Com seu jeito mineirinho o ator Igor Cosso foi conquistando público, crítica, autores e quando se percebeu sua trajetória estava sendo formada. Com coragem, determinação e muita verdade. Uma verdade sem medo de ser feliz. Assim como fez quando abriu para o grande público o seu relacionamento homoafetivo. Igor é de uma geração de atores que consegue ser quem é independente de rótulos ou de interferências em seu trabalho. Ele largou Belo Horizonte, sua cidade natal, e foi se jogar nos palcos dos teatros em São Paulo e Rio de Janeiro. Fez sua estreia na TV, passou por “Malhação”, “Os Dez Mandamentos” e hoje, aos 29 anos, é o Júnior da novela “Salve-se Quem Puder”, que volta ao ar em março após a interrupção das gravações por conta da pandemia de covid-19. Mas para Igor tudo foi, e é, um grande aprendizado, uma evolução onde se expandir e uma necessidade do ser humano.

Igor, com todo o sufuco 2020 terminou sendo um ano importante para você tanto no âmbito profissional quanto no pessoal não foi? Que ano! Comecei 2020 gravando a novela, super empolgado para a estreia, para voltar a Globo e de repente, o mundo parou. A vida nos deu uma rasteira e os planos todos feitos, ficaram pra trás. Passei por angústia, medo, tristezas (como a maioria das pessoas) mas além disso e por conta disso, passei por um processo de autoconhecimento muito forte. O isolamento me obrigou a ir fundo aqui dentro e eu entendi em algum momento, que quanto mais a gente se aproxima de quem somos, mais longe vamos. Tem até uma frase famosa de Nietzsche que diz “Só se pode alcançar um grande êxito quando nos mantemos fiéis a nós mesmos”. Esse entendimento fez com que eu tomasse decisões importantes pra minha vida pessoal e profissional. E de fato, mudar o curso das águas na minha vida.

Um dos grandes destaques foi sua volta para a Globo na novela “Salve-se Quem Puder”. Como surgiu o convite, como foi dar vida ao Júnior e como foi parar no meio do caminho? Foi através de teste. A produtora de elenco da novela Frida Richter estava fazendo testes pra o Júnior e eu já tinha falado com todo mundo que queria fazer. Mandei mensagem até pro autor Daniel Ortiz na cara de pau. (risos). Fiz o teste com outros atores e rolou. Lembro que levei até uns óculos de grau e o Júnior já nasceu ali no teste mesmo. Ele se parece muito comigo. Principalmente a relação dele com a família, que é a trama principal do Júnior. Então foi uma construção de personagem pegando muito da minha memória emotiva. Interromper o trabalho não foi fácil. Quando tudo começou a assentar, ganhar forma e fluir, tivemos esse corte seco como dizem no cinema. Não sei dizer o quanto atrapalhou, mas afetou o processo de todos. Foi um desafio gigante retomar meses depois. Nunca tinha vivido isso em uma novela. E não espero viver de novo.

Agora com a retomada das gravações você concluiu o trabalho. Como foi essa volta e como se sente ao final desse trabalho? A volta foi meio “torta”. Havia inúmeros protocolos de segurança dentro e fora do set de gravação. Tínhamos que criar marcações dentro do contexto da cena, sem que pudéssemos nos tocar e nem ficar de frente um pro outro. É mais complicado do que parece. Os diretores adaptavam com maestria tudo. Eu encarei como um desafio único da vida e fiz o meu melhor pra jogar o jogo com as novas regras. Conseguimos por diversos momentos, mas não faço ideia do resultado no ar, só saberemos em março. Concluímos tudo em dezembro, logo quando havia estourado aquela segunda onda no Rio – que infelizmente ainda segue até hoje – então foi um final um pouco as pressas pra encerrar logo, com todos são e salvos. Nem consegui me despedir da equipe e dos colegas. Mas nos encontraremos logo, em uma situação melhor!

Você mal apareceu na TV e já estava bombando nas notícias. A que se deve esse sucesso? Olha, eu não sei se é assim não. (risos) Nas ruas até hoje sou bastante lembrado pelo público da Record. Especificamente pelo personagem Bezalel de “Os Dez Mandamentos” que foi um grande sucesso. É impressionante.

Mas com a pandemia, passei a criar conteúdo nas minhas redes sociais como o short-film de terror em inglês chamado “The Article” que está no meu IGTV e a dividir mais a minha vida pessoal no Instagram. Vejo que isso me aproximou mais do público e me apresentou pra quem não me conhecia. A internet é um universo que eu amo, e vou investir artisticamente muito mais nela esse ano.

