ESTRELA: CACÁ OTTONI DANDO O QUE FALAR COM A SUA MARIETA EM “VALE TUDO”

Com 33 anos, Cacá Ottoni esteou profissionalmente aos 17 com a peça “Improzap”. Mas foi aos 21 que ganhou projeção nacional ao dar vida a Morgana em “Malhação”. Seu último trabalho em uma novela foi como Joana, uma jovem que dividia seu tempo entre os estudos numa escola pública e o trabalho no bar do pai, em “Amor de mãe”, obra da mesma autora de “Vale tudo”. Onde atualmente Cacá interpreta a personagem Marieta, a ex-assistente de produção da agência de conteúdo Tomorrow que passa a ser secretária na TCA no remake de “Vale tudo”. Já no dia 2 de setembro, ela estreia no Teatro Ziembinski, Tijuca, Rio, a peça “Antena”, que convida a uma reflexão sobre um mundo marcado pela precarização do trabalho e da própria vida.

Cacá, conte um pouco do seu início como atriz. Quando entendeu que era isso que você queria para sua vida? E quando percebeu que estava no caminho certo? Minha primeira experiência com teatro foi aos oito anos de idade. Eu era muito tímida e descobri que existia uma possibilidade de me libertar dessa prisão que a timidez proporciona. No palco, sendo outra, eu conseguia ter coragem pra agir como jamais faria fora do teatro. Tanto que lembro da reação das pessoas da escola, ao se depararem com alguém que mal falava o necessário em sala de aula, fingindo estar bêbada em cena, solta, livre… Foi uma experiência de liberdade que me aproximou do teatro. Mas foi aos treze, em Nova Friburgo – dentro de um projeto muito interessante da Usina Cultural onde eu fazia aula de teoria, corpo, voz e interpretação – que uma professora, Daniela Santi, minha eterna mestra, me apresentou ao ofício. Através dela eu escolhi o teatro como profissão. Desde então já duvidei tanto quanto tive certeza absoluta de estar no caminho certo. Os encontros valiosos que a minha profissão me proporciona me fazem acreditar no caminho certo, mas a vida-montanha-russa, com tanta instabilidade, vez ou outra me aponta pra outros caminhos. Espero que a primeira opção vença! Desconfio que até Deus quer.  

Em Vale Tudo, Marieta, sua personagem, mudou de emprego recentemente e virou secretária da TCA. E como é pra você lidar com a vida instável de artista? Já pensou em também mudar de profissão? Muitas vezes. Eu quase fiz medicina, mas meu pai que me desmotivou porque eu já era atriz. Até pouco tempo eu jogava isso na cara dele a cada desemprego. (risos) Hoje não penso mais em mudar de profissão, mas sim em ampliar minhas possibilidades. Faço parte de um projeto, como orientadora, no Sesi Firjan, chamado: Incubadora de artistas locais, onde trabalho com grupos de teatro de Jacarepaguá. Dou aula de teatro há alguns anos também, e oficinas de jogos teatrais em um curso preparatório para uma prova de medicina (quem joga nas 11 sabe…). Esse ano ainda estreia um Longa e um Curta-Metragem que fiz assistência de montagem. Faço parte dessa maioria esmagadora do país que nunca teve a opção de esperar o trabalho ideal aparecer… Tenho a sensação de que quando não estou atriz, sou todas as outras opções possíveis. Mas sonho em precisar recorrer cada vez menos aos planos B,C,D,Z pra me dedicar mais e melhor ao que amo fazer que é atuar. 

