
PARA ALÉM DE UMA MERA PARCERIA MUSICAL, O CASAL DE MÚSICOS BELLA SCHNEIDER E EUGENE LAMY DESCOBRIRAM EM COMUM O AMOR.
Fotos Newman Homrich
A mistura musical que deu certo. Entre Alemanha e Irlanda, do erudito ao pop, do clássico ao regional, dos palcos de festivais aos teatros. Todas essas disparidades poderiam distanciar, mas no caso da cantora Bella Schneider (@bellaschneideroficial)e do maestro Eugene Lamy (@maestroeugenelamy) só atraiu e deu o match final. Juntos como artistas e como casal eles têm descoberto cada vez mais afinidades e possibilidades de criar musicalmente. E é desse encontro que batemos um papo com dois para conhecer um pouco dessa dupla que vai longe dos palcos da vida.
Quer dizer que a música reuniu esse casal e além de projetos juntos, surgiu um belo romance. Como foi esse encontro? Quando tudo começou? Bella: A gente sempre brinca que a música fez o match antes da gente. Ironicamente já havíamos nos visto em um restaurante que fica exatamente no centro de distância entre uma casa e outra. Poucas semanas depois a gente se reencontrou, e a ideia de trabalhar juntos veio de forma super natural.
Eugene: É verdade. Tudo começou muito orgânico. A admiração iniciou sobretudo por conta do conjunto artístico um do outro, e as possibilidades de unir estes contrastes de vida e música. Brasil, França, Alemanha e Irlanda.


Musicalmente o que vocês têm em comum e o que buscam? Bella: A nossa paixão por narrativas fortes, culturas, o perfeccionismo e o objetivo de poder dar e criar sempre o melhor, nos guia nas produções e métodos de trabalho. Não importa o gênero, o importante é que toda interpretação conte uma história que emocione e impacte vidas.
Eugene: Isso. Acredito que a nossa maior afinidade é essa busca incansável por significado. Consistência, para nós, não é só manter padrão, mas sustentar um nível de sensibilidade que permita que a música realmente toque as pessoas. Queremos que cada performance carregue intenção e verdade.
Eugene, como é sair do universo da música clássica e se jogar no pop? Não diria que é sair, mas sim aprender uma nova maneira de se expressar de forma mais livre. Desde quando estudava na Munster Technological University na Irlanda, fiz diversas participações com bandas locais, além dos estudos do clássico, que me levou a turnês como a Orquestra Juvenil da Europa (EUYO), e serviram de base para recitais solo. Então, no fim, não é sobre trocar de universo, mas sobre ampliar o meu. O pop me permite comunicar com mais liberdade, sem perder a precisão que o clássico me deu.

Bella, e pra você, como é sair do pop, do rock e se desafiar no clássico? É desafiador no melhor sentido, e ao mesmo tempo familiar. Eu comecei meus estudos no canto lírico, aos 7 anos, e cresci com meus pais ouvindo e dançando música clássica, ritmos brasileiros, nordestinos e internacionais. O clássico tem uma profundidade que exige presença total, algo com que me conecto intensamente. É um universo que pede uma atenção meticulosa, em contraste com a espontaneidade do Blues, do Jazz e do Pop. Ainda assim, existe espaço para improviso e personalidade. Cantar com orquestra, quartetos e com o Bellícello tem me feito crescer muito como artista e intérprete. Assim como quando tocaram músicas minhas no Tomorrowland, é outro tipo de timing, mas agora com ainda mais pessoas interligadas, dependendo umas das outras e do maestro para que tudo permaneça coeso, em uma junção fantástica.
Como essas misturas complementam vocês como artistas? Bella: Pra mim, foi uma maneira de revelar um lado que sempre esteve aqui. Foram anos de construção para conquistar espaço onde mostrar todas as minhas facetas como cantora, compositora, instrumentista, produtora, vocal coach; pois ser múltipla faz parte de quem eu sou. Poder expressar essa pluralidade em mais um estilo é uma oportunidade de mostrar minha identidade em uma configuração ainda mais completa. E, claro, eu sempre imprimo minha assinatura em cada versão, gravação ou show. Se eu sinto a energia, o público sente junto, e é aí que a troca acontece.
Eugene: E no encontro disso nasce algo que não pertence a nenhum gênero específico, é nosso. Acho que esse é o maior presente da mistura.


