odemos dizer que nosso entrevistado, o fotógrafo paulistano Bob Wolfenson, tem estado presente na cena editorial brasileira desde os 16 anos de idade quando aceitou o desafio de trabalhar para a Editora Abril, a gigante do mundo das publicações brasileiras. Uma das referências nacionais nos mais diversos segmentos do mundo da fotografia, tais como retratista, fotógrafo de nu e de moda, tornou-se um dos mais consagrados fotógrafos desses segmentos. Wolfenson transita entre a publicidade e a arte, e já trabalhou com os principais gênero fotográficos, o que tem feito com muita competência e sucesso, quer seja em seu estúdio, em viagens pelo Brasil ou pelo mundo afora. Suas obras estão nos acervos do Museu de Arte de São Paulo, do Museu de Arte Moderna de São Paulo, do Museu de Arte Brasileira da Faap, do Itaú Cultural, entre outras coleções. O artista está com a exposição – Bob Wolfenson: Retratos, aberta 2018, no Espaço Cultural Porto Seguro – São Paulo, e ano passado em Fortaleza no museu da Fotografia, onde, espetaculares 200 retratos produzidos pelo artista ao longo de sua carreira de 45 anos, estão expostos, os quais vão de Fernanda Montenegro, Gisele Bündchen, Chico Buarque, Pelé e Sebastião Salgado, entre outros, incluindo seus cliques como paparazzi de celebridades tais como Sophia Loren e Charles Chaplin.

Bob, poderíamos dizer que ser fotógrafo profissional hoje em dia está mais difícil? O que mais mudou nesse mercado? Principalmente a extinção de várias publicações, onde tínhamos a possibilidade de experimentações e visibilidade de nosso trabalho.

Você é uma das referências da alta fotografia brasileira hoje em dia. Você se vê assim? Acha que chegou onde queria? Sim me vejo, pois todos me dizem. No entanto, me sinto desafiado e com ganas de fazer mais. Enquanto eu estiver vivo e pensante, me exprimirei através do meu trabalho.

Para quem não o conhece, como foi seu início na fotografia? Em que momento ela passou a ser profissão para você? Desde o começo, pois meu pai morreu e eu fui trabalhar no estúdio da Editora Abril, ou seja a fotografia caiu sobre mim, mais como uma contingencia da vida do que propriamente como uma vocação. Bem mais tarde, é que fui me sentir, de fato, um fotografo que tinha algo a dizer.

Você acha que com o avanço tecnológico e a “democracia” da fotografia a profissão ficou “banalizada”? Não exatamente, acho que ela está banalizada onde ela sempre foi banal, ou seja, quando o fotografo não tem nada a dizer. Não me canso de ter como exemplo a seguinte afirmação – nem todo mundo que escreve em português ou qualquer outro idioma é escritor, portanto nem todo mundo que fotografa, é fotógrafo.

Você se tornou uma referência em matéria de nu feminino para a Playboy. Em seu recente livro você fala da época em que existia uma “receita” de como fotografar a modelo, com tantas fotos de frente, outras tantas de costas… Hoje, como você ainda entende essa necessidade de seguir uma “receita” para fotografar um nu feminino para a revista? Em algum momento achou que, sim, era necessário? Não, nunca achei, mas era a minha condição de iniciante onde eu não tinha muito cacife pra me impor. Quando pude, nunca mais fiz a receita, mas obviamente sei os limites de uma revista e sempre tentei ultrapassá-los.

Em seu livro você fala que foi com o ensaio de Maitê Proença, na Sicília, que você quebrou a regra da “receita de bolo” e teve liberdade para criar. Isso foi algo que partiu de um desejo pessoal ou foi algo em comum com a atriz? As duas coisas. Havia um desejo meu de trazer para as fotos de nus a experiência que eu tinha como fotografo de moda, onde eu já incluía pessoas locais com as modelos nos ambientes delas mesmo. E a Maitê também quis isso, a partir de uma experiência dela na Índia.

Ainda sobre a Playboy, consegue citar algum ensaio lhe deu mais satisfação em fazer, que você guarda ótimas lembranças? Todos os que eu pude fazer da forma que eu imaginava. Pra ficar entre alguns: Maitê, Alessandra, Fernanda Young, Nanda costa, Vera Fischer, Carol Castro, Regiane Alves, Natalia Rodrigues, Mylla Christie…

Você costuma dizer que um bom retrato é um “milagre”, uma junção do que o veículo encomendou, a expectativa do modelo e do fotógrafo. Existe alguma técnica ou roteiro que facilite que isso ocorra? Sim, o meu método e a confiança mútua no set fotográfico, isso já é meio caminho andado, o resto é um fluxo imponderável.

Você já entregou, ou entregaria, uma foto que o veículo e o modelo acharam perfeita, mas, no fundo, não foi o seu ideal para a foto? Como conduzir isso? Modelos, excetuando a Gisele, não interferem em escolha de fotos. Se eu não estiver contente, tento não entregar e fazer de novo, mas se estamos num deadline, aí, vai assim mesmo. Uma trajetória também é feita destes pequenos fracassos.

Para você o quanto se pode alterar uma foto no computador? Existe limite? Depende do que se quer, há um amplo espectro de vontades e conceitos ligados a ideia de manipulação. Eu, pessoalmente, não uso muito, mas entendo quem usa e possa gostar.

Qual o limiar entre uma foto meramente técnica e uma obra de arte fotográfica? A exata diferença entre uma foto meramente técnica e uma obra de arte, ou seja, muitas vezes uma foto sem nenhuma técnica fala mais ao coração olhos e emoções do que uma super bem realizada. Me incomoda fotógrafos que falam muito de equipamento e não se atêm às ideias ou à comunicação de um conceito.

Pode-se treinar o olhar para se tornar um bom fotógrafo? De que forma? Acho que exercitar sim, adicionado a mais repertorio, mais técnica, mais inteligência e mais talento.

O que te incomoda e instiga na fotografia comercial? Hoje em dia a fotografia comercial virou um recorte, são pedaços colados que vão parar nas publicidades. O fotografo não é mais autor ele é um artesão. Nada contra, é a liturgia do oficio, mas gostava mais quando me encomendavam uma fotografia de verdade.

Como foi selecionar mais de 200 retratos para a mostra? Que critério usou? Foi o Rodrigo Villela, curador da mostra, quem escolheu e deu um novo nexo àquelas imagens todas. Partimos de um universo de mais de mil imagens pra chegarmos às finais.

Quando surgiu a ideia dessa mostra? Está realizado com o resultado? Surgiu há uns dois anos. Sim estou feliz, realizado jamais, pois sempre vejo coisas que não gosto ou que teria feito de uma outra forma, mas os trabalhos são assim mesmo, ganham vida própria independentemente de nossas vontades.

Como você se definiria como fotógrafo para alguém que não conhece seu trabalho? Advogo a ideia de estar em trânsito. Transito por muitas vertentes da fotografia e todos os fotógrafos que me habitam estão presentes quando estou sendo somente um deles. Mas gosto muito de uma frase do falecido fotógrafo Americano, Gary Winnogrand, ele dizia “Fotografo pra ver o mundo ou a coisas fotografadas”. Sou um pouco isso.