O que faz uma mulher se sentir empoderada e segura de sí se não sua própria capacidade de auto aceitação e força para superar barreira impostas pelo mundo dominantemente machista e preconceituoso. Nossa musa inspiradora, a atriz Dandara Albuquerque é um belo exemplo disso. Seja por seu cabelo encaracolado, seu tom de pele ou simplesmente por ser mulher, as superações tiveram de ser muitas. Mas Dandara as venceu. Formada em Direito, enveredou para o caminho da arte e se encontrou profissionalmente como atriz. Um meio onde ela pode expressar sua voz e realiza-se como pessoa. Nem tudo foi fácil, assim como geralmente não é para a grande maioria. Mas ela se superou e aqui está melhor do que nunca e em eterna evolução. “O meu processo de empoderamento e de reconstrução da minha autoestima é diário e contínuo. Me orgulho de quem sou e não renuncio à mulher que ainda virei a me tornar”, conclui ela. Conheça um pouco das várias Dandaras que formam essa mulher incrível.

Dandara, como o trabalho de atriz entrou na sua vida? A arte sempre esteve presente na minha vida. Fiz aulas de dança, de teatro e de música durante minha infância e adolescência. Porém, eu encarava essas atividades como um lazer. Foi só em 2011, quando eu já estava na Faculdade de Direito, que comecei a considerar as Artes Cênicas como a carreira que queria seguir.

Como foi o início? Que perrengues enfrentou e qual o momento mais marcante até agora? Todo artista sabe a jornada que temos que enfrentar até alcançar nossos sonhos e com certeza passamos por muito sufoco. Um dos maiores perrengues que passei foi quando quase não consegui chegar a tempo em uma das minhas apresentações na Escola de Teatro em que estudava. Eu já estava trabalhando em “Espelho Da Vida”. Cheguei atrasada e a peça já havia começado, tive que me caracterizar no corredor por onde entravam os convidados e meus colegas de turma estavam na expectativa para saber se eu iria entrar em cena ou não. No final, deu tudo certo. Hoje me divirto com essa história, mas no dia foi tenso (risos). Sobre o momento mais marcante, todo início de um novo trabalho é importante para mim. Cada personagem é um universo instigante e desafiador. “Bom Sucesso” me proporcionou uma feliz surpresa. Minha personagem, Yasmin, faria apenas algumas participações pontuais na trama, mas depois acabou integrando o elenco até o final da novela. E receber o convite para “Espelho Da Vida” será sempre especial, por ter sido minha primeira oportunidade na TV e por todo o processo que foi incrível.

Largar a advocacia para ser atriz foi uma transição muito difícil? Como deu esse “estalo”? Minha transição profissional foi consciente e gradual. Em 2011, quando ainda estava no curso de Direito, senti que não estava satisfeita. Retomei os estudos de Teatro e logo percebi que era o caminho que me fazia feliz. Ainda assim, tentei conciliar ambas as profissões durante um tempo. Me formei na graduação e só depois de passar na Prova da Ordem (OAB) me senti segura para abandonar de vez a Advocacia. Sou grata por tudo o que o Direito me ensinou, mas a minha realização profissional é ser artista.

Um de seus trabalhos mais recentes na TV foi em “Espelho da Vida”, com uma personagem de caráter meio duvidoso. Como foi participar desse trabalho? “Espelho Da Vida” foi um aprendizado maravilhoso. Como a Sheila aprontou bastante até chegar a sua redenção, foi muito enriquecedor para meu desenvolvimento enquanto atriz poder transitar por diferentes nuances. Depois dela veio a Nívea, minha personagem na série “Dependentes”; a Yasmin na novela “Bom Sucesso”. E agora durante a pandemia, gravei meu primeiro longa chamado “Até a Noite Terminar”, com previsão de estreia para novembro de 2020. Nesse filme, minha personagem se chama Melissa e vive um relacionamento abusivo, assim como tantas mulheres que infelizmente vivem essa realidade. Com certeza foi o trabalho mais intenso que já fiz até o momento.

Nesse ensaio para a MENSCH percebe-se que você encarou várias mulheres empoderadas. Seriam as várias Dandaras que existem em você? Como definiria isso? Eu sempre gostei de ser versátil e quando o Guilherme Lima me convidou para fotografar explorando visuais diferentes, eu aceitei na hora. Esse ensaio foi muito especial para mim porque durante muitos anos eu alisei meu cabelo afro. Minha transição capilar aconteceu em 2011 e desde então, eu nunca mais havia me visto com os cabelos lisos e longos. Me olhar no espelho e perceber que consegui ressignificar as experiências traumáticas do passado foi marcante. Antes eu alisava meus cachos porque fui ensinada a não gostar do meu cabelo natural. Hoje, amo meu cabelo afro e me sinto livre para mudar minha aparência porque sei que é uma escolha consciente e não uma tentativa de me encaixar em algum padrão estético. Agradeço a toda equipe envolvida na realização desse ensaio que ficou muito lindo.