Bella, e como surgiu o Popzeira? A Popzeira nasceu da minha necessidade de encontrar um estilo que me representasse por inteiro. Por ter essa mistura “teutornambucana”, percebi que o Rock, que me deu destaque no The Voice Brasil e meus primeiros prêmios internacionais, não comportava tudo o que eu queria expressar. Não seria fácil encaixar a minha paixão pela dança, minha teatralidade e minha ligação inevitável com diferentes ritmos. Essa combinação acabou se tornando a minha marca. O brasileiro é um mix, e comigo não seria diferente. Trago alfaias e berimbau, violão de aço, beats eletrônicos, guitarras, cello, tudo o que fizer sentido em determinado universo. A ideia é justamente não impor limites à criação, levando música para festivais da Europa, EUA e Brasil. Nas letras, gosto de abordar empoderamento, críticas sociais, relacionamentos tóxicos, sempre com uma estética dançante. Também falo de amor, claro. A complexidade deixo com os arranjos, mas mantenho a harmonia acessível, para que qualquer pessoa possa aprender a tocar. E foi dessa soma surgiu o nome “Popzeira”, um termo que vai muito além do som.
Como vocês enxergam o mercado musical atual com o digital? Quais os desafios? Bella: O digital tornou tudo mais rápido e visual, o que abriu portas e ao mesmo tempo criou novos desafios. Hoje qualquer artista consegue gravar e lançar com poucos recursos, e isso nos dá liberdade para experimentar e falar diretamente com o nosso público. Por outro lado, a competição deixou de ser só musical, e virou algorítmica. A produção em massa somada à IA, tornou o cenário mais mecânico, e manter autenticidade exige estratégia e uma equipe alinhada. As redes viraram parte central do trabalho, como um portfólio contínuo que pede tempo, energia e investimento. Ainda assim, vejo o digital como uma ferramenta poderosa. Ele nos permite criar e testar ideias. Isso também nos leva a atuar em campos relacionados. Eu por exemplo, também sou apresentadora de TV e de grandes eventos, áreas que ampliam minha comunicação com o público, onde eu faço questão de chamar atenção para a valorização dos artistas da nossa região.
Eugene: O digital mudou tudo, inclusive o universo sinfônico. Hoje não basta tocar bem, é preciso comunicar bem, criar contexto e dialogar com públicos que consomem música de formas muito diferentes. Isso pode parecer um desafio, mas também abre possibilidades enormes. Vejo o digital como uma ponte que permite aproximar linguagens, renovar plateias e mostrar que o clássico e o pop podem coexistir em equilíbrio. Um exemplo disso foi o concerto em que lotamos o Teatro de Santa Isabel com Nena Queiroga, Bella Schneider e a Orquestra Sinfônica do Recife uma mistura que conectou tradição, contemporaneidade e identidade regional através de uma homenagem à Luiz Gonzaga, com arranjos impecáveis do pernambucano Kidbone. No fim das contas, o mercado atual recompensa quem entende o tempo em que vive. Não é sobre seguir a tendência do dia, mas sobre manter profundidade enquanto se comunica de forma relevante. Isso, para mim, é o que sustenta a longevidade.


Quais os planos futuros? O que vem por aí? Bella: Seguimos com o Bellícello, com novos concertos, versões e colaborações. E meus lançamentos continuam a todo vapor. Estou entrando numa fase mais madura e intensa, revisitando composições inéditas e trazendo músicas que exploram meu lado internacional com ainda mais coragem. Também venho trabalhando com profissionais incríveis, como no álbum “ELA”, que produzi ao lado de vencedores de GRAMMYs e Oscars de várias nacionalidades, somado à honestidade do EP “SER”, para entregar aquela mistura única que define a POPZEIRA.
Eugene: Temos projetos juntos e também novidades individuais. 2026 promete novas gravações, mais pontes entre o clássico e o pop e uma expansão do nosso trabalho. Também estou estruturando bases sólidas para iniciativas permanentes na cidade, inclusive a criação de uma associação que sustente esse fluxo criativo. A ideia é garantir a continuidade de projetos essenciais, como a Orquestra de Câmara do Alto da Mina, em Olinda, da qual sou diretor artístico e maestro. Seguimos preparando a segunda edição do Festival Momento Musical, que criei com a intenção de tornar a música clássica mais acessível para a sociedade, dando também mais possibilidades aos músicos do clássico aqui em Pernambuco. O Festival estreou com grande sucesso junto ao virtuoso violinista irlandês Patrick Rafter, que abriu portas para novas parcerias com artistas, produtores e maestros, que querem construir essa estética híbrida conosco. Já estamos tanto eu, quanto Bella, em busca de mais parceiros e patrocinadores para um próximo ciclo maior.

Agradecimentos: Casa Cor PE
Assista uma breve entrevista com Bella e Eugene:


