
Com uma trajetória consolidada entre Brasil e Portugal, Ricardo Pereira construiu uma carreira que ultrapassa fronteiras e se tornou referência na dramaturgia de língua portuguesa. Ao longo de mais de duas décadas, o ator transitou com naturalidade entre televisão, cinema, teatro e streaming, conquistando espaço em diferentes mercados sem abrir mão da versatilidade e da busca constante por novos desafios artísticos.
Em um momento de intensa produção, com projetos nos dois lados do Atlântico e participações em obras que ampliam ainda mais sua presença internacional, Ricardo vive uma fase marcada pela maturidade, pela inquietação criativa e pelo desejo de contar histórias cada vez mais complexas. Nesta entrevista exclusiva à MENSCH, ele fala sobre a experiência de construir uma carreira internacional, reflete sobre os desafios da atuação em diferentes idiomas e plataformas, comenta os novos trabalhos no Brasil e em Portugal, além de compartilhar sua visão sobre família, paternidade, saúde mental e o equilíbrio entre sucesso profissional e realização pessoal.
Você vive há anos entre Brasil e Portugal, construindo uma carreira sólida nos dois países. Como essa experiência internacional transformou sua visão de mundo e de si mesmo? Viver entre dois países ampliou muito o meu olhar. Aprendi que existem diferentes formas de enxergar a vida, o trabalho, as relações humanas, e isso me tornou mais flexível e mais curioso. Também me ajudou a compreender melhor quem eu sou. Quando estamos constantemente atravessando fronteiras, acabamos por perceber que a nossa identidade não está apenas no lugar de onde viemos, mas também em tudo aquilo que escolhemos construir ao longo do caminho.

Existe alguma diferença na forma como você é percebido pelo público brasileiro e pelo público português? Como lida com essas duas identidades profissionais? Existem diferenças naturais, porque são culturas distintas e momentos de carreira diferentes em cada país. Em Portugal, o público acompanhou o meu crescimento desde muito cedo. No Brasil, fui sendo descoberto ao longo dos anos através de personagens que marcaram a televisão. Mas nunca vi isso como identidades separadas. Sou o mesmo profissional, com os mesmos valores e a mesma dedicação, independentemente do país onde estou trabalhando.
Depois de tantos anos de carreira, o que hoje te faz dizer “sim” para um projeto? A verdade da história. Hoje procuro projetos que me desafiem, que me provoquem alguma inquietação e que tenham algo relevante para dizer. Também valorizo muito as pessoas envolvidas. O talento é importante, mas o ambiente humano de um projeto faz toda a diferença.
Você está envolvido em novos trabalhos em Portugal e no Brasil. O que tem te desafiado artisticamente nesse momento da sua trajetória? Tenho procurado personagens mais complexos, com contradições e camadas. Quanto mais experiência adquirimos, maior é a responsabilidade de não repetir fórmulas, como, por exemplo, na peça de teatro que estive fazendo tour nos últimos meses que foi uma adaptação do Livro Uma Brancura Luminosa, do prémio Nobel da literatura 2023 Jon Fosse, ou na série que acabei de fazer em Portugal, ou até mesmo neste novo trabalho na Globo com a novela vertical “Eu não era louca, era casada”, entre outros trabalhos que estou produzindo no momento. O desafio é continuar me surpreendendo artisticamente e encontrar novas formas de contar histórias.

Seus projetos mais recentes têm circulado por diferentes mercados e plataformas. Como enxerga o crescimento das produções internacionais de língua portuguesa? Vejo com enorme entusiasmo. Durante muito tempo produzimos conteúdos de grande qualidade que ficavam limitados aos nossos mercados. Hoje as plataformas aproximaram países e culturas, levando os nossos trabalhos a tantos lugares diferentes do mundo. A língua portuguesa tem uma riqueza imensa e acredito que estamos apenas no início de um movimento de maior reconhecimento internacional.
Houve algum personagem recente que mexeu particularmente com você ou que deixou marcas para além do set? Acredito que todos os personagens deixam alguma coisa conosco. Uns pela complexidade emocional, outros pelas reflexões que despertam, ou até mesmo por alguma característica física que criamos para determinado personagem num determinado projeto. Gosto especialmente daqueles que me obrigam a questionar certezas e a olhar para o ser humano com diferentes olhares e de diferentes perspectivas. Esses costumam permanecer comigo por mais tempo.
Você já transitou com naturalidade entre novelas, séries, cinema e teatro. O que cada linguagem ainda desperta em você? A novela tem uma ligação muito forte com o público e uma capacidade impressionante de entrar na vida das pessoas. As séries permitem aprofundar personagens de uma forma muito interessante. O cinema tem um olhar mais contemplativo e detalhista. Já o teatro é o lugar da relação direta entre o artista e o público, e de uma visibilidade total, tudo é visto e vivido no momento ao vivo. Cada linguagem alimenta uma parte diferente do artista que sou. Mas além disso, tenho também transitado entre diferentes países realizando trabalhos em línguas e sotaques diferentes, pois já estive em projetos na Espanha, França, Holanda, Portugal e Brasil, e isso é fundamental para me tornar um ator com mais recursos e experiência artística, e a oportunidade para aprender cada vez mais.

