Quando você vê aquelas cenas incríveis de perseguição, tiros, bombas e muita ação em filmes e séries imagina logo o trabalho que deve dar em montar tudo aquilo. Ou mesmo um baita clipe de algum cantor famoso que mobiliza uma multidão de gente pelas ruas de Miami ou alguma cidade famosa do mundo. Por trás de tudo isso, existe o competente trabalho de um location maneger que torna tudo isso possível. E aí chegamos até nossa mulher da capa, a brasileira Juliana Zanon, natural de Minas Gerais, que chegou nos EUA aos 10 anos de idade e de lá, não saiu mais. Somando experiências em diversas áreas de trabalho que vão da música ao cinema, Juliana é a mulher que torna o entretenimento real e cheio de emoção. Aliás, monotonia não faz parte da rotina dessa brasileira que se tornou uma referência em Miami quando se pensa em locação para grandes produções mundo afora. Ela já trabalhou com grandes artistas, tais como os cantores estrangeiros Drake e Alicia Keys, tanto como os brasileiros Anitta, Gilberto Gil e Marisa Monte. Já cuidou de grandes sucessos do cinema como Homem de Ferro, até sucessos de TV como a série Dexter. Mas Juliana não para e com certeza, ainda veremos seu nome em muitos créditos em grandes produções por aí. Conheça um pouco mais dessa mulher incrível e seu trabalho fantástico.

Juliana, hoje você já é uma referência na área de locações nos EUA. Mas como isso tudo começou? Quando foi o “pulo do gato”?! Eu sempre tive uma grande paixão pelo audiovisual – cinema, televisão, e sempre me projetei trabalhando nessa área. Aos 16 anos comecei a trabalhar em New York, produzindo shows internacionais como Alicia Keys, Counting Crowns, incluindo alguns shows de grandes nomes da MPB brasileira como Gilberto Gil, Daniela Mercury, Caetano Veloso e Marisa Monte, entre outros que passaram por lá. Com o tempo, percebi que precisava enfrentar novos desafios e tive a chance de integrar a equipe de produção de renomados festivais de cinema internacionais nos quais tive a oportunidade de expandir meu conhecimento e viajar pelo mundo, produzindo festivais em Vancouver (Canada), Madri e Barcelona (Espanha), Londres (UK) incluindo Miami e NYC. Esse contato com autoridades locais de cada cidade, cineastas, roteiristas e diretores, foi o meu ingresso definitivo no mercado internacional de cinema. Após 9 anos dedicados ao mundo dos festivais de cinema, decidi investir em minha produtora e fundei a 2Do Productions LLC, onde atendemos clientes de todo o mundo para produções nos USA ou pelo mundo. 

No começo sentiu algum preconceito por ser brasileira e está dominando um espaço em um país que não era o seu? Não! Eu cheguei aos Estados Unidos com 10 anos de idade e me naturalizei americana. Sou muito grata ao país que me acolheu e me fez sentir em casa. Quando falo que nasci no Brasil, as pessoas adoram e os comentários são sempre com uma referência positiva. 

O que pode tornar seu trabalho mais difícil ou mais fácil? Acredito que, quando um cliente tem um projeto mas não tem um budget adequado ou não entende as regras e burocracias para a realização de filmagens de cada país, acaba retardando um pouco o processo de produção. Por exemplo, em cada estado dos Estados Unidos a burocracia para permissão de gravação é diferente e depende da necessidade de cada projeto. Para os clientes internacionais (que vem de fora dos USA) a maior dificuldade é fazê-los compreender que aqui realmente temos que realizar tudo dentro da lei, que essa é a melhor maneira de filmar com segurança e não ter nenhum problema com o governo.

O que pode facilitar é quando existe um bom relacionamento com o cliente e ele já me contrata sabendo que está em boas mãos e que a minha intenção é conseguir realizar tudo que ele precisa, dentro das leis locais. O primeiro passo é entender com o cliente, o seu objetivo – o “sonho”, qual o budget para viabilização do projeto e em seguida, basear-se em alinhar pensamentos, estratégias que ajudarão a manter o foco e alcançar resultados mais elevados.

Seu trabalho já tornou viável filmagens tanto de filmes importantes de Hollywood, como Homem de Ferro quanto de seriados, tais como Dexter e até novelas brasileiras como Malhação e clipes, como o de Anitta. Cada tipo de trabalho desse (filme, série, clipes e novelas) tem suas particularidades e dificuldades, ou depois que você pega o ritmo não tem diferença? Cada projeto tem uma necessidade ímpar, especifica, e por isso eu me dedico 100% a cada cliente, independente do budget. 

Dá pra citar algum que deu mais trabalho, porém mais satisfação?  Sem dúvidas o music video God’s Plan (ano 2018) do cantor Drake foi um dos mais gratificantes na minha carreira como location manager (diretora de locação) e sem dúvidas mais trabalhoso que vivenciei. Além de ter sido uma experiência única – pois Drake doou $1 Milhão de dólares da sua conta pessoal, para pessoas com extrema necessidade – eu me envolvi com cada história ali contada de superação e de amor ao próximo. Foram 2 dias intensos com mais de 12 horas de gravação por dia em diversas locações externas em Miami, com uma logística de produção e segurança impecáveis. No ano seguinte, fui convidada pela produtora para integrar ao time e ser novamente a location manager do music video In My Feelings do mesmo cantor Drake, que gravamos nas ruas de New Orleans (Lousiana) e que viralizou com o famoso Kiki Challange. Viajar pelo mundo e ter contato com pessoas de diferentes costumes e culturas é, sem dúvida, uma das partes mais gratificantes do meu trabalho como location manager

Já rejeitou participar de alguma produção? Se sim, por que? Quando entro em algum projeto, o meu foco é 100%. Por isso, não rejeito trabalho. Eu exponho ao cliente a minha agenda e tentamos encaixa-lo na melhor data que eu tenho disponível para que assim, eu passa atendê-lo com excelência. 

