Por Nadezhda Bezerra / Fotos Dêssa Pires

Flávia Alessandra é o que se pode chamar de mente e corpo sãos. O equilíbrio entre razão e emoção, entre cuidado com o outro e consigo. Consciente de seus privilégios e da força da sua voz não se cala diante de injustiças, retrocessos e atrasos sociais. Linda e plena é feliz pelo simples, pelo agora e pela capacidade de seguir sonhando enquanto vive e celebra o hoje na alegria prosaica de dividir o sofá com o marido e as filhas. Conheça um pouco mais dessa mulher de talento e força, seja em frente a TV ou de frente para a vida com tudo que ela tem a oferecer, de bom ou não. Nossos aplausos para Flávia Alessandra.

A carreira de atriz começou em paralelo com a de advogada, o que te chamava para o mundo das artes em contrapartida a uma provável vida mais estável, na área do direito? Não posso dizer que tive uma carreira como advogada. Eu fiz direito na faculdade como um plano B, caso eu precisasse. Viver de arte, de fato, é muito instável e eu tinha esse medo. Demorei um pouco até entender que não seria feliz se não fosse atuando. Eu fui entender isso só quando eu fiz A Indomada, em 1997. Ali eu tive o clique de que não adiantava eu procurar outros caminhos, porque nenhum deles me traria felicidade. Amo o que faço e é por isso que me sinto realizada. 

Falando em começo, vamos reviver Top Model, sua novela de estreia, pelo Globoplay. De lá até aqui jornadas e transformações, o que a Flávia de hoje ainda guarda da menina que venceu o concurso do Faustão Melhor de Três? São mais de 30 anos. Hoje eu experimento um lugar mais estável na profissão. Já me consolidei, já conquistei o meu espaço… Já me realizei com inúmeros trabalhos. O que eu guardo daquela menina de 15 anos é a paixão pelo que faço. Sempre que tenho um trabalho novo, eu ainda sinto aquele frio na barriga. Aquele desejo de dar o meu melhor. 

Algo que, com a maturidade de hoje, faria diferente nos primeiros passos de atriz? Não faria nada diferente. A gente sempre faz o nosso melhor com o que temos, com o nível de maturidade em cada época de nossa vida. Mas eu gosto muito da minha trajetória, das escolhas que eu fiz nesse caminho. 

Tânia, Francisca, Sônia, Dorothy, Lívia, Helena, Cristina, o público com certeza tem suas preferidas, mas qual ou quais você considera suas personagens mais marcantes e por que? É difícil eleger uma só. Mas tem duas, na TV, que tiveram um destaque, porque estão ligadas a momentos da vida pessoal. A Dorothy, de A Indomada, como eu disse, ela me trouxe a certeza de que eu viveria daquilo, que meu caminho era na atuação. E a Cristina, de Alma Gêmea, ela chegou num momento em que eu estava muito reflexiva sobre o futuro, com muitos questionamentos… E ela também veio com uma missão pessoal, além da ficção. Ela renovou a minha energia e a minha fé. 

Por vezes a vida nos coloca em situações que nos dividem em “antes e depois”, algo até aqui que possa ser considerado um divisor de águas, seja na carreira ou na vida pessoal? Sim, claro! Existe um antes e um depois de ser mãe. Nascimentos da Giulia e da Olívia são divisores de águas na minha vida. A maternidade é uma experiência transformadora e intensa. Você descobre uma capacidade de amar que é uma loucura. 

Houve o tempo de uma carreira de ator e atriz mais estável, por assim dizer, sendo funcionários de grandes emissoras com liberdade para tocarem seus projetos paralelos e publicidade. Já vem acontecendo mudanças onde os contratos são por obras e grandes nomes da teledramaturgia são demitidos para viverem essa conversão. Como você enxerga tudo isso e que impacto pode ter em sua carreira e na arte em geral? Eu tenho um contrato longo com a casa. E sou muito feliz com a parceria que eu tenho com a Globo. Eu vejo que a empresa está se renovando e se adaptando ao mercado. Existe muito planejamento deles. Temos alguns anos bons para produzir e contar novas histórias. 

Você e Otaviano são vistos como casal exemplo. Isso incomoda ou gera alguma pressão de serem sempre um casal perfeito? Não incomoda em nada. Nós somos um casal normal. Eu não vivo o que a mídia vende. Eu vivo a nossa verdade. Graças a Deus, é uma parceria muito feliz. A gente se ama e gosta de estar um com o outro. Construímos uma família e uma história juntos da qual eu tenho muito orgulho. 