Com os holofotes em cima de você foi o momento esperado para abrir de forma tranquila seu relacionamento homoafetivo? Como foi receber as porradas e o carinho do público? Não digo esperado porque aconteceu de forma inesperada. Mas foi algo que sempre quis. Desde novo, sempre fui muito livre e soube que não me encaixava como um homem hétero. No português claro, que não sentia atração apenas por mulheres. E quando comecei a trabalhar com televisão com 19 anos, logo fui colocado em uma caixa em que eu não me encaixava. Tentei e até me encaixei por anos, mas não via a hora de quebrar ela como fiz. O que aconteceu foi que eu havia publicado no meu Instagram uma obra de arte em que um casal de dois homens estão de mãos dadas e choveu comentários horrorosos na imagem. Logo, comecei a perder um número enorme de seguidores. Isso me revoltou. E diferente de outras vezes que eu engoli a indignação, dessa vez criei coragem e apenas postei a minha foto com o meu namorado, dizendo que era uma foto mais clara sobre o amor. Aquilo tomou uma proporção que eu jamais imaginaria. Virou capa de muitos portais e minha família inteira começou a ligar porque as pessoas vinham falar com elas. Em 24h, já tinha ganhado mais de 100 mil seguidores e palavras de carinho que jamais vou esquecer. Até da minha avó, que até então não sabia de mim. Tive uma crise de choro. Era de medo e de alívio. Tirei um peso das costas. Hoje me sinto bem mais livre pra ser quem eu sou.

Você é de uma geração de atores que pode falar e se declarar gay sem grandes traumas. Tempos atrás a imagem do galã tinha que ser preservada a todo custo. Como você enxerga tudo isso? O que mudou e o que continua o mesmo? Sem dúvida que o mundo vem mudando mas ainda existe muito preconceito e muitas barreiras a serem quebradas. Estamos no início de um movimento e eu sinceramente não sei se terá ou não grandes traumas pra mim.

Acho que o tempo vai dizer. Quero contar histórias de todos os tipos de personagem, sem barreiras. Espero ter oportunidades pra mostrar que minha orientação sexual, nada atrapalha meu ofício de atuar. Afinal, atuar é criar e viver uma outra persona, que não você. Esse oficio lindo e complexo é o que eu estudo pra fazer. É o meu trabalho. Ao assistir um personagem, o público se apaixona por ele. Se envolve na trama. E acabam confundido a ficção da realidade. Mas uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Pelo menos é assim que enxergo. No meu Tedx, em que fui speaker (pode conferir no Youtube), eu fiz um discurso sobre a importância da CORAGEM pra gente mudar a história. Acredito que por atitudes corajosas de atores maravilhosos dessa geração como a Nanda Costa, Jesuíta Barbosa e Vitoria Strada, a história vem sim sendo mudada. Fico muito honrado de fazer parte um pouquinho disso.

Esse assunto terminou te levando ano passado para ser um dos palestrantes do Tedx BH com um speech sobre “A Construção da Coragem”. Como foi o feedback do público? Foi maravilhoso. O Tedx é um evento internacional super renomado e quando me convidaram fiquei dias com insônia pensando sobre o que eu gostaria de falar. Queria que fosse algo além do tema LGBT. No curso que fiz pra escrever roteiro, tive aula sobre a estrutura da “Jornada do Herói” de contar histórias e entendi que em toda trama é preciso que o herói ou heroína vença seus medos no ato final e tenha alguma atitude coragem pra vencer e concluir sua jornada. E assim é a vida. Cheia de jornadas esperando nosso ato de coragem pra completa-las. O feedback foi bem legal. Eu recebo mensagens de pessoas dividindo suas jornadas comigo até hoje.

Como construir a coragem? Por onde começar? Olha, eu queria ter uma resposta exata pra essa pergunta complexa. Mas não tem jeito, cada um tem seu tempo e seu processo pra tomar aquela atitude que precisa pra mudar a sua vida. O que posso falar sobre minha experiência pessoal nesse caso é que ser honesto com você é sempre o melhor. Investigar e identificar o que te dá prazer, o que te deixa feliz de verdade e o que você quer pra você, é o primeiro passo pra nortear seu caminho. A gente no fundo sempre sabe o que a gente quer mas nossa cabeça cria monstros muito maiores do que eles realmente são e nos limitam. A missão é matar esses monstros dentro de nós e de situação em situação que a vida te colocar, você se permitir ter uma atitude que você não tinha antes naquela situação. Só não pode ficar parado. Uma hora, quando engrenar, essa força não vai ter mais volta!

