim segue até hoje”, explicou o profissional sobre a evolução do acessório no guarda-roupa masculino.

TRADIÇÃO E MODERNIDADE
Há tempos que os trajes formais masculinos incorporam a gravata como item obrigatório em produções que obedecem a códigos de vestimenta criteriosos. Hoje, o dress code denominado ‘Passeio Completo’ – formado por terno ou costume, camisa e sapatos sociais – tem a gravata como acessório indispensável na composição de peças que atendem às exigências específicas. “Se há gravata, deve-se usar meia e sua largura deve ser escolhida de acordo com a proporção da estrutura corporal. Essa é a medida que direciona o tamanho do colarinho, da lapela e da gravata. Para uma produção harmônica, há que se atentar também à cor, sempre mais escura que a camisa. A altura ideal é onde a ponta da gravata toca o cinto”, orienta o consultor Rafael Flumingnam. A gravata harmoniza tonalidades, provoca contrastes e sinaliza nuances no visual masculino.
Nos últimos tempos, algumas passarelas recorreram aos códigos de vestimenta tradicionais para incorporá-los e, sobretudo, subvertê-los para atualizar o uso do acessório. Nas últimas semanas de moda masculina de Paris e Milão, foi possível perceber que Jonathan Anderson, agora à frente da Dior Homme, trouxe a gravata – e acessórios no pescoço em geral – para sublinhar as linhas faciais em produções que combinavam o rigor no caimento das peças e a casualidade na forma como eram utilizadas.

Na aguardada estreia do estilista norte-irlandês na fashion week parisiense, a atmosfera da monarquia foi resgatada para reconstruir alguns códigos da elegância masculina. Entre os looks desfilados, não faltavam referências a botões, ombreiras, golas, fivelas e outros detalhes que redefiniram o estilo masculino da marca francesa. Foram notáveis as referências à elegância do passado para o guarda-roupa do presente. Em linhas gerais, o desfile apresentou verdadeiros dândis contemporâneos cheios de estilo e personalidade.
Em se tratando de styling – a escolha como as peças são vestidas e combinadas -, Anthony Vacarello, diretor criativo da Saint Laurent, também usou a gravata de forma que atualizasse a forma como o acessório é visto em sua convencionalidade. Preso ao colarinho e, consequentemente, envolto no pescoço, partes do acessório ficaram mais visíveis do que outras. As camisas com os ombros marcados e o nó frontal redesenharam a estética masculina da marca francesa para os mais ousados.
É possível observar novos tempos para o acessório. “Não só a gravata, mas a própria alfaiataria está ganhando força de uma forma desconstruída do que conhecíamos”, alertou Rafael sobre a casualidade que envolve a gravata hoje. “Podemos considerar o uso de acordo com as tendências de várias maneiras: a gravata usada sem o nó e apenas em volta do pescoço, somente metade aparecendo e o resto dentro da camisa, o uso com jaquetas de couro e outros elementos além da alfaiataria. Para os mais ousados, há até gravatas com arames que as deixam estruturadas com a impressão de que estão voando ao vento – uma clara analogia à correria do homem moderno”, explicou o profissional da imagem.

NOVO STATUS
De todas as leituras e interpretações possíveis do uso da gravata, a evolução do acessório reforça a sua notável capacidade de adaptação e, sobretudo, de marcar presença, personalidade com toque de elegância. Aquilo que nasceu como símbolo de distinção social, hoje se transforma em expressão individual e reafirma códigos que atravessam o tempo sem perder relevância.
Da aristocracia europeia aos escritórios e ruas cosmopolitas, a gravata percorreu um caminho que reflete a própria trajetória do homem moderno: entre a tradição e a experimentação. Mais do que um complemento, o item se converte em assinatura de estilo: um elemento que traduz atitude e domínio sobre a própria imagem.
Nas produções contemporâneas, a gravata se descola do formalismo rígido e adquire novos significados. Pode ser o toque de sofisticação em um look urbano com jaqueta de couro e jeans, o detalhe propositalmente desalinhado que quebra a rigidez de um terno, ou até o contraste ousado que revela a personalidade de quem a adota. O acessório ganha vida nova e dialoga com a estética do “casual sofisticado”, uma tendência que conjuga equilíbrio, conforto e autenticidade.

“O uso da gravata, hoje, é um gesto para além da formalidade corporativa”, observa o consultor de imagem Rafael Flumingnam. “Escolher usar uma gravata denota conhecimento da elegância clássica, sem perder o tempero da modernidade”. O novo status traduz um movimento maior: o de ressignificar o vestir masculino. A gravata deixa de ser uma obrigação e se torna uma declaração de confiança e consciência estética. Mais do que um acessório, a gravata volta a ser um símbolo de sofisticação inteligente. Quando usada com propósito, é a peça que transforma o convencional em extraordinário.