Você já produziu algum projeto no Brasil? Se sim, como foi? Se não, tem esse desejo? Sim, alguns. Em 2014, fui contratada para produzir ações de marketing para uma empresa/cliente do México durante a Copa do Mundo no Brasil. Assinei também como diretora de produção o clip Deixa Ele Sofrer da cantora Anitta que gravamos em São Paulo, em diversas locações. Levamos um diretor de Miami conosco e o resultado, ficou incrível. 

Como foi viajar pela Europa e Estados Unidos com Roberto Carlos para as gravações do especial RC 2019? Eu sou muito fã de documentários em geral, e posso dizer que quando recebi este convite dos diretores LP Simonetti e Boninho para integrar ao time de produção como produtora local, nas cidades em que gravamos, foi um presente. Eu estava confiante, pois já tinha produzido em todas as cidades onde realizaríamos as filmagens (Miami, NY, Londres, Madrid, Lisboa, Paris) e conhecia bem o diretor LP Simonetti de outras produções que trabalhamos juntos pelo mundo. Tinha ciência da responsabilidade que estava assumindo e montei uma equipe de apoio em cada cidade, para ter certeza que a entrega seria como esperado. Além de poder ver de perto o dia a dia de um ícone da música brasileira e o quanto ele é respeitado mundo a fora, entrevistei mais de 200 fãs do cantor nessas cidades. Tenho boas história pra contar e posso dizer que foram grandes emoções! Um grande presente na minha carreira. 

Você já mora nos EUA desde criança, criou raízes e adquiriu costumes locais. Já se sente mais americana que brasileira? Que costumes de sua terra natal você guarda? Eu me sinto a mistura perfeita, acho que consigo ter meu jeitinho brasileiro, engajada com a postura e profissionalismo típico de uma americana. Da minha terra natal, eu guardo ensinamento de como respeitar as pessoas, como respeitar a hierarquia da indústria e como ser uma pessoa transparente tanto na vida pessoal como na vida profissional. 

Como estava o movimento de produções tanto americanas quanto brasileiras em Miami antes da pandemia? Estávamos em nosso melhor ano, com agenda cheia até Junho e já tendo realizado 4 grandes produções nos dois primeiros meses de 2020. Mesmo com o dólar em alta, recebemos algumas cotações vindas do Brasil. Com a pandemia, muitos clientes se reinventaram com o mercado das lives, e também gravações feitas com celulares que enviávamos para a casa dos atores. Ajudou a manter, um pouco ainda, o nosso mercado. Assim que o governo começou a anunciar a reabertura para a primeira fase, muitos clientes já retomaram as ligações e começamos a pré-produzir, deixando tudo alinhado para que pudéssemos voltar às gravações dentro dos padrões de segurança para o Covid-19. 

Falando nisso, como as produções têm se comportado nessa retomada? Como anda o ritmo de gravações? Eu tenho uma facilidade grande para me adaptar às diversas situações, porém acho que ninguém esperava ter que se adaptar a uma pandemia mundial. Retomamos as gravações em agosto com muitos protocolos de segurança a serem seguidos, uma equipe reduzida e um sentimento estranho de incerteza. Porém, estamos nos reinventando e aprendendo a lidar com as mudanças.

Como enxerga essa área de entretenimento se reinventando nesse “novo normal”? O mundo precisa também do entretenimento e isso ficou ainda mais claro durante a pandemia onde teve a popularização das lives e muitos trabalhos dentro das mídias sociais das personalidades. Mas não podemos esquecer que ainda temos muitas pessoas desempregadas do mercado do entretenimento e audiovisual. Nos USA, a indústria de TV e cinema correu contra o tempo para colocar no ar as novas peças publicitárias dentro do novo padrão de saúde mundial. Com isso, assim que o governo liberou para voltarmos aos trabalhos, o que foi um árduo trabalho entre o meu departamento de locações de filmagens, o cliente, a agência e diretores de criação para regravar muita cena adaptando os atores ao uso de máscaras, reforçando os protocolos de segurança para o Covid-19. 

Existe diferença entre produzir em Nova York, Miami ou em Orlando? Onde é mais fácil ou difícil? Sim, e muita! Cada cidade tem suas particularidades e regras para autorizações. As leis para autorização de filmagens são diferentes para cada cidade, não existe o mais fácil ou mais difícil – o importante, é saber as exigências de cada uma e cumpri-las para poder executar as gravação sem dor de cabeça. 

Algum desejo de trabalho em produzir algo específico? Sim, sem dúvida ainda tenho em minha wish list integrar na produção do Oscars ou Emmy. 

Chegou hora de relaxar, o que faz sua cabeça? A companhia daqueles que eu amo. Estar ao ar livre e tomar uma cervejinha bem gelada, vendo o pôr do sol. 

Qual sua maior vaidade? Ver um projeto realizado sem falhas. 

Onde e como recarrega as baterias? Dormindo… (risos)! É o único remédio, pois os dias de gravações são intensos – as vezes de 18 à 20 horas consecutivas. Então, chegar em casa tomar um banho, deitar e abrir um bom vinho é sem dúvidas a melhor forma de recarregar minhas energias. 

Quais os projetos para os próximos meses? 2020 acaba positivo? Depois que retomamos as gravações nunca paramos, e em dezembro, vamos finalizar a gravação de dois comerciais de TV e um music video de uma renomada cantora americana (ainda não posso revelar quem é). Mas o saldo deste ano, para mim está sendo positivo – mesmo com tudo isso que estamos passando. 

Fotos Denis Dufresne