ais do que desenhos na pele a tatuagem traz alguma história para contar. Marcar o corpo é algo muito antigo e praticado por vários povos por razões diferentes, a arte pré-histórica apresenta indícios de corpos cobertos com desenhos. Na atualidade a tatuagem costuma ser vista mais como um adorno do que qualquer outra coisa, porém algumas religiões até proíbem esse ato justificando que é para manter a pureza do corpo, mas a marginalização está longe de ser como já foi um dia. Desde jovens (a partir dos 18 anos) a gente da boa idade, pais e profissionais de diversas áreas fazem tatuagem e por motivações distintas. Nosso entrevistado aqui da MENSCH, Carlinhos, como é conhecido, profissional da área há mais de 27 anos, começou muito cedo.

“Eu tinha uns 13 anos de idade e eu ouvi uma história que a galera fabricava sua própria máquina com motor de carrinho. Não foi uma ideia que surgiu do nada. Eles pegavam uma colher, dobra o cabo da colher pra trás para colocar a agulha amarrada com fita adesiva e criava uma máquina de tatuar. Na época já tinha uma tatuagem que eu mesmo fiz em mim com agulha e tinta de caneta. (risos) Fiz na sola do pé. Essa tatuagem apagou. Depois ficou aquela coisa, vou fazer uma tatuagem. Aí tinha um cara perto da escola, no bairro, daí gazeei aula e fui lá”. “Com dois, três anos de tatoo eu já estava cobrando pra fazer. Isso com 14, 15 anos… fui me tornando profissional e criando minhas técnicas. Meu padrão artístico era muito solto, não precisava de técnicas para ser bem representado. Era algo do sentimento”. Isso há 27 anos atrás onde não existia muito controle. Hoje ele mesmo se recusa a fazer uma tatoo em menor de idade pois acha muito cedo para a formação da pessoa em conjunto com suas ideias.

Segundo Carlinhos, por lei não se pode tatuar menor de idade nem com a autorização dos pais. “Eu vejo que a pessoa se condiciona a viver dentro de uma realidade formada”. “Na época que comecei não era algo clandestino, mas era ainda algo medieval. Já existia muito acesso a material bom. Não era fácil. Tinha muita coisa em São Paulo já. No Nordeste também as pessoas tinha a mania de segurar as informações. Se era um cara interessado em ser tatuador e chegasse no estúdio de um tatuador ele já se fechava. Já via como concorrente. Pra encontrar um cara para ser um padrinho era coisa rara. Tinha que ter uma amizade”. Segundo Carlinhos hoje em dia o panorama é outro, com três dias de curso já tem tatuador novo no mercado. Hoje tem cursos na internet que facilitam muito mas banalizam um pouco a cultura da tatuagem.

“Essa questão do estilo, isso existe há muito e muitos anos. Acho que está ligado muito ao ego da pessoa. Isso é uma leitura minha. Como eu vim de uma época que não existia referência, nós tínhamos que fazer tudo que o cliente queria. A gente ia aprendendo. Fazia legal um tribal, fazia legal um rosto… Eu estava dentro de todas fazendo tudo, sendo bem diversificado”. Segundo Carlinhos hoje em dia os tatuadores já estão nascendo com seu próprio estilo, o que fica mais fácil. Já tem um trabalho. “Se uma pessoa se dedica só a um estilo ele consegue rapidez e se especializar mais rápido”. No caso de Carlinhos ele percebe que isso facilita o entendimento do público com o estilo de cada tatuador. Já no caso dele que sempre foi diversificado em estilo, isso pode ser visto como algo bom mas ao mesmo tempo pesa pro negativo pois ele será julgado por todos os estilos e também concorre com todo mundo. Pelo que sentimos do público em geral quando fomo pesquisar para montar essa matéria é justamente isso que atrai tantas pessoas. O talento e a diversidade de Carlinhos que faz sua diferença. “Hoje em dia o cara se junta com mais dois ou três tatuadores de estilos diferentes e monta seu próprio estúdio. Trabalha o marketing digital dele. Não vai precisar de 27 anos para deslanchar e ganhar dinheiro. Com três anos ele já está pronto”, comenta Carlinhos.

