Assim como sua recente personagem, a Érika de Um Lugar ao Sol, Fernanda de Freitas é uma pessoa positiva. Que cultiva o alto astral e evolui ao longo do tempo como pessoa mais atenta sobre o mundo que a cerca. Com um jeito de menina, Fernandinha (já nos sentimos íntimos (risos), mantém o mesmo encanto de sempre. O segredo disso tudo? Além da positividade, muito futevôlei, frescobol e exercícios em casa, e claro, ser completamente realizada com o que faz. Seja fazendo graça como sua Marina da Glória, seja passando por dramas como sua Érika, Fernanda segue traçando uma carreira brilhante. Se desconstruindo, criando e recriando emoções através do seu talento.

Fernanda, antes de mais nada, gostaríamos de dizer que é muito bom tê-la de volta à MENSCH (nosso primeiro papo foi em agosto de 2017). Para começar, gostaríamos de provocá-la com uma questão – quem é Fernanda de Freitas hoje? É um prazer estar de novo com vocês. Adoro a revista! Hoje, sou uma mulher mais consciente do meu papel no planeta. Evito plástico, procuro comprar o necessário, parei de comer carne há 3 anos, pelos animais, pelo meio ambiente e por mim. E tenho procurado por produtos que não têm origem animal. Quando compro roupas, olho para o couro e já vejo os bichinhos sendo maltratados e mortos para a nossa satisfação…me dá angústia! Considero uma forma de evolução espiritual. E acho que, junto com esse entendimento, vieram outras percepções da vida que me fazem ser a mulher que sou hoje. Quero ouvir e entender mais o outro e tenho tido mais coragem de dizer não. 

De Coração de Estudante para Um Lugar ao Sol, já se vão mais de 20 anos de carreira. Como avalia sua trajetória até aqui? O que destacaria como imperdível? 20 anos de carreira numa trajetória que gosto muito, passando pela TV, cinema e teatro. Sou apaixonada pelos três “ambientes”, passei pela comédia, drama e tragédia e não tenho do que reclamar. Mas se me perguntar se eu queria mais, eu digo que sim…e continuo querendo muito mais. Como imperdível, na minha carreira, eu destaco a peça Ensina-me a Viver, onde fazia três personagens. Citaria também o filme Malu de Bicicleta, minha primeira protagonista, a série Tapas & Beijos, sucesso durante 5 anos e que até hoje, o público pede uma nova temporada e a peça Pulsões, tragédia em que dei vida a uma bailarina com esquizofrenia. Foi um mergulho profundo! Acho que a Érica, minha personagem em Um lugar ao sol também merece um destaque, por ser uma personagem mais dramática, diferente do que o grande público estava habituado a ver.

De vilã à mocinha, de humor ao drama. Tem de tudo um pouco. Era exatamente isso que você esperava para sua trajetória como atriz? Em um certo momento da minha carreira, comecei a ser convidada só para a comédia e foi maravilhoso, até eu começar a sentir a necessidade de colorir mais a minha paleta. E foi no teatro que eu consegui pintar esse quadro, cheio de camadas e tons diferentes e potentes. Foi catártico! 

Da época da nossa primeira entrevista você estava envolvida com o programa Mister Brau. Uma personagem carismática que caiu no gosto do público, assim como a Flavinha de Tapas & Beijos. Se divertia muito interpretando elas? Que lembranças guarda desses dois trabalhos? Flavinha é a minha personagem mais querida do público, acho que pelo conjunto da obra. Tapas & Beijos foi sucesso de audiência e crítica, texto e direção maravilhosos, uma produção impecável. A química entre os atores foi magnífica e o meu par romântico com o Tufi Tufi deu muito certo. Foi um trabalho prazeroso. Fazer a chefe das grandes Andrea Beltrão e Fernanda Torres me colocou num lugar especial – a fã que admira, observa e bebe da fonte.

Eu ainda estava finalizando o Tapas quando comecei a gravar o Brau. Havia um receio de não conseguir sair da imagem da Flavinha, depois de tanto tempo no ar. E uma série acabou e a outra entrou duas semanas depois, no mesmo dia, mesmo horário. Duas personagens que implicavam com os protagonistas, duas mulheres mandonas, comédia…enfim…era um desafio! Mas deu certo! A série também foi um sucesso. Taís e Lázaro são duas potências. Dois colegas e artistas incríveis e duas figuras super importantes na luta por um mundo mais justo. E o programa abordava esses assuntos, principalmente, a luta contra o racismo. Considero o Mister Brau um dos produtos mais importantes da TV. Um orgulho ter feito parte. 

Falando em Tapas & Beijos, como foi reencontrar Andréa Beltrão em um ambiente tão diferente (e bem mais sério) hoje em dia? Eu amo a Beltrão! Sou a maior fã, foi a atriz que mais vi no teatro e que é dona de um teatro, respeitada e querida pelos colegas. Ela é um luxo! Voltar a trabalhar com ela foi uma maravilha.

