HOMEM ATUAL: ”O CÉU DA LÍNGUA”: PASSADO, PRESENTE, FUTURO E OS USOS EXCESSIVOS DE TECNOLÓGICOS

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Por Dulce Rodrigues

Ao assistir a peça O Céu da Língua, não pude deixar de pensar neste momento altamente tecnológico em que estamos todos inseridos. Vivemos  em um  mundo que, antes de representar a nossa essência como seres humanos, ser nosso abrigo, este espaço tem se tornado o lugar da insegurança, da inquietação. É nesse sentido que a peça O Céu da Língua se torna emblemática, uma vez que esta trata da língua, fator totalmente humano, essencial na e para a comunicação. Não é a toa que nós seres humano, sejamos os únicos animais a contar com a fala para nosso desenvolvimento e interação. Entretanto, tenho observado especialmente a partir dos últimos três anos, que, quanto mais inteligentes se tornam os sistemas digitais, mais as pessoas aparentam estar em busca de uma outra direção mais humana, buscando algo que possa nos tirar momento distópico, o que tem caracterizado o espírito do tempo, como diz o título do documentário Zeitgeist.

PRESENTE

Assim, acompanhamos movimentos mundiais no sentido de que haja uma maior regulação de sistemas digitais, das mídias sociais entre tantos males causados pelo uso descontrolado e viciante da Internet. Se por um lado, a Inteligência Artificial tem se tornado de grande ajuda para, praticamente, qualquer profissão, essa mesma IA tem assustado comunidades e sociedades, mundo afora. Aos poucos, sentimos que estamos perdendo o controle de parte de nossas vidas, de nossa comunicação humana, por conta do uso excessivo de tecnologia.

PASSADO, PRESENTE, FUTURO

Diante disso, a peça aqui abordada tem chamado a atenção de todas as plateias que têm prestigiado essa produção teatral, o que merece nossa atenção, especialmente por percebermos de forma muito animadora, o quanto o teatro, depois do cinema no Brasil, tem lotado salas, em movimento cada vez mais intenso nessa área do entretenimento. Diria que esse movimento significa, talvez, a busca de um estilo de vida mais saudável, almejando, então, a preservação da natureza e da humanidade. Dentre tantas opções de “atividades humanas”, temos números realmente expressivos no que diz respeito não apenas ao teatro, mas a toda forma de entretenimento e cultura, devido, de forma especial à fomentação cultural que ocorre graças aos incentivos advindos de empresas brasileiras.

PRESENTE

Esse monólogo O Céu da Língua, elabora elos entre a forma erudita e popular da língua portuguesa, demonstrando que esse vínculo vai além da comunicação diária, trazendo a língua como um “céu” infinito da expressão humana de falantes dessa língua, adequando-a aos diversos usos da desta, priorizando o falante em suas mais variadas necessidades de uso da língua, indo das gírias às formas mais precisas da língua, das expressões populares às mais fechadas, mais acadêmicas. Talvez, por todos esses fatores, o ator se apresenta vestido como Luís de Camões – maior representante da língua portuguesa. Podemos, assim, dizer que o texto propõe que a língua molde identidades e culturas humanas de forma hierárquica em relação à linguagem tecnológica.

Assim, priorizando a língua, especialmente, a falada, em detrimento da linguagem tecnológica, O Céu da Língua, explora as possibilidades de uso que a Língua Portuguesa nos propicia no cotidiano. O intérprete chama a atenção para o fato desta língua ser utilizada de tantas feituras – desde o passado até o presente e, provavelmente no futuro, ao longo dos mais variados tipos de comunicação. Ele se utiliza do título da peça, como uma metáfora para elevar a fala comum a algo que transcende a sua forma literal. O Céu da Língua é composta de um monólogo cômico, escrito e protagonizado pelo escritor brasileiro Gregório Duvivier – um dos criadores e ator atuante do grupo de comediantes Porta dos Fundos, com direção de Luciana Paes, sua co-autora. O espetáculo explora o humor, a poesia e as peculiaridades da língua portuguesa, recorrendo à fala do cotidiano, às reformas ortográficas, à etimologia e à história da língua como coadjuvantes desse “céu”, desde sua origem.

Ao longo do texto, o ator comenta a necessidade de se resgatar palavras esquecidas no passado, mas que no presente, elas são fundamentais. O espetáculo também destaca a musicalidade das variações lingüísticas regionais, brincando com a ideia de que, se existe um “céu da língua”, é lá que reside os vibrantes sotaques regionais brasileiros. Ao longo de sua atuação, Duvivier destaca a sensação física das palavras e frases cotidianas, examinando-as, sob a perspectiva da etimologia. O texto nos traz a acepção do que seja significado e significante, além de vocábulos regionais e gírias do dia a dia do Brasil.

PASSADO E PRESENTE – a arte cura?

No mundo atual, da mesma forma que o texto de O Céu da Língua resgata todas as nuances da Língua Portuguesa, temos um revival de palavras que tinham ficado no passado, como também temos o revival e remake de filmes antigos, trilhas sonoras de filmes e de novelas brasileiras que priorizam músicas que foram sucesso em um passado distante. Ultimamente, o cinema tem trazido obras que são releituras ou que tiveram por base obras literárias – dos clássicos às produções mais modernas.

PRESENTE E FUTURO

Grupos de leitura coletiva, clubes sociais presenciais e encontros fora do ambiente de trabalho, tem acontecido em uma tentativa  de conseguir alcançar o auto-controle em relação ao estresse pessoal, à clareza mental e ao bem-estar biológico, em uma busca por um estilo de vida mais saudável. Então, a preservação da natureza e da humanidade, tem um objetivo comum – além do controle de uso da linguagem tecnológica e desfazer o Antropoceno, que significa o domínio humano sobre o planeta, desfigurando-o. Este momento histórico em que o ser humano é visto como uma força geológica que pode afetar ou destruir o meio físico, químico e biológico em que vive. Especialmente, neste século, podemos dizer que o desenvolvimento da tecnologia estimulou o avanço não apenas da ciência moderna, como também a autonomia do pensamento e a livre iniciativa que também sustenta o Andropoceno que afeta o meio ambiente, tornando-o um lugar que não funciona bem, graças às mudanças provocadas pelo homem.

FUTURO

Dito isso, não se pode deixar de afirmar que uma discussão que envolva esses aspectos da vida do ser humano e que este não abdique de valorizar aquilo que faz de um ser humano, consiga realizar-se como ser humano, o que faz-se necessário em todos os segmentos das sociedades. Como exemplo, podemos citar A Hierarquia de Necessidades, desenvolvida pelo psicólogo americano Abraham Maslow. O cientista usa uma pirâmide para demonstrar essa hierarquia que vai do aspecto mais básico para a sobrevivência humana – das necessidades fisiologias, à segurança social, à auto-estima e à mais humanizadora – a realização pessoal. A ausência dessa hierarquia pode significar a não prosperação da vida. Dessa forma, em uma procura por um equilíbrio entre o que é humano e o que se tem por pós-humano, tem havido uma busca por aquilo que possa reconhecer o que é próprio do ser humano e dizer não aos algoritmos, priorizando portanto, a socialização com menos telas, fazendo da palavra oral prioritária para a comunicação salutar, condizente com o desenvolvimento da vida em toda a sua extensão.