
Por Duda Figuerêdo
Em novembro de 2024, me senti lisonjeada ao ser convidada pela Cris Neves, RP da Vinicola Garzon no Brasil para visitar o imponente projeto do bilionário argentino Alejandro Bulgheroni, o “colecionador de vinícolas” que parece ter começado a fazer vinhos por hobby. Já na chegada, a imponente construção, moderna e arejada com pé direto altíssimo, projetada pelos arquitetos Eliana Bórmida e Mário Yanzón, é de tirar o fôlego.
HISTÓRIA E CONCEPÇÃO DO PROJETO
A Bodega Garzón foi concebida com uma visão clara de unir a tradição vinícola uruguaia às práticas modernas de sustentabilidade e inovação. Situada na região de Garzón, no Uruguai, a bodega foi projetada para refletir a riqueza do terroir local e criar vinhos que expressem a identidade única da região.
Diferenciais do local que chamaram atenção do renomado enólogo italiano, chefe consultor da Garzon, Alberto Antonini convidado por Bulgheroni para avaliar o potencial de suas terras:
1 – O solo de balasto, único, misto de granito meteorizado e areia funciona como um filtro bastante poroso para a água das chuvas, abundantes na região. As vinhas não ficam “empapadas”, o que colabora para a saúde das uvas e evita enfermidades e fungos.
2 – A proximidade do oceano e suas brisas constantes que resfriam os vinhedos, especialmente à noite, o que costuma se traduzir, no vinho, em maior acidez e frescor.
3 – Os declives do terreno que permitem múltiplas exposições das vinhas ao sol, o que interfere na maturação das uvas, aportando características diferentes em cada pedacinho de terra, formando quase que uma colcha de retalhos perceptível da vista da varanda.
4 – A biodiversidade encontrada na região primordial para o foco na sustentabilidade.

O ENÓLOGO: A PAIXÃO PELO VINHO E PELA NATUREZA
À frente da Bodega Garzón está o renomado enólogo Alberto Antonini, que traz consigo uma vasta experiência adquirida em diversas regiões vinícolas ao redor do mundo e que tem como braço direito o enólogo residente German Bruzzone que coordena toda a equipe de anologia da Garzon. Antonini acredita que a criação de um bom vinho começa na vinha, onde a natureza deve ser respeitada e preservada. Seu foco na viticultura sustentável se reflete nas práticas adotadas pela bodega, que incluem o uso de agricultura orgânica e a minimização da intervenção química.
Além disso, Antonini é conhecido por sua abordagem inovadora e sua capacidade de combinar tradição e modernidade na produção de vinhos. Ele é respeitado por seu talento em entender as características únicas de cada terroir e adaptar suas técnicas de vinificação para realçar o potencial de cada uva e região.
Quando da nossa visita a Garzón, tivemos a feliz coincidência de conhecê-lo. Ele almoçou conosco e nos deu uma aula sobre o solo Balasto, tão emblemático na região, que dar nome ao vinho ícone da Vinicola.

Para tornar esse momento ainda mais especial, participamos da degustação de uma vertical do vinho Balasto safras 2015, 2016,2017,2018, 2020 e 2022 pois a missão era analisar as características e a evolução de cada uma das safras para definir o Balasto 2023 que seria o próximo a ser engarrafado. Uma aula inesquecível! Detalhe que 2015 foi a primeira safra desse vinho.
SUSTENTABILIDADE COMO PILAR CENTRAL
A Bodega Garzón se orgulha de ter implementado uma série de práticas sustentáveis que garantem não apenas a qualidade de seus vinhos, mas também a preservação do meio ambiente. Entre as iniciativas destacam-se:
1. Energia Renovável: A vinícola opera com painéis solares, que fornecem grande parte da energia necessária para suas operações.
2. Gestão da Água: Com um sistema de irrigação inteligente, a bodega utiliza a água de forma eficiente, garantindo que cada gota seja valorizada.
3. Biodiversidade: A preservação da fauna e flora locais é uma prioridade. A vinícola promove o plantio de espécies nativas e a proteção de habitats, contribuindo para a biodiversidade da região. Ao percorrermos os vinhedos podemos ver muitas capivaras.
4. Redução de Resíduos: A Bodega Garzón está comprometida em reduzir seu impacto ambiental, implementando práticas de reciclagem e reutilização de materiais em suas operações.
5. Arquitetura Sustentável: O design arquitetônico da bodega foi planejado para integrar-se ao ambiente natural, utilizando materiais locais e técnicas de construção que minimizam o impacto ambiental. A estrutura é funcional e estética, otimizando a produção e a experiência dos visitantes.