A Érica de Um Lugar ao Sol, passa por muitos dramas. Um cunhado violento, ser mãe solteira e um relacionamento onde classes sociais e idade são obstáculos reais. A vida de Érica não é fácil mesmo. E pra você como tem sido viver essa personagem? Sim, a vida da Érica é um drama. Ela sofre por ver a irmã num relacionamento abusivo, sofre por ter sido abandonada pelo pai do filho e ainda com uma dívida que a faz “refém” da casa da irmã e do cunhado, sofre com o racismo sofrido pelo filho, com a paixão por um homem mais velho e de classe social diferente, sofre nas mãos das filhas dele. Mas, apesar disso, ela é uma pessoa positiva, sempre olha pra frente, pensando no melhor. Acho isso admirável na Érica. E tento levar isso para a minha vida.

Qual dessas três questões que a personagem carrega você acha mais importante trazer a discussão para o grande público? Todas as questões são importantes. E abro o leque para os outros assuntos abordados pela Lícia Manzo na novela, extremamente necessários.

Acredita que, para uma mulher se relacionar com um cara bem mais velho, ainda seja visto como tabu ou algo com segundas intenções aos olhos de quem está de fora? Sim. Por exemplo, na novela, mesmo a Lícia tendo construído muito bem o caminho da Érica até a paixão pelo Santiago, mostrando seu caráter, sua honestidade mesmo assim, muitas pessoas acreditam ser uma relação de interesse. É um olhar viciado no preconceito. 

Sua personagem anterior, a Louise (Sétimo Guardião) era uma vilãzinha. É realmente divertido fazer um tipo assim? Ainda mais depois de tantos anos sendo a leve Dona Marina da Glória? É bom poder viver o que lutamos para não ser na vida real…mas confesso que, quando a vilania é forte, isso pode mexer com o aspecto emocional…por isso, é tão importante não levar o personagem para “casa”.

Por sinal, como foi criar sua própria Marina da Glória para fugir das interpretações anteriores? Foi difícil porque não foi uma criação minha. É claro que eu dei a minha personalidade para ela, mas foi uma homenagem à Escolinha do Chico, a Tássia, ou pelo menos, uma tentativa. Espero não ter decepcionado.

O que te move quando recebe o roteiro para uma nova personagem? Como busca sua verdade dentro daquela criação de ficção? O que me move é uma boa história, um roteiro bem construído. A cada trabalho, um mergulho novo. Tento formas diferentes para acessar a verdade de cada personagem. Para a Érica, além de ter estudado muito o texto da Lícia, procurei arquétipos e signos que eu achava que a compunham, fiz fono para o sotaque carioca e treinava em casa, enquanto estava faxinando, falando as minhas falas em voz alta. Eu acredito que a Érica foi construída muito em cima do que eu lia sobre ela. E eu ia repetindo e na repetição, eu encontrava as emoções de cada cena. 

Fernanda, o tempo passa e você continua a mesma fisicamente. Anda tendo aulas com Érica? (risos) Como cuida do corpo e do que não abre mão? André, depois me passa o seu PIX. (risos) Jogo futevolei, frescobol e faço uns exercícios em casa (com a Érica…risos) que misturam força e alongamento. Preciso estar em movimento pelo meu bem-estar físico e mental. 

Quando encerram as gravações de Um Lugar ao Sol, o que procurou para relaxar? Onde recarrega as energias? Fui mergulhar na minha paixão, a natureza de Noronha. Gosto do sol, da água, dos bichos soltos em seus habitats, do chão de terra, as árvores, pôr do sol, o “forrozin” à luz da lua…ah, me arrepia só de pensar…

Nos momentos em que está em casa, de pernas pro ar, o que curte ler, ver e ouvir? O que faz sua cabeça? Estou lendo Cem Anos de Solidão, do Gabriel Garcia Márquez. Gosto de assistir a séries, vejo Um Lugar ao Sol todo dia. E música, depende do que estou fazendo. Gosto bastante de MPB, estamos ouvindo os Gilsons, sempre fui apaixonada pelo Chico. Elis. Adoro forró, Gonzaga…ah, gosto de muita música. 

Para conquistar Fernanda basta… Tem receita, não…(risos)

Para encerrar… O que vem por aí? Quais os planos ou projetos que pode nos adiantar? Estou com um projeto para o teatro, um monólogo com direção do meu amigo, Arlindo Lopes e texto da Carla Faour.

Fotos Fernanda Candido

Styling e produção executiva Samantha Szczerb

Beleza Elcides Freitas

Locação Canastra Rose

Agradecimentos: Fiszpan, Silvio Cruz, 613, Dona Mocinha, Eduardo Guinle, Liebe, Segheto, Passé