Quase 15 anos de relacionamento e vocês seguem se namorando. A gente sabe que não há receita para dar certo, mas entre vocês dois, o que poderia ser considerada a razão da harmonia e da parceria? Acho que cada casal encontra sua forma de se entender. E aí, vai construindo suas regras e maneira de viver. Nós encontramos a nossa forma. Adoramos ter um tempo só nosso. Valorizamos isso até hoje. Temos a rotina da casa, a rotina como pais, porém, nós não nos esquecemos que somos um casal. E isso é muito importante. Mantemos o romance, a troca, a nossa intimidade. Aquele tempo a sós, é fundamental. 

De 92 a 2002 você foi casada com o saudoso Marcos Paulo, pai de sua filha Giulia. Havia uma diferença de idade de 23 anos, ele ator e diretor de novelas e você atriz ainda em início de carreira, isso levou a algum preconceito entre família, amigos, público e colegas de profissão na época? Como isso tocava vocês? Tenho um grande carinho pela minha história com o Marcos. Foi uma história de amor. E, na época, se teve alguma coisa, eu não prestei atenção. Estava apaixonada e querendo viver aquela história, que me deu um dos maiores presentes da minha vida – a minha filha. 

O que ficou dessa relação, além de Giulia, que te faz agradecer por essa relação? Marcos me deu a Giulia. Isso é um motivo e tanto, para agradecer. E tivemos uma história feliz como casal. É bom ter boas lembranças e guardar esse carinho pelo que vivemos. 

Você já disse que é uma mãe do tipo confidente para Giulia e a pequena Olívia. Como é a relação entre vocês? O que considera mais difícil em criar e educar e como respeitar a personalidade de cada uma, como passa valores e princípios? Eu sou mãe e sou amiga delas. Mas mãe em primeiro lugar (risos). Gosto de conversar, de orientar… Quero que elas me vejam como uma confidente mesmo, alguém em quem elas possam confiar. Isso é fundamental na criação. Não quero que elas escondam as coisas por ter medo de mim. Deus me livre! E quando se tem mais de um filho, você precisa entender que eles são diferentes e respeitar essas diferenças. Assim, você cria laços únicos com cada um deles. 

Novela nova no ar e lá vem uma pandemia levando a todos, por saúde e segurança, ao isolamento social. Como foi lidar (e ainda estar com limitações) com isso tudo em casa, no trabalho e na vida social? Foi um ano muito difícil. Jamais imaginávamos passar por uma situação como essa. Parece que estamos num filme de ficção. Passamos por um período mais difícil, mas logo a gente se reorganizou e adaptou a vida. Criamos todo um fluxo de funcionamento na casa e com todos participando. E eu sempre friso, por mais difícil que tenha sido, somos mega privilegiados. Não posso reclamar, porque eu tinha um teto, minha família, um trabalho que me permitia ficar em casa… E as pessoas que não tinham nada disso? Isso, para mim, foi mais angustiante. Estar em casa e saber que milhares de pessoas estavam passando necessidade e em situação de vulnerabilidade. 

Entre máscara, vacina, mortes, desrespeitos a regras de segurança e crendices no lugar da ciência, o que fica dessa experiência distópica e qual o seu olhar sobre a humanidade hoje? Acho que o que ficou muito forte é o quanto nossas atitudes individuais impactam no coletivo. Temos que vigiar nossas ações e pensar o quanto que ela mexe com o meio-ambiente, com os que estão próximos de nós… Isso para o bem e para o mal. Se a gente pode fazer algo que ajude a natureza, ajude o nosso semelhante, não podemos deixar para amanhã. Temos que fazer agora. 

Você passou dos 40 ainda mais linda e plena. Como lida com a beleza que te acompanha e com a idade que, culturalmente, é tratada como um peso para a mulher? Eu lido bem com o passar dos anos. Gosto do que vejo no espelho. É claro que eu me cuido, vou à dermatologista, passo todos os creminhos indicados e faço o que minha médica me indica. Mas é um cuidado que eu gosto de ter comigo. É um momento que dedico a mim. De fato, essa cobrança pela juventude eterna é muito chata. Vejo amigas que sofrem com comentários na internet. Amores, envelhecer faz parte do processo. Minha preocupação é passar por esse processo da melhor forma possível. Cheia de disposição e feliz, que é o que mais importa. 