SENTIMENTO E MEMÓRIA A FLOR DA PELE

O costume de se fazer uma tatuagem deixou os guetos e ganhou as ruas independente de classe social ou estilo de vida. O público mudou, a influência indireta da televisão, do esporte, da música… corpo bonito, onde aquelas pessoas que estão em lugar de destaque trouxeram sua expressão do sentimento delas. E isso fez o público se identificar. Segundo Carlinhos é ai que entra uma frase que ele leva para a vida, “a tatuagem é um ponto firmado na trama da memória pelo sentimento”. Frase essa que ele percebeu quando foi dar uma palestra numa escola de filosofia, onde ele foi questionado o que era a tatuagem no mundo espiritual. “A tatuagem espiritualmente falando é algo muito forte. Minha linha é muito espiritual, ligada com essa coisa energética, com essa coisa da cura espiritual. Eu vejo que a tatuagem por vários e vários momentos aqui no estúdio serve para tirar aquela memória arranhada delas e cobrir com uma outra memória que tenha um sentimento instalado nela. Quando você coloca sentimento você está ativando o acesso a criação, e o sentimento é o combustível que dá acesso à criação. Aí você para a trabalhar uma ideia baseado no querer daquela pessoa, e a partir desse movimento todo você dá início ao processo de criação”.

“Vamos firmando pontos, criando estruturas simbólicas que vão dar um suporte para a pessoa curar memórias negativas. Eu vou trabalhar intensamente nessa linha”, comenta Carlinhos. “A cura, Art Sapiens vem disso. Um amigo meu tinha uma escultura chamada sapiens e eu tinha um símbolo que também se chamava sapiens. E esse símbolo nasceu muito antes, através de um desenho que eu tenho, que é justamente essa linha de trabalho que eu quero voltar a fazer. Mas o que dá lastro para isso acontecer é a condição cerebral, a memória. E essa memória vem sendo representada através dos sistemas codificados do sentimento”, conclui Carlinhos.

E é seguindo o papo sobre espiritualidade e sentimentos guardados ao longo do tempo que vamos descobrindo o real diferencial desse cara cheio de histórias para contar. Das suas viagens pelo mundo, onde por exemplo ele chegou a tatuar em Bali, até o valor do convívio com a família, onde ele criou uma sala anexa ao estúdio para transformar em um “parquinho” para os filhos. Carlinhos vai se mostrando muito mais que um mero tatuador. Sua maquininha da tatuagem é uma extensão do seu espírito e um instrumento de expressão artística e sentimental.

PLANOS FUTUROS

“Eu no início comecei a tatuar por acaso, hoje em dia preciso casar as duas coisas, a parte comercial com essa parte espírita”. Para os planos futuros Carlinhos quer se empenhar mais no mundo digital, oferecendo cursos gratuitos na web, podcast, com dias e técnicas, mas ao mesmo tempo investir em novos talentos em uma espécie de “incubadora” de novos profissionais com técnicas diversas. Otimizar melhor o tempo e deixar a troca de ideias e sentimentos fluir. “Fazer de uma forma, organizada, sistemática e comercial”, conclui Carlinhos.

Afinal como transformar uma ideia em arte? É através da espiritualidade, do conhecimento e do tato para tornar isso viável. E é basicamente isso que resume o que Carlinhos nos apresenta através do seu traço. A maturidade que transformou esse amante da tatoo em um mestre holístico. Ao final de tudo percebemos o que faz Carlinhos ter tantos amigos, não meros clientes. A tatuagem antes de tudo é uma ligação entre pessoas. Agora vamos lá fazer uma tatoo par celebrar esse encontro.