ESTILO: CÓDIGOS VISUAIS DA MODA MASCULINA 

BREVE REFLEXÃO SOBRE LINGUAGENS NÃO VERBAIS NA APARÊNCIA ENTRE OS HOMENS  

Por João Braga

As nossas roupas e complementos não falam, mas transmitem inúmeras informações de uma maneira não verbal de comunicação por intermédio de códigos visuais, que vão mostrar ao observador a intenção da mensagem enviada pelo emissor. Vestimo-nos para nós mesmos e também para os outros. Aquilo que usamos serve para transmitir informações por meio de simbologias, às vezes facilmente reconhecíveis ou, em outros momentos, podem ser mais sutis e que também podem mostrar como queremos ser vistos por quem nos observa. Sendo assim, roupas, acessórios, calçados e até mesmo o corte de cabelo servem para dizer quem somos e o que queremos transmitir.

As nossas aparências através de inúmeros objetos usáveis, sejam eles clássicos, modernos ou até mesmo sendo uma estranheza vestível, têm a capacidade de comunicar algo àqueles que nos observam. Destarte, existem algumas informações visíveis intencionalmente emitidas que merecem destaque quando queremos transmitir algo associado a poder, prestígio, tradição, elegância, erotismo/sedução, masculinidade, força e status – sejam elas tanto em épocas pretéritas quanto na atualidade.

Dessa forma, segue uma breve análise destes códigos supracitados no que tange à moda masculina, citando alguns exemplos em cada premissa – sem a pretensão de querer esgotar o tema. Todavia, antes de qualquer tentativa reflexiva, vale ressaltar que, de uma maneira rápida e até mesmo mais abrangente, os dois mais conhecidos e observáveis códigos visuais de reconhecimento prestigioso na moda masculina talvez sejam o relógio de pulso e o sapato. São duas identidades visuais que, primeiramente, são as mais comuns e conhecidas e que transmitem informações sobre quem os usa. Usar um relógio de pulso assim como um par de sapatos de boa qualidade, de aparência dentro da vigência do gosto e/ou de uma marca reconhecível que tenha um significativo prestígio no mundo da moda servem para qualificar positivamente o seu portador.

DA ROMA ANTIGA AOS DIAS ATUAIS

poder, sendo um atributo outorgado a algumas pessoas, seja de ordem nobiliárquica, religiosa, secular, social e/ou política pode ser observado em diversos momentos da História. Na  Roma Antiga, por exemplo, a cor púrpura só podia ser usada pelo imperador, sendo assim um código de diferenciação e poder monárquicos. O uso do manto de arminho, a partir da Baixa Idade Média na Europa (e ainda hoje o segue) também era, e ainda o é, um atributo visível dos monarcas de alto grau nobiliárquico e, obviamente, o uso da coroa, que talvez seja a visualidade mais óbvia, sendo a de maior facilidade do reconhecimento do poder de quem a usa. 

Quando falamos de prestígio, que muitas vezes está associado ao poder, referimo-nos a uma certa admiração e significativas formas de reputação e respeito a uma determinada pessoa. No processo historiográfico da moda masculina, podemos citar o sapato de bico extremamente pontudo, chamado “polaina”, usado durante a Baixa Idade Média europeia, por eles e por elas o que foi uma referência visual que demonstrava o alto grau de nobreza de quem o usava, isto é, quanto mais pontudo fosse o calçado, maior seria o título de nobreza do portador. O “rufo”, ou seja, um certo tipo de gola tricotada (também usado por mulheres) que conferia ao usuário, o prestígio de uma situação de nobreza ou ser possuidor de bons montantes numerários nas sociedades europeias no período do Renascimento. Avançando no tempo, com o desenvolvimento da Revolução Industrial e o consequente aparecimento e uso da cartola, a partir do início do século XIX e que significava grandes posses econômicas, passou a ser, então, um perceptível código de boas condições financeiras, pois fazia lembrar a chaminé de uma fábrica e informava visualmente quem era um grande industrial com muitas posses e prestígio. 

