
NO AR COMO O GUERREIRO AKIN DE ‘A NOBREZA DO AMOR’, ATOR FALA SOBRE A EVOLUÇÃO DE SEUS PERSONAGENS, SUA TRAJETÓRIA NA TELEVISÃO E O FASCÍNIO PELA PATERNIDADE
Por Ivan Reis
Comemorando quase três décadas de carreira, André Luiz Miranda cresceu aos olhos do público em muitos de seus trabalhos na teledramaturgia brasileira. Em 1999, o ator ganhou notoriedade ao viver o pequeno Tiziu em ‘Terra Nostra’, ao lado de Thiago Lacerda e Ana Paula Arósio. Ao longo dos anos, o ator acumula treze novelas, nove séries e três longas-metragens no currículo com personagens e enredos que marcaram gerações.
Aos 38 anos, o ator vive um momento único de sua trajetória. Além de marcar presença nas reprises do folhetim de Benedito Ruy Barbosa e de ‘Avenida Brasil’, André Luiz Miranda está no ar na pele do guerreiro Akin na novela global ‘A nobreza do amor’. Ele também interpreta o advogado João Carneiro de Mendonça, um dos protagonistas do remake de ‘Dona Beja’, exibido pela HBO. Na trama, ele vive um triângulo amoroso entre Dona Beja, interpretada por Grazi Massafera, e Antônio Sampaio, vivido por David Junior.
Com exclusividade à MENSCH, André Luiz Miranda contou sobre o momento especial da carreira, a evolução como artista ao longo dos anos e as transformações da paternidade ao lado da pequena Beatriz, fruto da união com Bárbara Laino. O artista também revelou como é ser um dos protagonistas de uma produção de peso no streaming. Confira!


Em quase três décadas de uma carreira iniciada na infância, quais foram as mudanças que mais te impactaram como artista? Eu comecei muito novo na profissão e amadureci dentro dela. No início, tudo era muito intuitivo, instintivo e, com o tempo, fui entendendo o ofício como lugar de construção, de estudo e de responsabilidade. Acredito que a maior mudança foi essa consciência. Hoje, eu sei o peso de cada personagem e não só para a história, mas para quem está assistindo e a responsabilidade que tem na história e para o público em geral. Isso também mudou muito o mercado. Hoje, o ator precisa ser mais completo, preparado, consciente e responsável por aquilo que está contando.
Você foi uma das primeiras crianças pretas na teledramaturgia quando viveu o pequeno Tiziu em ‘Terra Nostra’ (1999), ao lado de Thiago Lacerda, Ana Paula Arósio e grande elenco. Passadas mais de duas décadas, como você avalia os avanços da representatividade negra na televisão brasileira? Quando fiz o Tiziu, eu era uma criança, mas já existia ali uma importância enorme porque eu era uma das poucas crianças pretas até naquele lugar de protagonismo, sabe? Eu não tinha essa dimensão e, hoje, olhando para trás, vejo que a gente avançou, tem mais protagonismo, mais histórias sendo contadas por pessoas negras, mais espaços de fala, mas é um processo. A gente evoluiu, mas tem muito caminho pela frente. Porque, hoje, existe uma consciência maior. O público quer se ver, o público quer se reconhecer. Isso muda tudo.


Em Nobreza do Amor, você dá vida ao guerreiro Akin. Como você construiu esse personagem e como se deu o seu processo de preparação — física, emocional e simbólica? Eu venho de uma preparação física desde 2023 por conta da série ‘Verônika’, do Google Play com AfroReggae Audiovisual. Então, o corpo, para esse guerreiro, já está sendo montado há um tempinho, mas mergulhei na construção simbólica desse personagem para entender a ancestralidade também, a força desse personagem, o que ele representa naquele universo. Emocionalmente, ele carrega um propósito, a luta de um povo infeliz com aquela ditadura, com aquele rei. [É] uma luta de um povo por sobrevivência. Então, tem um processo de muita entrega e muito respeito por tudo aquilo que a gente está contando, além de que a gente tem muita responsabilidade nesse trabalho porque estamos falando de África. Então, teve Maurício [Camillo, pesquisador da Guiné-Bissau e especialista em história de grandes reinos] que foi o nosso consultor e professor de história. Ele é maravilhoso. Nós tivemos muito tempo de conversa em aula, tivemos danças africanas da diáspora, tivemos a luta nigeriana importantíssima que foi utilizada nas primeiras cenas. Até o nosso parceiro de elenco, [Licínio] Januário, deu aula de capoeira para entendermos o chão que estamos pisando e o que estamos querendo contar. Então, essa história está sendo muito importante.
Para você, como os temas abordados por ‘A Nobreza do Amor’ dialogam com o público de hoje? ‘A Nobreza do Amor’ fala sobre identidade, pertencimento, poder, afeto, respeito à terra e a quem veio antes. Acredito que vivemos esse momento. As pessoas estão buscando se entender melhor, buscar conexões, encontrar suas origens, seus espaços no mundo. Então, a novela dialoga com isso, com essa necessidade de se reconhecer, de lutar pelo que acredita e de ser nobre nas suas atitudes


