CARREIRA: DAMIÃO SILVA EXPLICA OS DESAFIOS DA SUPERDOTAÇÃO E DA DUPLA EXCEPCIONALIDADE

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Damião Silva construiu uma trajetória pautada pela ciência, pela educação e pelo compromisso de compreender o potencial humano em toda a sua complexidade. Neuropsicólogo com atuação destacada em altas habilidades, superdotação e dupla excepcionalidade, ele se tornou uma das principais vozes na defesa de uma avaliação mais precisa e de um olhar que vá além dos diagnósticos tradicionais. Nesta entrevista exclusiva para a MENSCH, Damião compartilha sua própria história, marcada por experiências pessoais que influenciaram sua carreira, e explica por que reconhecer talentos é tão importante quanto identificar dificuldades. Em uma conversa que transita entre neurociência, saúde mental e educação, ele desmistifica conceitos, alerta para os impactos de diagnósticos equivocados e defende uma abordagem integrada capaz de transformar vidas e abrir caminhos para que mais pessoas desenvolvam plenamente suas potencialidades.

Damião, como foi seu início da carreira e como descobriu a neuropsicologia? Minha trajetória começou pela educação. Sempre me interessei por aprendizagem, desenvolvimento humano e pelas diferenças individuais. Quando entrei na Psicologia, encontrei na neuropsicologia uma área que integrava ciência, comportamento, cognição e educação de forma muito consistente. O que mais me atraiu foi a possibilidade de compreender tanto as dificuldades quanto os potenciais das pessoas. Desde então, construí minha atuação buscando unir conhecimento científico e aplicação prática para promover desenvolvimento e qualidade de vida.

Sua trajetória profissional é marcada pela atuação na neuropsicologia. Em que momento você percebeu que queria se dedicar especialmente aos casos de superdotação e dupla excepcionalidade? Minha aproximação com esse tema tem raízes pessoais e profissionais. Fui uma criança identificada com superdotação nos anos 1990, quando havia muito menos informação e suporte para essas pessoas. Anos depois, já atuando como neuropsicólogo, vivi um episódio de burnout que me levou a repensar minha trajetória e meu propósito profissional. Passei a compreender de forma mais profunda os desafios que muitas pessoas com altas habilidades enfrentam ao longo da vida. Foi dessa combinação entre vivência pessoal, formação acadêmica e prática clínica que surgiu minha missão de contribuir para que talentos sejam reconhecidos e desenvolvidos de forma saudável.

Apesar de cada vez mais discutida, a superdotação ainda é cercada por mitos. Quais são os principais equívocos que você encontra na prática clínica e como eles impactam pacientes e famílias? O principal mito é acreditar que a pessoa superdotada terá sucesso naturalmente e não precisará de apoio. Outro equívoco é associar superdotação apenas a notas altas ou desempenho acadêmico excepcional. Na prática, encontro muitas pessoas com elevado potencial que apresentam ansiedade, perfeccionismo, desmotivação e sofrimento emocional. Quando esses mitos prevalecem, talentos deixam de ser reconhecidos e necessidades importantes permanecem invisíveis.

Você é reconhecido por atuar em casos complexos que envolvem saúde mental e educação. Como a avaliação neuropsicológica pode transformar o diagnóstico e o desenvolvimento dessas pessoas? Uma avaliação bem conduzida permite compreender o indivíduo de forma mais ampla, identificando características cognitivas, emocionais e comportamentais que muitas vezes passam despercebidas. Mais do que gerar um diagnóstico, ela orienta decisões educacionais, clínicas e familiares. Quando entendemos como a pessoa funciona, conseguimos construir intervenções mais precisas e eficazes.

A dupla excepcionalidade — quando altas habilidades coexistem com transtornos ou dificuldades de aprendizagem — ainda é pouco compreendida no Brasil. Quais são os maiores desafios para identificar esses casos corretamente? O principal desafio é que uma condição frequentemente mascara a outra. O talento pode compensar dificuldades importantes, enquanto as dificuldades podem esconder capacidades excepcionais. Por isso, muitas pessoas passam anos sem uma compreensão adequada do próprio perfil. A identificação exige profissionais preparados para lidar com a complexidade desses casos.