Marieta também está começando um romance com Poliana (Matheus Naschtergaele), levantando o debate sobre pessoas assexuais. Como você se preparou para essa nova fase da personagem? O que acha do uso de novelas para levar ao público assuntos pouco falados? Assim que soube fui pesquisar a respeito, já que a letra A, da sigla LGBTQIPN+ era a menos conhecida por mim. Existem documentários gratuitos no YouTube e podcasts também, no Spotfy. Aliás, o episódio sobre Assexualidade do “É tudo culpa da cultura” é bem interessante. O Michel Alcoforado conversa com a Georgia Neiva, uma antropóloga especialista no assunto e ela traz reflexões bem importantes e extremamente políticas. Porque todas as orientações sexuais que fogem dos moldes da heteronormatividade, ou seja, da família tradicional a la margarina que nos é imposta como regra básica, causam estranhamento. E dentro de uma sociedade hipersexualizada em que vivemos, o Assexual é muitas vezes patologizado, mesmo hoje, em pleno 2025, sua orientação é confundida com uma possível depressão, ou interpretada como uma dificuldade de se assumir homossexual, ou ainda compreendido equivocadamente como alguém que ainda não encontrou a parceira ou o parceiro certo, que lhe mostrará o que é bom… E isso é muito grave, porque afasta pessoas de algo muito valioso, e que deveria ser básico, que é o autoconhecimento. O que eu acho mais interessante na relação da Marieta com o Poliana, inclusive, é a questão geracional: Enquanto o Poliana não sabia nem da existência do grupo ao qual ele pertence, a Marieta descobriu o termo, e em seguida sua orientação sexual no início da adolescência. Ao contrário da maior parte das pessoas, ela teve apoio da mãe pra se aprofundar na maneira dela de existir no mundo. Questionar, ou pior ainda, tentar impedir uma pessoa de seguir sua orientação sexual, é prejudicar a existência dessa pessoa. É muito grave, o que torna a abordagem em horário nobre ainda mais importante. Garantir a existência é o primeiro passo que a humanidade precisa urgentemente traçar, e tem que ser unânime. Não tem: “mas ele acredita nisso”, ou “é que a família dela era assim…” Permitir a existência do outro é inegociável. 

E como você tem percebido a repercussão de seu trabalho na novela? Imensa! Nas redes é um sucesso absoluto. Campeã de memes, híper comentada em todas as plataformas, muito tudo! Muito elogio, muita crítica, muita piada, muita identificação… Nunca fiz parte de um projeto com tamanha repercussão. Agora que a Marieta ganhou mais espaço, muitas pessoas, tanto na rua, quanto através das minhas redes sociais, trazem reflexões e questionamentos a respeito da trajetória dela. No início da novela muitos amigos do audiovisual diziam se sentir representados por essa funcionária 6X1, sempre na função, jogando nas onze na Tomorrow. Depois quando a Marita pede emprego no bar do Vasco recebi uma enxurrada de comentários achando um absurdo uma pessoa que trabalha na maior agência de publicidade da América latina, procurar emprego em bar. Eu acho super conivente com a realidade. Quem é autônomo, PJ, e sai de cada trabalho com uma mão na frente e outra atrás, que é o que tem acontecido com cada vez mais frequência, sabe muito bem que esse calo aperta “meerrmo”, como diria o Poliana. Tenho amiga atriz que concorreu ao Shell e no ano seguinte estava garçonete. 

Você tem 17 anos de trajetória profissional. Acha que ainda é relevante para um artista ganhar visibilidade fazer uma novela? Pra mim, é muito relevante. Primeiro que a televisão, principalmente nesse formato novela, garante uma estabilidade que nenhum outro veículo proporciona. Que peça, ou Longa, ou até série (a não ser que tenham várias temporadas fechadas com o seu personagem, o que nunca me aconteceu) me daria praticamente um ano de contrato? Estou falando de mim, sei que existem grandes contratos com marcas, mas já enxergo como desdobramento possível do trabalho do ator, e não como atuação propriamente dita. Além disso, e não menos importante, a televisão ainda representa uma experiência coletiva, popular, em grande escala, que é notória. Em todo lugar do Brasil tem muita gente assistindo a novela, o que possibilita um alcance pro meu trabalho que também não é possível em outras linguagens. Não acredito que alcance seja sinônimo de relevância, embora enxergue Vale Tudo como uma obra abrangente com abordagens extremamente relevantes. Eu amo estar no teatro e me comunicar com duzentas, ou vinte pessoas por noite. Assim como tive a oportunidade de fazer bons filmes, mais nichados, como costuma ser a experiência cinematográfica brasileira, no entanto com um retorno muito potente. Mas, enquanto artista, dialogar com o país todo é uma loucura boa.

E pra você…em que caso vale tudo? Acho que a maternidade me trouxe um espírito vale tudo. Ao mesmo tempo acho que nunca vale TUUUUDO. Limite é um negócio importante. Mas digamos que vale quase tudo pela minha filha. 