Você parece ser uma mulher segura de si mesma. Sempre foi assim? Algo te abalou ou te abala ainda hoje? Nem sempre foi assim. Durante muitos anos tentei me encaixar em padrões e regras opressoras para ser aceita e com o tempo isso foi enfraquecendo minha identidade. Demorei para começar a me sentir bonita e confiante, pois viver em uma sociedade estruturalmente racista e machista nos faz acreditar que aquilo que somos não é bom ou belo o suficiente, que mulheres não podem ser livres, e por aí vai… O meu processo de empoderamento e de reconstrução da minha autoestima é diário e contínuo. Me orgulho de quem sou e não renuncio à mulher que ainda virei a me tornar.

Hoje em dia muito se fala e se vê preconceito contra mulheres, negros, gays… Já sentiu algo na pele? Como combater isso? O simples fato de ser uma mulher negra em uma sociedade preconceituosa me expõe a uma série de situações delicadas, já que nossos corpos são constantemente objetificados, hiper sexualizados e precisamos nos esforçar mais para legitimar as oportunidades que conquistamos. De forma mais explicita, já fui abordada na rua por uma desconhecida que fez críticas agressivas ao meu cabelo afro. Mas o racismo velado, acontece diariamente. Para combater, é preciso repensar preconceitos e reconhecer privilégios. Também é necessário se reeducar e se informar sobre o assunto. Exercitar a escuta para entender como essas opressões sociais afetam a vida dessas “minorias” e fomentar iniciativas desses grupos, são medidas igualmente importantes. O processo é lento, mas eu acredito que estamos no caminho certo.

Percebe as mulheres mais unidas hoje ou ainda existe uma competição velada? Eu percebo um movimento potente de sororidade entre as mulheres.  A competição feminina é um conceito que devemos descontruir. Estamos nos fortalecendo e é inegável que juntas nossas vozes ecoam mais alto e temos mais força para lutar pelas mudanças que queremos.

Como são suas relações de amizades com homens e mulheres? A união faz a força? Tenho amigos de longas datas e de diferentes “bolhas”. Mantenho contato com a minha turma do colégio, com meu grupo da dança de salão, da Advocacia, das Artes Cênicas, dos trabalhos que participei e etc. Fico extremamente feliz de saber que por onde passei consegui cativar o afeto dessas pessoas. E durante a pandemia, ficou ainda mais evidente a importância que essas amizades verdadeiras têm em minha vida.

Acredita que o mercado e a mídia está de fato mudando dando mais espaço para negros e minorias? Ou em muitos casos é modismo? Eu acredito que seja um pouco dos dois. Com a repercussão de alguns casos nas mídias e redes sociais, as notícias ganham muita visibilidade. Porém, essa atenção costuma ser efêmera e se medidas concretas não forem adotadas com responsabilidade e comprometimento, toda discussão se esvazia e cai no modismo. As mudanças no mercado e na mídia estão acontecendo e são resultado de muita luta dos grupos considerados como “minorias”, para conquistar melhores oportunidades e para ocupar espaços. Por isso, reforçamos tanto que Representatividade importa. Me mantenho otimista sobre o futuro e desejo que continuemos avançando.  

O que os homens ainda não aprenderam com as mulheres? E vice-versa. Nós mulheres, discutimos muito sobre como o machismo nos afeta.  Acho que os homens ainda precisam ter mais consciência sobre como a masculinidade tóxica os adoece também. Esse comportamento, embora seja extremamente nocivo, está enraizado na cultura de nossa sociedade e precisa ser combatido.

O que te coloca um sorrisão no rosto e o que tira a paciência? O simples fato de apreciar a vida já me faz sorrir. Ter bons momentos com minha família e amigos também me deixa alegre. Eu me divirto com coisas simples, dou gargalhadas com memes na internet (risos). O que me tira a paciência é mentira, desonestidade, injustiças sociais, preconceito, intolerância, falta de empatia e desrespeito com o próximo.

Como lida com a sua vaidade? Do que não abre mão? Eu me considero uma pessoa vaidosa na medida. Gosto de me cuidar para me sentir bem comigo mesma, buscando ser sempre a minha melhor versão. Pratico exercícios físicos regularmente, adoro esportes ao ar livre e que me mantenham em contato com a natureza. Procuro manter uma alimentação equilibrada e saudável e mantenho uma rotina de cuidados com a minha pele e cabelos. Também acho fundamental cuidar da saúde mental. Faço terapia regularmente, invisto em práticas de autoconhecimento e estou aprendendo a meditar. Beleza para mim é um conjunto. Quando estamos felizes por dentro nosso exterior também fica mais belo.

Para relaxar um bom/boa… Uma boa música para dançar, uma boa leitura, um bom mergulho no mar, um banho refrescante de cachoeira, momentos em contato com a natureza, assistir um bom filme…

E para conquistar Dandara…? Honestidade, sinceridade, autenticidade, bom humor e otimismo. Respeitar quem eu sou, minha história de vida, meu trabalho e minha individualidade. E se gostar de viajar, também ganha pontos comigo, já que como uma boa sagitariana, adoro ter cia para aventuras e para desbravar o mundo (risos).

Fotos Guilherme Lima

Styling Samantha Szczerb

Cabelo Fellipe Parks

Beleza Lucas Almeida

Agradecimentos: By Segheto, Poema Hit, Corporeum, Duloren, Érica Rosa Atelier, Eva, Wan Soares e M. Loures