No que diz respeito à tradição, entendemos como sendo um certo legado, uma certa praxe no que se refere a determinadas práticas que costumam ser transmitidas de geração para geração para que aquilo não se perca com o passar do tempo. Desta forma, tornou-se tradição, e que é válida até hoje, a atitude de não abotoar o último botão do colete e do paletó (o que era comum) de um terno e/ou um costume, a partir do reinado de Eduardo VII (1841-1910) do Reino Unido, entre 1901 e 1910, pois Sua Alteza Real ao engordar, desabotoava o último botão tanto do seu colete quanto do seu paletó, pois lhe era mais confortável. Como o rei assim o fazia, os súditos passaram a imitá-lo e, ainda hoje, trata-se de um dogma fashion inquestionável. O sapato masculino brogue, ou seja, um modelo tradicional com furinhos na parte superior formando uma ornamentação tem origem nos calçados escoceses e irlandeses próprios para o trabalho ao ar livre, especialmente em pântanos e/ou lugares alagados, pois estes furinhos, ao andar, facilitavam a drenagem da água que estivesse no interior do calçado e que hoje tornou-se um clássico do setor calçadista masculino. Os homens sempre se adornaram, inclusive com joias, mas, o processo da Revolução Industrial do século XIX fez com que eles se tornassem mais austeros e sisudos em suas visualidades. Porém, alguns itens associados ao setor da joalheria ainda são códigos de tradição, inclusive, algumas vezes mais em evidência na moda, outras vezes nem tanto, como é o caso das abotoaduras, dos prendedores de gravata, do relógio de bolso (que antecedeu ao relógio de pulso), do anel de formatura, de uma aliança (esta mais presente por ser um código de estado civil) ou de outra joia que, especialmente, tenha sido herdada.

A aparência pelo viés da elegância, por sua vez, já é uma atitude um tanto quanto mais mutante, pois, como diz o grande poeta português Luís Vaz de Camões (?-1580) “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”. Etimologicamente elegância está associada à transmissão de uma certa aura divina vinculada à beleza e é, também, estar revestido desta aura pois EL em sânscrito significa Deus. Portanto, em sua essência, é quando alguém transmite valores muito mais por posturas do que por visualidades, com atitudes mais sublimes e virtuosas. Com o fluir do tempo tornou-se uma realidade muito mais da aparência, do aprumo e de ser chique a cada período histórico, sem esquecer da fineza, da gentileza e da polidez, obviamente. Neste quesito, o uso da cor preta tornou-se sinônimo de elegância e discrição masculinas (e feminina também) cuja tradição remonta à Espanha renascentista, ganhou maior corpo na Inglaterra do século XIX no tempo do dândi George Bryan Brummell (1778-1840) e legitimou-se contemporaneamente com as propostas minimalistas e yuppies a partir da moda dos anos 1980.

Mesmo assim, a sobriedade do uso de cores neutras em tons de cinza e beges, também é tida como quesito de elegância – assim como combinar a cor da meia à cor do sapato e, da mesma forma, optar pela discrição dentro dos valores mais atuais do quiet luxury. Como diz o filósofo e escritor francês Paul Valéry (1871-1945) “Elegância é a arte de não se fazer notar aliada ao cuidado sutil de se deixar distinguir”. Não podemos também deixar de comentar sobre o uso de chapéus, que sempre estiveram presentes na toilette masculina e é muito importante dizer, conforme dita a regra social, que tal uso deve ser somente em lugares a céu aberto. Um homem nunca deve usar seu chapéu em lugares fechados e também à noite (à exceção da cartola e durante alguns momentos) e jamais entrar na igreja ou outros templos usando chapéu e, em hipótese alguma, usá-lo à mesa. Esta regra social ainda é válida para as atuais variações de qualquer tipo de toucado masculino, mesmo que o uso dos bonés venha rompendo com esta tradição. 

Com relação aos aspectos de erotismo, trata-se de quando os vestíveis tornam-se instrumentos de sedução na tentativa de estimular a quem observa a provocação sugerida pelo portador, despertando desejos mais íntimos e segundas intenções. O codpiece (em língua inglesa), braguette (em língua francesa) e “porta-pênis” e posteriormente “braguilha” (em língua portuguesa) foi um complemento nas roupas masculinas europeias do período do Renascimento que não só erotizava o visual dos homens com este ante paro volumoso colocado externamente ao calção na altura da genitália, como também servia para prender as meias às pernas (já que não existia elástico) e também ser um protetor peniano para abrandar a intensidade do sacolejo ao cavalgar e servir de proteção à alguma agressão externa na hora de uma briga e/ou disputa. Sobre os sumários trajes de banho, aqui no Brasil chamados de “sungas”, por normalmente serem justos e de pequena proporção, estes também têm a capacidade de erotizar aqueles que os usam, principalmente se forem muito diminutos, de cor clara e, especialmente, se tiverem uma certa transparência. Falando em transparência, os tecidos com esta característica visual também contribuem para a erotização do corpo de quem os usa, pois a transparência tem a capacidade de velar e revelar ao mesmo tempo , insinuando. Assim, proporcionando uma exibição da silhueta corpórea e até mesmo correndo o risco de cair na vulgaridade. As roupas de couro também são consideradas bem eróticas e sedutoras, pois evocam uma certa agressividade de um aspecto mais animalesco e se forem justas e lustrosas tornam-se ainda mais provocadoras.