Você tem uma filha de 8 anos. Como é a Cacá mãe? Como a maternidade mexeu com a sua vida pessoal? E a profissional?  A maternidade mexe com tudo. É uma revolução, que deixa poucos vestígios do que éramos antes, inclusive. Sem querer romantizar, porque é um trabalho árduo, eu amo ser mãe da Malu. Às vezes me pergunto se amo ser mãe também, ou se amo apenas ser mãe da Maria Luísa mesmo. E não tenho a resposta. Mas ela é uma grande parceira, uma amiga de verdade, além de minha filha. E fã da novela! Não perde um dia. Foi muito legal perceber como a Malu começou a reconhecer atrizes e atores brasileiros através dessa experiência recente de ver novela. Vamos muito ao teatro, então ela conhece o elenco de diversas peças infantis, mas a produção audiovisual gringa, principalmente Estado Unidense e Coreana, domina o dia a dia dela. Ela já assistiu todas as animações possíveis, ama ir ao Cinema, mas infelizmente nossa produção audiovisual destinada ao público infantil é muito escassa. Fui ao Grande Prêmio de Cinema Brasileiro esse ano, e os três filmes que concorreram eram os únicos produzidos no último ano. Muito triste o descaso de políticas públicas no que se refere a formação de espectadores. Então a novela, que ela assiste todo dia, e que é falada na escola, começou a bater de frente com os filmes hollywoodianos que também fazem parte dessa experiência coletiva. Outro dia ela percebeu que Emma Watson que faz a Bela no live action era quem fazia a Hermione, e eu comentei que era superfã dela na infância. Ela me olhou e completou: Sou mais da Taís Araújo.

Você faz voluntariado levando alegria a hospitais através da Enfermaria do Riso. Como é participar dessas atividades? O que essa experiência trouxe pra sua vida? Fiz parte desse programa de formação de palhaços de hospital, chamado Enfermaria do Riso durante seis anos. Ele é coordenado pela Ana Achcar, que é professora, atriz, diretora, artista, mestra, estudiosérrima, pessoa maravilhosa! Só saí da Enfermaria pra parir, fui ao hospital como Palhaça até os oito meses de gestação da Malu. Certamente, um dos projetos mais importantes e bem estruturados, no sentido humano-politico-pedagógico (sei nem definir) que já participei. O mais interessante é que a abordagem não vai por um caminho assistencialista, que é a maneira mais óbvia de enxergar, do palhaço bondoso que leva alegria pra quem está triste. A presença do palhaço no hospital é revolucionária pelo fato dele ser tão ferrado, tão torto, estar tão perdido, que mesmo o paciente mais grave é capaz de ajudá-lo. Um dia voltarei pra palhaçaria. Me aguardem.

Aliás, em suas redes há alguns vídeos de humor em que você atua. Pensa em trabalhar mais nessa vertente, já que sempre vemos você em trabalhos mais sérios? Sim! Quero muito trabalhar com humor de maneira mais efetiva. Quando não estou tímida, sou engraçada. Me contratem! E estou produzindo vídeos nas minhas redes com meu primo, João Miller, ator e roteirista, que escreve agora pro Porta dos Fundos também, está chique que nem eu. (risos). Já temos mais roteiros prontos nessa pegada que estamos produzindo, além de boas ideias pro futuro. Meu encontro com o João é algo que me faz feliz só de pensar. Temos muita afinidade artística, uma visão de mundo do mesmo ângulo, enfim… Muita identificação. Além de rirmos sem parar quando estamos juntos, que está entre as melhores coisas da vida.   

Quais os próximos passos de Cacá Ottoni? Estreio dia 2 de setembro (pânico!! Tá chegando muito!), no Ziembiski, no Rio, a peça: “Antena”. Estaremos lá durante todo o mês de Setembro, terças e quartas, às 20 horas. A peça aborda a precarização do trabalho, a crescente valorização do dinheiro em contraponto a desvalorização do serviço, também esbarra na maternidade: Sou parida em cena, junto com a minha irmã, então venham assistir, nem que seja pra estranhar. Estou muito feliz por estar ao lado de atores de que admiro há muito tempo, outros que conheci nesse trabalho igualmente maravilhosos… Tem que ver!

Foto @seriobaia

Assessoria @natashasteinassessoria