Em sua experiência, quais sinais costumam indicar que uma criança ou adolescente pode estar sendo subestimado por falta de uma avaliação especializada? Costumo observar sinais como tédio frequente, questionamentos avançados para a idade, interesses intensos por temas específicos, discrepâncias entre potencial e desempenho e sensibilidade emocional elevada. Muitas vezes, a criança não apresenta dificuldades de aprendizagem, mas sim um ambiente pouco desafiador para suas necessidades cognitivas.

Como a integração entre neuropsicologia, educação e saúde mental pode contribuir para um acompanhamento mais eficaz de indivíduos com altas habilidades ou perfis neurodivergentes? Nenhuma dessas áreas consegue responder sozinha à complexidade do desenvolvimento humano. Quando profissionais da saúde, educadores e famílias atuam em parceria, os resultados costumam ser mais consistentes. Essa integração permite alinhar estratégias, evitar interpretações equivocadas e promover um desenvolvimento mais equilibrado.

Quais impactos um diagnóstico tardio ou equivocado pode gerar na vida acadêmica, profissional e emocional de pessoas com superdotação ou dupla excepcionalidade? Os impactos podem ser profundos. Muitas pessoas crescem acreditando que são incapazes, inadequadas ou problemáticas, quando na verdade nunca tiveram suas características compreendidas corretamente. Isso pode afetar autoestima, saúde mental, desempenho acadêmico, escolhas profissionais e relacionamentos ao longo da vida.

Você tem se consolidado como uma voz ativa nesse campo. Qual é a sua missão ao ampliar esse debate e conscientizar profissionais, escolas e famílias sobre a importância do tema? Como enxerga isso? Minha missão é aproximar a ciência das pessoas. Produzir conhecimento é importante, mas ele precisa chegar às famílias, escolas e profissionais que convivem diariamente com essas demandas. Acredito que reconhecer potencial é transformar vidas. Ninguém desenvolve aquilo que nunca foi reconhecido.

Na sua visão, o Brasil está preparado para identificar e acolher pessoas com altas habilidades e dupla excepcionalidade? O que ainda precisa avançar em termos de políticas públicas e formação profissional? Ainda enfrentamos desafios importantes. Muitos estudantes com altas habilidades e dupla excepcionalidade passam pela escola sem serem identificados, enquanto outros recebem interpretações incompletas sobre suas necessidades. Precisamos avançar na formação de professores, psicólogos, neuropsicólogos e equipes escolares, além de fortalecer políticas públicas que saiam do papel e cheguem efetivamente às salas de aula. O maior desafio não é a falta de conhecimento científico, mas a dificuldade de transformar esse conhecimento em práticas de identificação, atendimento e desenvolvimento de talentos em larga escala.

Olhando para sua trajetória e para o impacto do seu trabalho, qual legado você espera deixar para a neuropsicologia brasileira e para as futuras gerações de pacientes e especialistas? Como alguém que foi identificado com superdotação ainda na infância, espero contribuir para que as próximas gerações encontrem mais conhecimento, acolhimento e oportunidades do que existiam quando iniciei minha própria trajetória. Também desejo ajudar a consolidar uma neuropsicologia comprometida com a ciência, mas que seja capaz de reconhecer não apenas dificuldades, mas também potencialidades humanas. Se meu trabalho contribuir para que menos talentos passem despercebidos e mais pessoas compreendam quem realmente são, já considerarei esse um legado valioso.

Hora de relaxar, onde recarrega suas baterias? Eu recarrego minhas energias viajando, conhecendo novos lugares, ouvindo música e aproveitando momentos simples com pessoas importantes para mim. Também gosto muito de ler e estudar temas que despertam minha curiosidade. Curiosamente, parte do meu descanso acontece quando estou aprendendo algo novo. A curiosidade continua sendo uma das forças que movem minha vida pessoal e profissional.