O teatro costuma exigir uma entrega muito diferente da televisão e do streaming. O que essa experiência ao vivo continua te ensinando sobre presença e conexão humana? O teatro me faz lembrar que nada substitui o encontro humano. Cada apresentação é única e irrepetível. Ali não existem filtros, nem edições. Existe apenas a verdade daquele momento. É uma experiência que nos ensina escuta, presença e humildade.
Em um mundo cada vez mais acelerado e digital, o palco ainda pode ser um espaço de resistência e reflexão? Mais do que nunca. O teatro nos obriga a desacelerar e a estar verdadeiramente presentes. É um espaço onde podemos refletir sobre quem somos, sobre a sociedade em que vivemos e sobre as relações humanas. Num mundo tão imediato, isso tem um valor enorme.
Você costuma falar sobre a importância da família em sua vida. Como equilibra os desafios da carreira internacional com a necessidade de estar presente em casa? Não existe uma fórmula perfeita. Existe uma escolha diária. Tento organizar a minha vida profissional e pessoal de forma consciente e aproveitar ao máximo o tempo que tenho com a minha família. A qualidade da presença é tão importante quanto a quantidade. São eles que me dão sentido e equilíbrio.


Existe algo que a paternidade mudou na forma como você encara o sucesso e as prioridades da vida? Mudou tudo. A paternidade relativiza muitas coisas e, principalmente, a entender um eixo central das nossas vidas, nos ajuda a perceber que o verdadeiro sucesso não está apenas nas conquistas profissionais, mas também na pessoa que somos dentro de casa. Os meus filhos trouxeram-me uma nova perspectiva sobre mim, sobre quem sou e quem quero ser, sobre tempo, responsabilidade e amor.
Em uma carreira tão longa, imagino que existam momentos de dúvida e reinvenção. Como você lida com períodos de transformação ou incerteza? Aprendi que a mudança faz parte do percurso. Em vez de resistir, procuro escutá-la. Os momentos de dúvida muitas vezes antecedem fases importantes de crescimento. Tento encará-los com serenidade, confiança e disposição para aprender.
O que você acredita ter aprendido sobre saúde mental, autocuidado e equilíbrio emocional ao longo dos anos? Aprendi a respeitar os meus limites. Durante muito tempo, acreditamos que precisamos estar sempre disponíveis e produtivos. Hoje percebo a importância do descanso, da família, dos amigos e de reservar momentos para cuidar de nós mesmos. O equilíbrio não é um destino, é uma construção diária.

Recentemente, você voltou às novelas brasileiras em uma participação especial que chamou a atenção do público. Existe a possibilidade de vermos seu personagem novamente? O que você pode adiantar sobre essa relação atual com a dramaturgia brasileira? Fiquei muito feliz com o carinho do público. Foi um reencontro muito especial com a dramaturgia brasileira, que sempre teve um papel muito importante na minha trajetória. Sobre o personagem Jean Carlos, de Coração Acelerado, é um vilão de múltiplas faces que se quer dar bem de qualquer maneira, fico contente quando um trabalho desperta esse desejo de continuidade. Tenho uma relação de muito amor com o Brasil e estou sempre aberto a bons projetos que façam sentido artisticamente.
Quando olha para o Ricardo de hoje, o que considera sua maior conquista: os projetos realizados ou a pessoa que se tornou ao longo do caminho? Sem dúvida, a pessoa que me tornei. Tenho muito orgulho da minha trajetória profissional, mas o que realmente importa é olhar para trás e perceber que mantive os meus valores, que construí relações verdadeiras e que continuo a aprender. As conquistas passam. Quem nos tornamos permanece.


BATE-BOLA
Um papel que ainda sonha interpretar? Um personagem histórico que me desafie profundamente e revele algo novo sobre a condição humana.
Um lugar onde se sente verdadeiramente em paz? Ao lado da minha família.
Um hábito que ajuda a manter o equilíbrio mental? Reservar momentos de silêncio e estar em contato com a natureza.
O que mais te entusiasma neste momento da vida? A possibilidade de continuar a crescer, tanto pessoal quanto profissionalmente.
O que ainda deseja construir nos próximos anos? Projetos que me inspirem, mas, sobretudo, memórias e experiências ao lado das pessoas que amo.

Fotos Fernanda Araújo
Moda Samantha Szczerb
Make Ric Menezes
Assessoria Stampa Comunicação
Agradecimentos Angelo Bertoni, Democrata e Hotel Windsor Barra