O URUGUAI ALÉM DA TANNAT
Outro fato marcante foi me deparar com 21 variedades de uvas, todas presentes nos rótulos da vinícola. A propriedade de 2.220 hectares foi obsessivamente escaneada pela equipe de Antonini e Bruzzone, que dividiu a terra em mais de mil microlotes. Cada parcela tem seu potencial estudado e, das mais especiais para cada variedade de uva, saem os melhores vinhos da bodega. O topo da hierarquia são os vinhos Petit Clos, elaborados a partir de parcelas ínfimas, seguida pela linha Single Vineyard, de vinhedos únicos.
E, em safras consideradas excepcionais, são feitas assemblagens dos melhores vinhos tintos da casa para compor a receita do vinho ícone da Vinícola, Balasto. Tannat, cabernet franc, petit verdot, merlot e marselan já fizeram parte dos cortes, cuja história começa em 2015 e tivemos a oportunidade de degustar na presença do pai da criança.
A Garzón foi uma das responsáveis pelo grande salto de diversidade que o vinho do Uruguai viveu nos últimos anos, processo que segue em andamento. Se antes o país era famoso apenas pela potente tannat, uva introduzida no país no século 19, hoje o conhecedor de vinhos tem outra visão da produção uruguaia, bem mais ampla. Chamo atenção para os brancos feitos da uva Alvarinho o qual também provamos de diferentes safras e diferentes parcelas. Mais um ponto alto dessa viagem.

ENOTURISMO: O QUE FAZ DA GARZÓN UMA DAS MELHORES VINÍCOLAS PARA VISITAR NO MUNDO?
Há quatro pontos básicos como resposta: a beleza natural do lugar, a arquitetura elegante que conversa com a paisagem, a estupenda gastronomia capitaneada pelo chef argentino Francis Mallmann e, claro, a qualidade dos vinhos.
A sede abriga a vinícola, as salas de barricas, o restaurante, um lounge espaçoso e largas varandas para quem quer devanear olhando a paisagem, salas para degustações e eventos, loja e outros ambientes. Alguns secretos, como o clube privado para membros endinheirados escolhidos a dedo por Bulgheroni. Esse espaço é pra poucos e tivemos o prazer de conhecer as salas de eventos privadas, a cozinha gourmet que pode ser usada pelos membros do clube bem como as adegas privadas para guarda de vinhos especiais. Aqui não podemos registar fotos, mas tivemos a informação que tem um brasileiro sócio do clube. Quem será!?

COZINHA ESTRELADA FRANCIS MALLMANN
Seja qual for o estilo de visita é fundamental provar algo que venha da cozinha de Francis Mallmann, chef celebridade, dono de uma dezena de restaurantes e estrela de programas culinários na televisão. Não tivemos a sorte de esbarrar com Mallmann por lá, mas o prazer de conhecer a cozinha juntamente com o chef residente Nicolás Acosta que nos serviu uma empanada inesquecível alí mesmo em meio as panelas a qual harmonizamos com o Espumante Garzón Extra Brut de produção muito pequena e bem exclusivo! Depois seguimos para uma ampla degustação harmonizada e para cada escolha, um vinho indicado pelos sommeliers da casa. Aí mora a história da diversidade da Bodega Garzón. Para mais detalhes sobre os tipos de visitas, menu e calendário de eventos, sugiro entrar no site da vinícola https://bodegagarzon.com/pt/ onde tem tudo bem detalhado.



