CAPA: THOMÁS AQUINO ENTRE RAÍZES E PERSONAGENS

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Natural de Recife, cidade que pulsa arte, cinema e identidade cultural, Thomás Aquino vive hoje um dos momentos mais intensos e simbólicos de sua trajetória. Entre produções de destaque como Vale Tudo, Guerreiros do Sol, Coração Acelerado e o celebrado O Agente Secreto, o ator pernambucano consolida uma carreira marcada pela entrega, versatilidade e pela força de personagens que atravessam diferentes universos emocionais. Antes dos holofotes, porém, vieram as ruas, os trabalhos improvisados e a persistência de quem transformou cada experiência em combustível para seguir em frente. De malabarista a Papai Noel de shopping, Thomás construiu seu caminho longe de fórmulas prontas — sempre guiado pelo desejo de atuar e pela conexão profunda com suas origens. Nesta conversa com a MENSCH, o ator fala sobre o orgulho de ver o cinema pernambucano conquistar o mundo, relembra os desafios do início da carreira, reflete sobre a importância do sotaque nordestino na dramaturgia nacional e abre detalhes dos processos de criação de personagens marcantes como Josué, Amâncio, Ronei e sua participação em “O Agente Secreto”. Um papo sobre arte, identidade e a potência cultural de Pernambuco.

Você é natural de Recife, uma cidade muito rica culturalmente  e que virou a bola da vez com o sucesso do filme “O Agente Secreto”. Como você, sendo da terra, enxerga esse momento e a cultura da cidade? É muito massa eu ser de uma cidade onde temos Jota Soares (precursor desse nosso cinema pernambucano), Kleber Mendonça Filho, Juliano Dorneles, Marcelo Gomez, Lírio ferreira, Leo Lacca, Gabriel Mascaro, Hilton Lacerda, Marcelo Lordello dentre tantos outros!! Eu fico muito contente que o nosso cinema esteja ganhando mundo, com a voz do O Agente secreto, filme de Kleber que eu tive a maior felicidade em fazer parte! Eu acredito que isso engrandece ainda mais o nosso potencial, e chama novos e antigos olhares pra nossa cultura pernambucana. Somos muito rico em cultura, e desde a década de 20 a gente vem mostrando pro que viemos! 

Antes de se tornar ator você se aventurou por áreas bem diversas como trabalhar como malabarista de rua e até Papai Noel de Shopping.  O que guarda desse período e quando deu uma quinada na vida atrás do seu desejo de atuar? Eu guardo o esforço de que na vida quando se conquista, o valor das coisas são mais saborosas. A guinada ela veio já desse momento: de manter meu foco e inteligência emocional pra lidar com os problemas e os “não” que os momentos me davam. Sabia que isso era pra me ensinar. Tudo na vida tem um motivo. O universo é sábio. Temos que aprender a lê-lo. Está sempre dizendo algo pra gente. 

Hoje você vive um dos melhores momentos da sua carreira participando de grande projetos como Guerreiros do Sol, Vale Tudo, Coração Acelerado e o próprio O Agente Secreto. Se sente realizado como ator? O que ainda falta? Me sinto muito realizado! Sou muito feliz! Poder viver e ser feliz como artista num país em que ainda não acordou pro quanto é importante a nossa cultura, é realização. Eu amo demais o que faço. Atuar é estudar e ressignificar os assuntos políticos sociais. E transformá-los em debate. Eu não sei dizer o que ainda me falta, mas sinto aqui dentro do meu peito, que nunca ficarei completo com a arte, pois ela é infinita. Então vou estar sempre na busca de algo. 

Você tem construído personagens muito distintos entre si. Como foi o processo de dar vida ao cangaceiro Josué em Guerreiros do Sol, que estreou recentemente na tv aberta? Eu sou muito feliz de ter recebido e poder dar vida a tantos personagens interessante. Adoro me transformar. Modificar. Usar 10% de Thomás e preencher o resto de novos personagens. Josué, por ser inspirado em Lampião, tem uma representação nordestina que me emociona. Fazer esse personagem foi ótimo! Pudemos viver 15 dias no sertão antes de dar início a novela e foi importante demais, pois quando gravamos nos estúdios Globo, podíamos relembrar do cheiro do sertão, do sol de lá, da sensação do que era estar em canudos e outras cidades lindas! Esse personagem me ensinou liderança. Foi muito bom! 

Em Os Outros, seu personagem Amâncio transita por camadas emocionais intensas. O que mais te desafiou nessa construção? O que mais me desafiou foi segurar os impulsos que seriam possíveis nesse homem. Amâncio não tinha violência no seu DNA. Não sabia revidar com força física. Ele tenta resolver os problemas de forma politicamente correta. Muito interessante de ver o quanto ele é um homem bom, e que a uma parte da sociedade o castiga por ser assim. 