UM CÓDIGO DE MASCULINIDADE

Aspectos de masculinidade também podem ser observados naquilo que vestimos. Talvez a peça do guarda-roupa dos homens que mais demonstre a sua virilidade seja a gravata, pois esta representa simbolicamente a própria genitália masculina, por isso tornou-se indecoroso tocar a gravata de um homem, uma vez que representaria tocar-lhe o próprio órgão sexual. Por essa razão, na maioria das vezes, os homens gostam de gravatas novas e estilosas, pois inconscientemente passam a ideia de sua masculinidade em pleno vigor. Durante a Baixa Idade Média na Europa, o uso das armaduras, que somente os homens as portavam, além de representação de masculinidade, também simbolizavam valentia, agressividade e fortaleza, intimidando as outras pessoas que não as usavam. A prática de fumar charuto e/ou cachimbo especialmente no século XIX, também foi um código de masculinidade uma vez que depois do jantar enquanto as mulheres iam para uma sala conversar, os homens iam para outra (o fumoir) fumar seus charutos ou cachimbos, o que deu origem à uma roupa apropriada para esta circunstância: o smocking

Quando o assunto é força, talvez a identidade visual mais marcante no universo seja a intensa cabeleira em significativa proeminência. O maior exemplo desta questão é a história bíblica de Sansão que tinha toda a sua força no cabelo. Dalila, ao cortá-lo, aniquilou-lhe toda a sua força física, mas que depois foi recuperada. Cabelos em intensidade também dão aos homens uma significativa força íntima, pessoal, introspectiva e de auto satisfação psicológica. O uso de botas, de certa forma além de sensualizar a visualidade de quem as usa, é considerada uma aparência de vitalidade e virilidade e, por extensão, de força e valentia. Os braceletes e as munhequeiras também dão a ideia de força, pois simbolizam um pulso forte, vigoroso e até mesmo agressivo, além de servir de resistência ao peso e à agressividade alheia. As camisas em tecido xadrez, internacionalmente associadas aos lenhadores norte-americanos e canadenses, também têm a capacidade de nos remeter aos aspectos de força, vitalidade e virilidade, pois já se tornaram emblemáticas ao trabalho mais pesado, intenso e árduo. 

Na premissa de status, o que nos passou a ideia de prestígio social em tempos pretéritos, especialmente no século XIX, foram as barbas e bigodes, características biológicas do gênero masculino. Quanto maiores fossem, maior seria o status de quem os usasse, fosse dentro da ordem social, política, econômica e/ou intelectual. Atualmente, também identificamos esse código de status pelo uso de uma determinada marca já reconhecida publicamente no mercado de moda, seja pela visualidade de uma logomarca ou de uma identidade prestigiosa que lhe seja atribuída e que sirva para elitizar quem a use e, portanto, exprima status. Também nos dias atuais, usar algo que remeta à prática esportiva confere status ao portador, pois é passada a ideia de disponibilidade de tempo para cuidar da sua saúde e do seu bem-estar.

Com esta breve reflexão sobre alguns significados da aparência com relação ao que os homens usam, fica mais esclarecido o quanto podemos nos comunicar silenciosamente, seja de uma maneira mais sutil ou mesmo mais óbvia, tanto com aqueles que são os nossos convivas ou quanto às demais pessoas que nos circundam. Queremos ser vistos com as mensagens que intencionalmente queremos passar e assim comprovamos a capacidade de locução que nossas roupas e complementos tiveram, e ainda têm, no processo de comunicação e, quem sabe, também sirvam de atração e espelhamento, pois os iguais se reconhecem.

Sem explorar absolutamente tudo, mas trazendo à tona algumas considerações a respeito dos códigos visuais da moda masculina, vale ressaltar que o comportamento, a educação, a simpatia, a empatia e a postura, na maioria das vezes, falam mais alto do que a própria aparência vestível.

JOÃO BRAGA 

Professor, autor, articulista e palestrante na área de moda.

Membro da Academia Brasileira da Moda, com sede no Rio de Janeiro, ocupando a cadeira N° 39.

@joaobragaprofessor