
Por Dulce Rodrigues
HÁ MUITOS CAMINHOS E MANEIRAS DE SUPERAÇÃO: ISTO É CONTIGO! MAS SOMENTE UM HISTRIÃO PENSA: ”O HOMEM PODE TAMBÉM SER SALTEADO”.
Friedrich Nietzsche, Assim Falou Zaratustra (Terceira Parte)
Ao citar Nietzsche miramos este século XXI que tem nos submetido a intensos questionamentos filosóficos, científicos, políticos e tecnológicos, o que nos faz buscar entendimento de todas essas questões a partir de conceitos que abrangem toda a nossa caminhada como seres humanos. Para tanto, nos permitimos algumas considerações que começam por uma tentativa de depreender os elementos pertinentes para essa compreensão – do que somos como seres humanos e, entendendo assim, o que é o homem e o humanismo.
Humanismo é um conceito ideologicamente multifacetado, entendido de várias maneiras – como a separação entre o humano e o animal, como uma abordagem de tratamento do comportamento humano ou uma abordagem secular à investigação científica, mas que não acata uma visão constante universal e histórica. Ao longo da história intelectual do conhecimento, estudiosos tentaram, de diversas maneiras, compreender o que significa ser humano e o que se entende por humanismo e humanístico.
Nos dias atuais, a noção de humanismo está baseada na consciência contemporânea e no senso comum cotidiano, quando a tecnologia, de uma maneira que reflete sua onipresença e suas dimensões simbólicas e estéticas mais profundas, também engloba as maneiras pelas quais as abordagens tecnológicas centradas no ser humano, para este, pesquisar o mundo. Assim, neste mundo contemporâneo, noções antigas sobre o que significa ser humano estão sendo submetidas a intensos questionamentos filosóficos, científicos, tecnológicos e políticos ao longo deste século XXI.

Portanto, essas altas tecnologias que tão rápido e intensamente têm se desenvolvido, refletem tendências que deixariam de ser humanísticas em uma visão mais meticulosa da sociedade, e que, inextricavelmente, estão ligadas ao rápido crescimento da Inteligência Artificial (IA) e da biotecnologia, que, feliz ou infelizmente, estão diluindo as fronteiras entre o que é humanos e não humano.
Assim, em referência à compreensão do que seria a IA, muitos críticos defendem que essa “inteligência não seja inteligência nem artificial”. Para ser definida como inteligência, a IA teria características que abrangessem propriedades do que seria “inteligência” como diz Howard Gardner, em sua obra Multiple Intelligences – The Theory in Practice (1993), “inteligência é a habilidade de resolver problemas ou criar algo que seja valorizado em determinadas comunidades”.
Dessa forma, tomando a definição de Gardner para inteligência, não há uma linha única que caracterize o que consideramos “inteligência artificial”, justificando o que muitos estudiosos definem como inteligência artificial, mas que outros tendem a concluir que a IA não seja inteligência, nem artificial, uma vez que esta foi criada pelo ser humano. Esses aspectos da IA justificariam a definição patrocinada pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) que explica esta como um Sistema de inteligências artificiais.
Então, de acordo com a OCDE, a IA poderia ser definida como “um sistema baseado em máquinas que pode, para um determinado conjunto de objetivos explícitos ou implícitos definidos por humanos, inferir a partir das informações recebidas, gerar resultados, fazer previsões, produzir conteúdos, recomendações ou decisões que podem influenciar ambientes físicos, reais ou virtuais. Diferentes sistemas de IA variam nos seus níveis de autonomia e adaptabilidade após a implantação”.
Nesse sentido, Omaia Al-Omari e Tariq Al-Omari (Journal of Posthumanism, 2025) argumentam que, à medida que a IA adquiriu mais autonomia esta tem sido vista como uma contribuidora para os processos de conhecimento. O papel da IA na sociedade tem ido para além da automação, destacando novas formas de interação entre humanos e inteligências não humanas.