O que esse mineirinho guarda das origens e que levou para o Rio? Muita coisa uai! Eu sou mineiro da ponta dos pés à cabeça e minha família inteira mora em BH. Guardo ainda meu jeitinho típico mineiro de ir conquistando as coisas pelos cantos, aos poucos e sempre com dignidade. Quando você se der conta, eu já conquistei muita coisa e você nem percebeu. Mineiro parece mas não é bobo não!

E como foi essa mudança de vida de sair de Belo Horizonte e ser ator no Rio? Sempre foi meta e desejo? Eu fazia aula de Teatro na escola em BH durante toda adolescência, mas não pensava como profissão. Era muito distante de mim. Fiz vestibular pra Economia, passei e antes de cursar resolvi fazer um curso de um mês em São Paulo de atuação. Não deu outra, voltei de SP decidido que iria me mudar pro Rio e seguir essa área. Não tinha como ser diferente. Sempre fui muito criativo e muito sensível. Alma de artista mesmo.

Seu primeiro trabalho na TV praticamente foi “Malhação”. Já foi uma estreia bem marcante. Como foi esse início? Na real, quando fiz “Malhação” eu entrei como participação e acabei sendo contrato. Porém eu tinha muitas poucas cenas na trama. Foi muito legal pra eu viver o dia a dia de um set de filmagem mas ainda foi um trabalho muito imaturo pra mim. Não fazia ideia ainda do que estava acontecendo e o quanto eu tinha que estudar. Atuar é bem complexo. Logo depois, eu fiz uma novela das 18h chamada “Amor Eterno Amor”, onde aprendi muito mas só em “Os Dez Mandamento” que eu tive uma oportunidade maior, eu senti que de fato estreei na TV. E não tive dúvidas de que eu estava no lugar certo.

E paralelo a isso estava o teatro. Como cada um te completa e te desafia? O teatro é o berço de tudo pra mim e pro mundo das artes. Não dá pra falar de arte sem falar das tragédias da Grécia Antiga. No teatro, a imaginação não tem limites e isso é mágico. Tudo é possível de se criar em um palco, só bastar um ator. Essa criatividade que borbulha quando tô ensaiando ou escrevendo uma peça – inclusive, gatilho de saudades de teatro – me enriquece profundamente nos personagens pra outras linguagens como a TV. As duas me completam de maneiras distintas. Teatro é mais ação. Televisão é mais emoção. Eu não vejo a hora de podermos voltar a fazer como ator e frequentar teatro como público. Vão ao teatro quando voltar! Apoie os artistas brasileiros!

Hoje em dia ainda tem seu canal nas redes sociais. Como tem sido isso? Eu venho explorando cada vez mais minhas redes sociais e criando conteúdos pra elas. Além do curta “The Article” que está no meu IGTV, também posto algumas dublagens que gosto de fazer, danças com meu namorado (que é um baita de um dançarino) e já estou produzindo um projeto muito legal e grande de dramaturgia pro Instagram. Me acompanhe lá e aguarde! @igorcosso

E para relaxar, qual a pedida? Maratonar séries e ficar em contato direto com a natureza. Tenho o privilégio de morar no Rio e quando quero esfriar a cabeça, coloco os fones e corro até o Arpoador pra meditar.

Finalizando… O que espera para 2021? Espero que seja o ano da expansão! Ficamos muito tempo enclausurados em nós mesmos que chegou a hora de expandir. Mesmo que ainda de dentro de casa. O ano começou já com as pessoas sendo vacinadas no Brasil, o Biden tirando o babaca do Trump e uma nova era pós-Covid se aproximando em todo o mundo. Vamos expandir essa vacina pra todos. Expandir nossa cabeça pro desconhecido. Expandir nossa energia de otimismo e construir nossa coragem pra ser feliz, porque o tempo passa rápido, e em 2021 eu vou trintar! 🙂 Muito obrigado a todos da revista MENSCH, e um muito, muito, muito obrigado a Giselle Dias que criou e fotografou esse shooting sensacional pra revista. O mais irado que já fiz até hoje. Amei!

Creative Director & Photo Giselle Dias

Stylist Felipe Escudeiro 

Grooming Elcides Freitas