HORIZONTE: MARAJÓ: ENTRE RIOS E HORIZONTES

Texto Andrea Hunka / Produção Sofia Hunka / Fotografia Bruno Jungmann

Adentrar as águas castanhas do Rio Parauaú e ver o entrecorte que as copas das árvores fazem ao amanhecer com os raios solares nos dá o primeiro abraço ao chegar por aqui. A Ilha do Marajó, no Pará, tem essa beleza que nos embarga de soberania nativa da floresta amazônica e das áreas de várzeas, com sua rica fauna e flora: peixes, aves, quelônios (tartarugas, cágados e jabutis) e espécies vegetais de alto valor e encantamento.

Tudo aqui é um misto de realidade propulsora da vida, uma potência que nos expõe ao máximo qual é a nossa missão terrena, a responsabilidade e, principalmente, a ciência de que este lugar é mais que mágico – ele é necessário, é um útero da vida e não pode sumir, ou a nossa própria existência será sucumbida. Assim, sinto e seguimos entre direções que se embalam nos manejos e marolas das ondas revoltas, que pulsam a força e sobrepõem à vida, nos embalando para viver outras situações poéticas.

Ao olhar ao redor e respirar oxigênio em abundância, percebemos o rumo que a trajetória explode a partir dos primeiros sons que vêm da trolagem das embarcações, comando do dia a dia, por cidadãos que começam a labuta bem cedo e cujos corpos florescem nos primeiros raios de sol, no manejo da vida que se desenvolve às margens dos rios. e que vai surgindo nas primeiras aparições dos alagados.

TERRAS FÉRTEIS

São corpos que vagueiam ao norte dos ventos, que saltam de nordeste a leste, vindos do Atlântico — ventos úmidos, com sensação térmica elevada, que trazem brisa e favorecem o plantio, conduzindo os que entendem sua linguagem.

Ao longo do percurso, sobre os respingos das águas, a riqueza das matas vai dando o bom-dia. São férteis várzeas, de uma terra preta que transborda sabores tecidos na maniçoba, no tucupi, na caldeirada dos peixes tucunaré, pirarucu e pescada, no tacacá, na carne preta do búfalo criado nos mananciais alagados, levando o homem a remotos lugares – nos sabores artesanais e nos remédios caseiros das ervas nativas. No milho crioulo, nas frutas em pencas, nas cerâmicas produzidas como utensílios e urnas funerárias, com ricos desenhos zoomórficos e antropomórficos – nas pescas, nas coletas e na agricultura, tudo isso é do povo Marajoara e Aruã, que construíram este lugar há muito, através de obstinação e resiliência, mesmo ante ao colonialismo, às missões, aos ataques e furtos de suas terras e ao apagamento de suas míticas e concepções de vida. Eles aqui estão.

Dentro de cada ribeirinho, no sangue que corre fluido e cheio de vitalidade, através do olhar das Marias ao vislumbrarem as margens do rio, da educadora Maria do Nazaré, que nos presenteia com sua sabedoria e lindo sorriso que é um abraço, típico das mestras da educação deste país, e de Raimunda, parteira tradicional do Marajó, que nos enaltece por sua doação a outras vidas — todas essas vidas tecidas e regadas pelas águas e pelo sangue do Marajó. São vidas vividas e costuradas nos veios dos rios. Filhos  que só podem ter sido concebidos de lindos pais botos (Cor-de-Rosa ou Tucuxi), protegidos pela Boiúna – Cobra-Gigante, pelos encantados das águas, Matinta Perera, Curupira, Divino Espírito Santo, São Sebastião e São Benedito, cultuados na pajelança cabocla, nas rezas, benzeções das ervas medicinais, sopros e cantos de invocação, na cosmovisão indígena, católica popular e afro-amazônica. Esse é o povo que aqui está.

Os longos trajetos nos permitem que os pensamentos vaguem e a observação fique apurada. A cada braça no rio e novo rio que adentramos, vamos descobrindo o que ele permeia. O rio Maruá margeia a produção das comunidades tradicionais, com sua artesania. São 14 comunidades: Santíssima Trindade, São Benedito Aramã, São Sebastião Mapuá, Bom Jesus, Vila Amélia, Santa Rita, Nazaré do Socó, São José, São Benedito Mapuá, Santa Maria, São Sebastião Canta Galo, Assembleia de Deus, Nazaré do Jacaré, Perpétuo Socorro — que desempenham o extrativismo e a subsistência, com gestões comunitárias e consciência do ecossistema, usando os recursos naturais de forma a garantir a segurança territorial.