Estudos recentes têm apontado que, um número expressivo de pessoas fazem confidências e pedem conselhos para os chats de IA. Pesquisas também apontam que, um em cada 10 brasileiros, por exemplo, usa chat de IA para desabafar, conversar ou buscar conselhos, como também tem aumentado o número de chats e criadoras de conteúdo sobre bebês reborn, bonecas hiper-realistas, o que pode ser ratificado pelas palavras de David Oliver (USA TODAY, abril, 2024), que fala sobre o que especialistas em questões emocionais consideram ser importante – discutir questões psicológicas e emocionais que têm surgido mundo afora, a partir da IA. David Oliver fala sobre essas bonecas reborn, citando um estudo de 2022 que defende a posse desse tipo de boneco, alegando que, pesquisas comprovam que “A terapia com bonecas melhora o estado emocional de pessoas com demência, diminui comportamentos inadequados e promove a comunicação”. Além desses aspectos, outros benefícios para aqueles que carreguem não apenas condições crônicas de saúde, as bonecas trazem conforto, beneficiando pessoas que carregam transtorno bipolar e de ansiedade generalizada.
Essa fuga da realidade, pouco a pouco, tem levado pessoas a aderir à fantasia de um mundo perfeito fruto de suas entregas ao irreal do mundo digital. Assim, surge a sedução provocada pela tecnologia, especialmente no que diz respeito às relações interpessoais – pessoas que não conseguem conversar, argumentar para expressar seu pensamento em uma dimensão em que suas habilidade de comunicação presencial prevaleçam. Muito pelo contrário – bastando utilizar mensagens prontas, criadas pela IA, não importando se essas mensagens são adequadas para a situação ou até mesmo se são confiáveis ou não – talvez por não aceitar que o/a interlocutor/a possa ser mais assertivo/a.
Recentemente, o CEO da Meta, Mark Zuckerberg, afirmou em entrevista acreditar que, em um futuro próximo, as pessoas terão mais amigos de IA do que amigos humanos (Fortune, abril, 2025). Essa constatação nos traz um sentimento de derrota, de “fim da aventura humana na Terra”, nos causando estranheza e inquietação ao reconhecer que rejeitamos nossos semelhantes humanos, seja por nos sentir inferior ou por abominar aquilo que é diferente de nós, chegando ao extremo de aceitar e até mesmo, adotar o que seria condenável, mas que corresponde a nossa visão de nós mesmos, nos identificando com o que não é eticamente aceitável.
Dessa forma, por vezes, deixamos a realidade imperfeita e inquietante para adotarmos o irreal do mundo digital que está, cada vez mais, parecida com aquela originariamente humana e que, por outro lado, faz-nos adotar a máxima que “Narciso rejeita tudo que não é seu espelho”, o que nos faz recorrer a Nietzsche novamente ao notar que estamos dentro dessa estrutura de poder sobre o outro e da não-ética, nessa era de pós-humanismo, em um mundo onde o ser humano fica em segundo lugar – “Tu perdeste o alvo: ai de ti, como irás folgar e desafogar essa perda? Com ele – perdeste também o caminho!” (Assim Falou Zaratustra – Quarta e Última Parte). Assim, refletimos sobre essa época pós-humanística que acontece no mundo no qual habitamos, que é resultado de ações humanas e, portanto, envolve responsabilidade humana – não obstante a ambiguidade da palavra humano/a que alcançaria também a compreensão de que, o produto de uma máquina é produto de um ser humano que tem a força de “criador” dessa Inteligência Artificial. Entendemos também que esse ser humano, de alguma forma, pode não ser mais o exclusivo produtor de conhecimento, mas que, apesar de todas as adversidades aqui mencionadas, acreditamos, não perderá o caminho que romperia com o antropocentrismo humano. Tais visões sugerem que o papel da IA na sociedade irá além da automação, destacando-se novas formas de interação entre humanos e inteligências não humanas e, com a evolução, os Sistemas de IA estarão preparados para conduzir tarefas complexas de forma autônoma, o que, embora levante sérias questões morais e filosóficas sobre seu lugar na sociedade e sua posição moral, não aceitará que “O homem pode também ser salteado”.