Assumir o seu primeiro protagonista na nova versão de Dona Beja marca uma virada na sua trajetória? Quais foram os maiores desafios na construção desse personagem? Acredito que marca, sem dúvida nenhuma, um momento muito especial na minha carreira não só ‘Dona Beija’, mas esse ano de 2026. Eu, que estou há muito tempo na carreira, na luta, venho construindo essa trajetória há muitos anos e esse protagonismo acho que chega com uma consequência desse caminho que foi percorrido. E o maior desafio acredito que foi dar humanidade a esse personagem dentro de um contexto tão forte, tão conhecido na época em que foi feito. Na época em que se passa a história, na verdade, é fugir do óbvio e criar uma identidade própria para ele. O que mais me mobilizou foi essa sensibilidade e trazê-la com esse olhar mais limpo para as questões tratadas na novela.
Em um cenário de remakes em alta, como você avalia o impacto desse projeto na sua carreira? Acredito que os remakes acontecem porque, em algum momento da história, essas novelas fizeram muito sucesso. Então, a gente tem uma responsabilidade grande porque existe uma memória afetiva do público e, ao mesmo tempo, é uma oportunidade de revisitar essas histórias e nós podemos tentar contar com um novo olhar, mais atual e, para mim, é uma vitrine já que essas histórias foram contadas e foram sucesso. Aí, coloca o meu trabalho em evidência dentro de um projeto que já tem uma força no imaginário das pessoas, mas também existe uma responsabilidade enorme em recontar algumas histórias.


Falando sobre o seu lado pai, como a paternidade te transformou nos últimos anos? Como é a sua relação com a pequena Beatriz? A paternidade me transformou por completo. Ela trouxe um novo sentido para tudo e para a minha profissão. Eu comecei a enxergar de uma maneira diferente. É com ela que aprendo, todos os dias, a ter uma relação de troca, de descoberta o tempo inteiro, de muito amor. Ela me faz querer ser uma pessoa melhor, um profissional melhor e eu falo isso diversas vezes com todo mundo com quem eu converso. Tudo o que eu faço na minha vida, é tudo por ela e para ela.
Em um mundo de transformações, quais são os desafios na educação de uma menina hoje para você? A gente vive em um mundo muito acelerado e com excesso de informação. Então, meu desafio aqui em casa é criar uma base. Com valores, respeito, autoestima. Eu quero que ela cresça sabendo quem ela é, tendo a segurança para ocupar os espaços que ela quiser e também criar um ambiente seguro para que ela entenda a impor limites, a querer o respeito porque eu, como homem, vejo esse crescimento dessa violência contra a mulher. Então, quero que ela tenha essa consciência e que não só com as palavras, mas as minhas atitudes dentro de casa e com as pessoas que vão fazer com que ela entenda como deve ser tratada e como uma mulher deve ser respeitada.
Fora dos sets de gravação, como você constrói a sua disciplina física e mental? Gosta de praticar esportes? Eu gosto de cuidar do corpo, treino e pratico atividades físicas. Agora, dei uma pausa no jiu-jitsu por conta da novela, mas eu praticava, [tem] o meu futebol e isso serve também para minha preparação como ator e gosto de ir à praia, ter aqueles momentos de silêncio, [ouvir] aquela onda batendo, e a minha corrida. Logo depois, vou para uma pedra perto de casa e fico no momento de reflexão e de silêncio. Uma conexão minha com a natureza. Isso tudo me ajuda a me manter mais centrado.


Nas redes sociais, você compartilha alguns bastidores de trabalho e momentos com a família. Como você equilibra presença digital, privacidade e construção de imagem nesse universo on-line? Confesso que eu não sou muito bom nas redes sociais. Sei que isso aqui é uma ferramenta importante hoje, mas, além de usar com consciência, não tenho essa necessidade de ficar me expondo o tempo inteiro, sabe? Eu sei que isso também faz parte do nosso trabalho, mas tenho um pouco de preguiça para falar a verdade. Eu compartilho as coisas que fazem sentido, principalmente do trabalho. Posto muito trabalho, pois acredito que as pessoas querem ver. Mas, em alguns momentos pessoais, festas e momentos de lazer. Acho que o equilíbrio está aí: estar presente sem expor além do necessário.
Nos próximos meses, quais movimentos profissionais devem marcar o próximo capítulo da sua trajetória? Como falei, estou vivendo um momento muito especial de verdade em ‘A nobreza do amor’ e ‘Dona Beja’. São duas novelas ao mesmo tempo, além das reprises de ‘Terra Nostra’ e ‘Avenida Brasil’ com a possibilidade desse ano de ‘Verônica’, essa série tão aguardada, estrear. Então, estou vivendo um dia de cada vez e eu quero continuar construindo esses personagens que têm impacto, que contem boas histórias e que dialoguem com o público. O meu foco é seguir evoluindo, me desafiando, ocupando espaços cada vez maiores no audiovisual. Estou há muitos anos nisso, eu vivo disso e eu amo o que eu faço.

Fotos @marciofariasfoto
Stylist @fernandah_brasil
Beleza @laisregiaa
Assessoria @marromglacecomunicacao