O quanto é cuidadosa da beleza e o quanto é entregue as ações naturais do tempo sem qualquer noia? Eu não tenho noias! Mesmo! Nem é papinho porque é uma entrevista (risos). Eu me cuido porque eu gosto. E acho que é muito mais legal fazer tratamentos preventivos do que algo invasivo. Cuido do corpo porque eu gosto de me exercitar. Não faço nada por obrigação, para responder às expectativas dos outros. É tudo por mim e para mim. E acaba que esses cuidados reverberam positivamente, mas eles não são a meta de uma vida, entende? Eles são consequências, apenas. 

Por duas vezes você foi capa da Playboy. Vaidade? O que nu significa pra você? A proposta financeira foi muito boa. E eu tinha a possibilidade de fazer as fotos com uma equipe de confiança e de bom gosto. Acho que existe um tabu grande com o nu, que eu mesmo não entendo. Fiz dois ensaios muito bonitos, que eu gostei bastante do resultado. E também estava em momentos da minha vida que eu via motivo para fazer. 

Já falamos da sua beleza, mas ela parece ser acompanhada por equilíbrio emocional, estamos certos? Qual a rotina de corpo e mente sãos? Com certeza! Beleza está intimamente ligada ao emocional. Precisamos estar bem com a nossa mente para nos sentirmos bem com nosso corpo e com quem somos. Faço ioga todos os dias, faço exercícios regularmente… Mas o segredo é esse: equilíbrio emocional. 

Quais seus grandes prazeres do corpo e da alma na vida? Estar no sofá com minhas filhas e meu marido (risos), vendo um filme ou só conversando. É um dos meus grandes prazeres na vida. Esse é o universo que eu construí e sou muito orgulhosa dele. 

Hobbies e manias, tem? Parece que Otaviano já andou te “entregando” (risos). (Gargalhadas) Otaviano não vive sem mim, aí fica falando de mim por aí (risos). Hobbies, tenho um que amo: cuidar das plantas da casa e conversar com elas. Eu amo! 

Ao mesmo tempo que vivemos alguns passos para trás também temos dado vários para frente, com muita luta, contudo ainda há muito a se fazer, aprender e mudar em relação ao machismo e ao preconceito em suas diversas vertentes. Qual o seu olhar sobre isso tudo e como usa sua voz de pessoa pública e influenciadora nesses assuntos? Infelizmente vivemos o reflexo de uma sociedade machista e patriarcal. E todos os movimentos são muito novos se comparados a esse tanto de séculos em que a mulher tinha que ser submissa, em que o negro era escravo, em que homens não podiam amar homens. E nem mulheres amar mulheres. Como uma pessoa com voz, eu não posso me calar diante do machismo e de nenhum preconceito. Sou feminista, tenho orgulho da luta e da conquista do feminismo. Temos ainda muito o que caminhar, mas graças a mulheres fortes, hoje nós votamos, temos nossas vozes ecoando e estamos conquistando o espaço que nos pertence. Não podemos mais nos calar diante das injustiças que existem. Eu não me calo! 

Quando a pandemia interrompeu as novelas, a sua personagem em Salve-se Quem Puder ainda era um mistério com segredos não revelados, o que podemos esperar pro ano que vem na retomada? Ah, não posso adiantar! É surpresa (risos). Mas a próxima temporada da novela está muito legal e especial. Muitas reviravoltas, humor…Vocês precisam assistir. 

Você é uma pessoa do agora ou do futuro, para onde foca o seu olhar e energia? E ainda, é mais regida pela razão ou pela sensibilidade? Cada vez mais do agora. A felicidade está aqui no presente. Se você projeta a felicidade para o futuro, você nunca será feliz. Valorize as coisas que conquistou, independentemente do tamanho delas. É a sua conquista. O aqui e agora é o segredo para termos uma vida melhor. Não adianta esperar algo que ainda não chegou. Eu sou uma mistura de razão e sensibilidade. Tenho uma boa dose dos dois em mim. 

Tendo conquistado tanta coisa sobra ainda algum desejo a ser realizado que possa nos contar? Sim, sempre tem! E isso é muito bom, porque vamos nos renovando e criando novas metas. Eu sou embaixadora da Brazil Foundation, então, estou sempre querendo ajudar e realizar mais e mais. Criar iniciativas que diminuam essas disparidades sociais. Criei agora o meu bazar-brechó virtual, o fa.forpeople, que é um outro projeto muito especial para mim. São mais de 500 peças minhas no site. Com preços acessíveis. Eu gosto de criar, de estar em atividade. É por isso que sempre existe um desejo novo. E isso me motiva e me renova!