
Por Ivan Reis
As temporadas de moda podem ser consideradas verdadeiros termômetros do espírito do tempo em que vivemos. Em se tratando de estilo e tendências, as fashion weeks masculinas de Milão e Paris, ocorridas no começo deste ano, deixaram pistas sobre os novos e promissores caminhos do guarda-roupa masculino para o inverno 2026.
Ainda que alguns críticos tenham apontado uma relativa permanência estética ao longo das coleções, uma leitura atenta revela deslocamentos sutis na forma de usar peças e acessórios. Para a personal stylist e consultora de imagem Patrícia Sá, o foco não está apenas na roupa, mas em sua interpretação. “A tendência vem para atualizar propostas e trazer um novo olhar para aquilo que já foi visto e usado. As passarelas mostram menos ‘o que usar’ e mais ‘como usar’, pois não vemos mais a tendência associada a uma peça isolada, mas, sim, a sua interpretação. A tendência acaba funcionando muito mais como um direcionamento”, explica a profissional.
Atento às questões de estilo, o consultor de imagem e pesquisador de moda masculina Rodrigo Durante amplia a discussão. “Em tempos tão plurais, o que precisamos entender é que pluralidade não significa ausência de parâmetro. A diversidade estética existe e é saudável, mas isso não torna a beleza completamente relativa. Existem fundamentos que atravessam culturas e épocas: proporção, harmonia, qualidade de construção, coerência entre forma e função”, diz ele. Para observar mais de perto as coleções da semana de moda milanesa e parisiense, convidamos os dois especialistas para entender as cinco direções que marcaram as passarelas.


Mais do que tradicional, o cardigã – casaco de tricô com abotoamento frontal – ganhou várias versões. Do básico de Giorgio Armani, às estampas de Zegna e texturas felpudas de Dolce & Gabbana e o colorido de Ralph Lauren, o cardigã une tradição, conforto e estilo. “Durante muito tempo, o cardigã foi associado a uma estética conservadora, quase acadêmica”, explicou Rodrigo Durante. “A nova geração ressignifica essa peça. Ela mistura com jeans amplo, com alfaiataria relaxada, com camiseta básica. Há uma quebra de formalidade sem perda de elegância”, completa o profissional sobre os novos usos do item.
Com a promessa de ser a peça-chave da estação, a consultora Patrícia Sá evidencia alguns pontos para serem observados na hora de aderir à tendência. Segundo a profissional da imagem, é possível adicionar camadas à produção visual, misturar com alfaiataria clássica (especialmente sobreposto ao blazer), além de explorar texturas e padronagens. No cotidiano, adotar o cardigã significa trabalhar com camadas com intenção. Sob um blazer no ambiente profissional ou aberto sobre camiseta casual, a peça fica entre formalidade e conforto.

GOLAS EM DESTAQUE
Entre os detalhes, a gola assumiu o protagonismo nos desfiles. Fechada, levantada, com texturas ou detalhes interessantes, a gola foi capaz de emoldurar o rosto e trazer mais uma opção de estilo – ou styling – para o homem contemporâneo. A tradicional Hermès optou por versões monocromáticas e outras etiquetas investiram nos detalhes. Saint Laurent, de Anthony Vaccarello, e Dolce & Gabbana acrescentaram uma boa dose de drama ao item. Na passarela, as golas se mostraram texturizadas, volumosas e com cores de impacto. Neste caso, “a tendência se revela menos pela peça e mais pela ênfase no detalhe”, disse a consultora Patrícia Sá.
Rodrigo Durante enfatiza que os detalhes de uma produção ajudam a compor e a mudar a forma de perceber o guarda-roupa do homem. “Eles resgatam uma ideia de verticalidade, presença e imponência que sempre foi muito forte na indumentária clássica. Os detalhes são extremamente valiosos na moda masculina porque o nosso vocabulário estético é mais contido. Diferente do universo feminino em que a mudança pode ser estrutural, no masculino, muitas vezes, a diferenciação acontece justamente nos elementos sutis: a altura da gola, a lapela, o abotoamento, o comprimento do paletó, a textura do tecido. São esses pontos que transformam uma peça comum em algo memorável”, explica o consultor.

UTILITARISMO
A funcionalidade segue como uma das direções mais consistentes da moda masculina. Mais do que um recurso estético, o utilitarismo se manifesta em peças que conciliam praticidade e estilo, respondendo às demandas do cotidiano. Bolsos aparentes, volumes estratégicos e soluções de uso reforçam a ideia de um guarda-roupa pensado para acompanhar a dinâmica da vida urbana.
Nas passarelas, esses elementos apareceram nas capas de ombro estilizadas da Prada e nos casacos utilitários apresentados por Louis Vuitton e Hermès. São propostas discretas, mas que evidenciam a integração entre função e estética. Segundo a consultora Patrícia Sá, o utilitarismo também pode dialogar com peças tradicionais. Um casaco com capuz e bolsos marcados, por exemplo, pode ser combinado com uma calça de corte formal, criando um contraste equilibrado entre praticidade e alfaiataria.


CLÁSSICOS ETERNOS
Camisas, calças e paletós voltaram às passarelas com proporções levemente atualizadas. Em se tratando de clássicos, não há ruptura, mas um trabalho de refinamento para os dias de hoje. Não por acaso, algumas das marcas mais tradicionais do calendário de moda masculina – incluindo Hermès, Louis Vuitton e Giorgio Armani – investiram em produções tradicionais com toque contemporâneo. Em versão monocromática, com desenhos discretos ou texturas, as peças compõem o universo clássico e frequente do imaginário fashion masculino.
Entre a tradição e uma dose de ousadia, o impacto na imagem masculina é evidente. Sobre a questão, o consultor de estilo masculino Rodrigo Durante explora o universo dos itens clássicos. “Quando camisas, calças e paletós voltam a aparecer com força, eu olho menos para “tendência” e mais para o que fazem pela imagem do homem. Porque essas peças são clássicas justamente por resolverem três coisas: presença, ordem e elegância sem esforço”, explica ele.

ELEGÂNCIA ARISTOCRÁTICA
No embalo do guarda-roupa clássico revisitado, as peças também incorporam referências históricas. Casacos estruturados, abotoamentos duplos e um refinamento marcado por detalhes constroem uma nova linguagem para a moda masculina. Nesse espírito, as passarelas evocaram uma estética aristocrática que remete ao imaginário de príncipes e monarcas. Ralph Lauren, Dolce & Gabbana e Saint Laurent apresentaram produções com blazers estruturados, calças ajustadas e acessórios, incluindo broches, relógios e até bengalas, que reforçaram essa atmosfera de elegância. Assim, o homem contemporâneo volta o olhar para o passado como forma de reinterpretar e atualizar o guarda-roupa do presente.
Mais uma vez, o consultor Rodrigo Durante chama a atenção para as peculiaridades das produções masculinas. “O detalhe é uma forma elegante de diferenciação. Ele comunica repertório, intenção e refinamento sem recorrer ao exagero”, diz o profissional.