Já em Coração Acelerado, o Roney Soares traz uma energia diferente. Como você equilibra esses universos tão distintos simultaneamente?  Fazer Ronei tá sendo incrível! Nunca tinha feito comédia, e tô gastando, na medida e dosagem permitidas, toda minha veia cômica (risos). Eu gosto muito do quanto eu descubro e posso ir com esse personagem! Acredito que esse tenha 50% de Thomás hahaa eu sou de fato solar, extrovertido, brincante. Não concordo com as falcatruas que ele faz, isso não é meu pessoa física. O segredo pra fazer coisas tão distintas é simplesmente jogar. Brincar. Ser. Estar presente e ir acreditando no que aquele personagem faria. Eu me divirto atuando. Gosto muito do que faço. 

Sendo recifense, de que forma sua origem influencia suas escolhas artísticas e a forma como você constrói seus personagens? Na verdade uma única tecla que venho batendo e conversando sobre, é em relação ao sotaque. Como disse em entrevistas anteriores: lógico que faria um personagem com um sotaque do sul ou do sudeste ou de onde for. Não vejo problemas. Mas se não ha descrito de onde vem a origem desse personagem, por que não poder trazer minha musicalidade que é tão vista ainda como um ponto estereotipado? O que impede de um empresário, um professor, um advogado, um físico, ter o sotaque nordestino se não há uma origem desse personagem? O que incomoda tanto? Trago mais essa reflexão do que me impedir de fazer trabalhos e construir personagens. 

Você vem ganhando destaque em produções de grande alcance. Em que momento percebeu que sua carreira estava entrando em uma nova fase? Como percebeu a aceitação do grande público? Eu sempre digo que Bacurau, filmado em 2018 e estreia nacional e internacional em 2019, foi minha porta de entrada pro mundo. As pessoas começaram a me chamar e convidar pros trabalhos. E fico muito contente com isso. O filme foi uma febre e onde eu andava, sempre me chamavam pelo nome do personagem (risos). Me divirto com isso. E claro, logo em seguida veio “Manhãs de Setembro” da Amazon e depois “Os Outros” da Globo que foram trabalhos que marcaram mais ainda por serem obras interessantes e boas. E assim foi fluindo e indo. Me sinto muito feliz. 

Como é o seu processo de preparação para personagens que exigem uma carga física e emocional mais intensa, como no caso de Josué? Vou falar que gosto muito de sentir o momento. O que o momento me traz. As energias em volta do set me alimentam de alguma forma. Minha preparação, claro vem da sala de ensaio, junto com os preparadores, mas a parte que mais vai dar organicidade é quando vamos fazendo e vivendo o personagem no dia a dia. Então a influência do que me acontece no momento é o que uso pra cena. Se eu preciso estar triste com raiva em luto, vou pra um lugar barulhento do set, ou algum lugar que me gere alguma aflição interna. E se eu preciso estar feliz contente, simplesmente faço brincadeiras antes da cena pra me deixar mais leve. Então é orgânico junto com as energias do momento. 

Ao longo da sua trajetória, você já transitou por diferentes linguagens. O que o audiovisual te permite explorar que outras plataformas talvez não permitam? São escolas diferentes. Cada uma tem seu ensinamento. São atuações distintas. Eu adoro todas. Mas especificamente no audiovisual, por tratar de ter uma lente de uma câmera que possa chegar próximo ao seu rosto, eu gosto de explorar o olhar. Que ele se torne a janela da alma de cada personagem que eu faça, e que através disso, tu pertinho, possa entrar na cabeça do personagem e ver e sentir o que ele tá sentindo. Isso eu amo explorar. 

Existe algum papel que você ainda sonha em interpretar ou algum tipo de narrativa que deseja explorar nos próximos projetos? São tantos papéis (risos). Eu espero que o cinema brasileiro me proporcione personagens interessantes. E também não posso negar, e tenho que confessar, que sou muito fã de Star Wars. Gostaria de fazer um Jedi brasileiro salvando a galáxia (risos). 

Como você enxerga o atual momento do audiovisual brasileiro e o espaço que ele tem aberto para novas narrativas e protagonistas? Incrível! Já fico pensando qual próximo filme que vai voar e brilhar nos festivais internacionais pelo mundo levando nossa cultura. Acho que a bolha ela tá cada vez sendo mais rasgada, e estamos entrando firme e forte, mostrando potência com nossa forma de fazer cinema no mundo. O quão incríveis nós somos!! Acho que estamos atraindo cada vez mais olhares de fora, o que proporciona reconhecimento dos produtores de projetos internacionais a buscarem por artistas brasileiros. Espero que continuemos fazendo filmes lindos aqui no Brasil, pra que cada vez mais Brasil se torne uma potência mundial cinematográfica. 

Olhando para o futuro, quais são os próximos passos que você deseja dar na sua carreira — tanto no Brasil quanto internacionalmente? Eu quero conquistar o mundo. Quero fazer filmes argentinos, espanhóis, franceses, nos Estados Unidos, na China, Japão, onde for. Eu sou um curioso que amo trabalhar na arte. E aprender pra mim não tem limites.

Fotos Nanda Araújo

Prod executiva e styling Samantha Szczerb 

Agradecimentos: Amil Confecções, Angelo Bertoni, Democrata, Dois Maridos, Oficina