CARREIRA: NICHOLLAS MARSHELL: ENTRE ALGORITMOS E PROPÓSITO HUMANO

A TRAJETÓRIA DO MENINO POBRE NORDESTINO QUE CONSERTAVA COMPUTADORES AO CEO DA IDEAS HUB ICT, UMA VENTURE BUILDER E INSTITUTO DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA, QUE SE CONSOLIDA COMO UM DOS PRINCIPAIS HUBS DO SUL DO PAÍS.

Por Bruno Albertim

Ele tem só 34 anos, mas, após uma rápida conversa, a impressão que se tem é que o paraibano Nichollas Marshell guarda uma enciclopédia de vida pessoal e profissional de alguém muito mais calejado e experiente. Apaixonado por tecnologia, esse filho de um garçom e de uma dona de casa, nascido em Campina Grande (PB), carrega na própria história o retrato de uma geração de empreendedores brasileiros que aprenderam cedo a transformar dificuldade em combustível para inovar. Os pais de Nichollas se mudam para São Paulo quando ele tinha apenas três anos, em busca de oportunidade de trabalho e sobrevivência. E foi na maior cidade do país que aquele menino nordestino descobriu sua vocação para tecnologia, negócios e liderança.

Hoje, Marshell é CEO da Ideas Hub ICT, uma venture builder – e um instituto de ciência e tecnologia -, que reúne mais de 40 startups e se consolida como um dos polos de inovação mais promissores do Sul do Brasil, em Campo Mourão, no Paraná. Ao falar com a MENSCH, Nichollas Marshell revisita seu passado, carimba a importância da garra do nordestino que se destaca no mercado, analisa o presente da tecnologia e da inteligência artificial e aponta que, com todo avanço e inovação, nós precisamos valorizar sempre as relações pessoais: “O ser humano não pode delegar à máquina a sua felicidade. O amor, a família, os amigos vão ser sempre mais importantes que qualquer tela ou inteligência artificial.”   

Como foi sua infância em São Paulo e a descoberta da vocação para a tecnologia? Foi difícil, claro. Percebi cedo que eu não poderia só estudar, precisava ajudar em casa. Meu pai chegou em São Paulo vendendo o almoço para comprar o jantar. Fui camelô e, aos 13 anos, enquanto muitos adolescentes ainda pensavam apenas na escola, eu já pedia para trabalhar em uma pequena loja de informática chamada Inform, na Zona Sul da capital paulista, na Praça da Árvore, comandada por um comerciante japonês chamado João Kunitaki. Minha irmã mais velha trabalhava na loja. Depois de insistir muito, o João me deu oportunidade de limpar os computadores. Ali, permaneci dos 13 aos 18 anos, me apaixonei por tecnologia, aprendi a consertar impressoras, montar computadores, resolver problemas de clientes e, principalmente, entender a lógica da computação na prática.

Da loja de informática para a faculdade de administração. Como foi superar obstáculos, como a falta de dinheiro, nessa caminhada? Eu sempre trabalhei muito, muito, e criava estratégias para oferecer meus serviços na área de computadores nos finais de semana aos meus amigos para conseguir mais dinheiro. E quando vou para o curso de administração da Faculdade Impacta, recebo uma bolsa parcial. Minha trajetória é marcada por muito esforço e um pouco de sorte também.

Já no primeiro semestre da faculdade você se destaca e ganha um prêmio. Como foi isso? Sim. Eu estava muito empolgado. Apresentei um plano de negócios para um aplicativo de mobilidade urbana — algo muito à frente do que se discutia no mercado na época. O projeto antecipava modelos que anos depois seriam popularizados por plataformas como a 99tx e o próprio Uber. Enquanto meus colegas apresentavam trabalhos de 30 ou 40 páginas, o meu tinha 120 páginas e trazia: modelo de operação de frota, estrutura de receita, sistema de cobrança, projeções financeiras e curva de breakeven. O meu desempenho me levou ao programa executivo CEO do Futuro, iniciativa que reunia jovens talentos para formação intensiva com líderes de grandes corporações. Entre os mentores estavam executivos de multinacionais e personalidades como o piloto Emerson Fittipaldi.

Você chegou a trabalhar numa multinacional e largou a promissora carreira como executivo para empreender. Foi preciso coragem? Eu sempre soube o que queria da vida, e sempre soube que conquistaria com estudo e muito trabalho. O meu talento é o que me faz acreditar sempre em mim, mas, sem comprometimento e trabalho, não se chega a lugar algum. Eu ganhava bem na multinacional, mas não era feliz. Sabia que o topo da carreira seria ser CEO de uma empresa que não era minha. Eu precisava explorar minhas ideias, e empreender era uma vocação mais natural do que ser um trabalhador formal.