EDUCAÇÃO E PRESERVAÇÃO

Eles desempenham com zelo uma educação diferenciada e patrimonial, além de cultuarem suas tradições. Assim, vamos conhecendo os vários movimentos que organizações não governamentais, como o Instituto Mondó que desenvolvem por essas bandas, sistemas que, ao longo dos anos, travam lutas em prol das comunidades pela legitimidade de suas áreas, pelos direitos a políticas públicas necessárias as suas vidas.

Ver os ribeirinhos, suas lutas e desafios nos norteia sobre a nossa própria vida, regada por técnicas e tecnologias. Somos reféns delas – eles, em sua grande maioria, até as usam, mas seu mundo tem outra dimensão. Os recursos e necessidades aqui têm outras questões. Aqui, a vida é centrada nas águas e o fluxo é governado pelos rios, que encontram nos barcos sua função. Os barcos são batizados nas águas argilosas dos rios – têm nome, personalidade, e seus nomes vêm dos santos, frases de agradecimento. São  casas, escolas, transporte, posto de saúde. Eles levam e trazem recursos e, majestosos, são ornados pelos abridores de letras — profissionais da pintura que, com tipografia decorativa, trazem requinte ao desfile das embarcações e de suas letras amazônicas. Isso é o luxo da vida ribeirinha.

Cumprindo o caminho, vamos vislumbrando outros fluxos. A natividade explode e os guarás são a presença magnífica desse lugar. Em bando, sobrevoam as margens e, com sua plumagem vermelha, quase escarlate, nos deixam sem fôlego. Eles nos convidam a vislumbrar os açaizeiros, buritizeiros, andirobeiras, samaumeiras, castanheiras-do-Pará que se perfilam às margens das matas. Em prosas, seguimos entre contos e causos sobre árvores encantadas e crenças locais. A cada passo, entre cortes e passagens de rios, vamos cumprindo os caminhos — rio Aramanduba, Anapuru — e as vias se estreitam. Marrecas-caneleiras, socós-bois e colhereiros, aves nativas, nos brindam com suas presenças e nossa imaginação acende.

O Marajó é uma infinidade de riquezas, e esta também está nas técnicas desenvolvidas por seus antigos povos, seus modos e usos do local, suas concepções para a sobrevivência, suas construções, como os tesos (abrigo nas épocas de enchentes), presentes em diversos sítios como Camutins, Tesos Bichos, Vila de Joanes. São nossas conexões com outros povos e tempos que, em camadas, decapagens e sondagens, nos revelam o mundo amazônico e contam as histórias pré-coloniais e sobre as populações originais do país.

Ao adentrar essas ribeiras, caminhe nos arredores, bata um “dedo de prosa” com os ribeirinhos, vá à feira e consuma os sabores das bancas repletas de legumes, ervas, vegetais e frutas diversas. Vá aos píeres, pesque com um nativo, cozinhe os saberes da região, benza-se com uma benzedeira local. Não tema as crenças e acredite nos poderes das pedras, caminhe pela mata e entenda o valor das sementes e seu poder de transformação.

Caranguejo-uçá, camarão de rio, doce de leite de búfala — surpreendente, vale saborear. Água de rio ao entardecer purifica, encontros e abraços nutrem a alma. Caiçuma (bebida fermentada de mandioca, milho ou fruta), bacaba (suco da palmeira bacabeira), tucumã (água com polpa do tucumã), sucos de taperebá, cupuaçu e cachaça com frutos amazônicos são delícias da região — permita-se. Nessas terras, sente-se à margem do Rio Parauaú, sinta a brisa, reúna-se com amigos, faça um pequeno altar com imagem de um santo, coloque flores, velas, cante e ore, doe um alimento – com seus amigos, ofereça ao rio um lindo barquinho enfeitado com alimento e bebidas. Mas também, coma, cante e dance ao som dos maracás, acredite em sua existência e proteja o santuário que é o Marajó.