E como você se muda para Campo Mourão, no Paraná, e cria a Ideas Hub ICT? Ainda em São Paulo, tive a oportunidade de criar projetos bacanas como o Pare Azul, um aplicativo de estacionamento rotativo digital que facilita o pagamento de vagas, e que acabou sendo descontinuado. Passei uma temporada no Rio de Janeiro, e acabei chegando em Campo Mourão, por causa da facilidade de mão de obra muito qualificada para o meu projeto: a criação de um ecossistema de inovação fora dos grandes centros tradicionais. Me aproximei da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), celeiro de talentos em engenharia e tecnologia, e completo 10 anos, em 2026, da Ideas Hub, agora também  ICT. O que antes era apenas uma venture builder – um ambiente de desenvolvimento de startups focado em tecnologia, inteligência artificial e inovação aplicada a diferentes setores da economia- , desde 2025, é uma Instituição Científica e Tecnológica que amplia o alcance do ecossistema de inovação. Nós podemos certificar tecnologias e patentes; captar recursos públicos e privados; fomentar pesquisa científica aplicada ao mercado e conectar universidades, empresas e governo.

E hoje qual o tamanho da Ideas Hub ICT em termos de investimento e faturamento. E quais os planos para os próximos anos? Atualmente estamos com quase 50 empresas no Hub desenvolvendo centenas de projetos simultaneamente, meu papel como Presidente do Instituto de Ciência e Tecnologia é ajudar as empresas a criarem novos produtos, trabalhar a trilha de inovação delas e lançar esses produtos no mercado. Atendemos todos os segmentos empresariais e temos alguns clientes fora do Brasil. Hoje temos clientes globais como Bayer conosco, e entre outras frentes somos focados em trazer projetos internacionais ao Brasil, valorizando nossa mão de obra e conhecimento.

Mas mesmo longe, você nunca perdeu o contato com o nordeste. O que representa para você ser nordestino e filho de Campina Grande? Nossa, uma alegria imensa. Sempre que posso, vou ao nordeste e à Paraíba. Em 2025, desenvolvemos uma iniciativa que levou tecnologia a um dos maiores eventos populares do país: o São João de Campina Grande. Durante os festejos, um sistema de reconhecimento facial para controle de ingressos foi implementado para ampliar segurança e organização do evento, reforçando como a tecnologia pode modernizar grandes celebrações culturais. Fiquei muito feliz em poder contribuir para essa grande manifestação cultural. Minha história começa ali. Sempre que posso, procuro contribuir com a região que formou minha família.

A Inteligência Artificial (IA) domina o cenário tech da atualidade. Inclusive, tendo sido usada no recente bombardeio dos Estados Unidos ao Irã. É constante também o debate sobre a regulamentação das big techs. Para onde estamos indo, na sua opinião? Esse debate é necessário e importante. Não é possível dar as costas à IA e às big techs, que já são realidades no mundo todo. Governos e empresas precisam se adequar à essa realidade. A questão é como. O uso de IA para a guerra é um debate inevitável. Quando a Anthropic recusa ceder para a Casa Branca a liberação do uso irrestrito de seu sistema Claude para operações militares dos EUA, ela questiona até onde companhias de inteligência artificial devem colaborar com ações de guerra. O episódio ainda coloca em xeque os limites éticos das big techs, o papel da IA em conflitos armados e a dependência crescente de governos em sistemas algorítmicos para decisões letais. Importante ressaltar que a IA não tem “coração”, mas limites impostos por humanos; quando esses limites são tirados, o controle inexistente, corremos riscos, esses mesmos dados, por mais que governos acreditem estar protegidos, podem ser expostos. Na minha opinião, é inevitável o debate, porque, se a função da guerra é matar, e da IA automatizar e melhorar processos, a equação dessas duas coisas pode ser algo antes nunca visto.

Com o mundo cada vez mais conectado pela tecnologia, para onde vamos? Tem até gente namorando com IA. Ótima pergunta. A tecnologia precisa ser uma ferramenta que venha nos ajudar a viver melhor em sociedade, mas não um instrumento de afastamento. Não é a IA, o ser humano é que precisa continuar sendo o protagonista da sua história. Nós não vivemos numa ilha. Mesmo com todo mundo olhando pra baixo, para uma tela de celular, precisamos voltar o olhar para quem está do nosso lado; não perder de vista que as relações interpessoais – a família, os amigos – são as mais importantes quando bem vividas com amor, respeito ao próximo e menos ódio.