Por Augusto Branco

Com 25 anos de experiência, o premiado produtor Frederico Lapenda construiu uma carreira global em todas as áreas da indústria do entretenimento. Como cineasta, ele produziu mais de 30 filmes e documentários. Seu documentário, Sequestro, foi elegível a uma nomeação ao Oscar.

Lapenda foi o sócio fundador da Mandalay Lone Runner, divisão independente da Mandalay, uma empresa presidida por Peter Guber, ex-CEO da Sony Pictures. Mandalay produziu Sete anos no Tibet, com Brad Pitt, Amor sem Fronteiras, com Angelina Jolie, Donny Brasco com Johnnie Depp e outros. Lapenda também produziu dois videogames com XBox, Fight Game Rivals e com Sony Ericsson, Fight Game Heroes.

Aclamado por várias revistas do setor como um dos pioneiros do MMA, Lapenda produziu mais de 100 lutas de MMA em países como EUA, Japão, Rússia, Ucrânia, Israel, Brasil, etc. Seu programa de TV no Canal 22 COMBAT MORTALE ficou no ar por mais de 3 anos consecutivos em Los Angeles, alcançando altas classificações e elevando Lapenda como o primeiro produtor a transmitir ao vivo no MMA dos Estados Unidos. Ele foi o quarto produtor a transmitir sua franquia WVC lutas em pay-per-view nos EUA, introduzido no Brasil em 1997, e em maio de 2011 produziu o primeiro pay-per-view no YouTube, que foi transmitido ao vivo de Moscou.

No mundo da música, Lapenda produziu vários shows internacionais no Brasil e sua última coprodução foi na cidade de Americana em parceria com a Brahma tendo como atração o cantor country Alan Jackson, que cantou para um público de 45 mil pessoas. Lapenda é co-autor do último livro escrito por Stan Lee, Aliados da Amazônia, cujo projeto inclui ainda animação, games, e até um parque temático. Presidente do Beverly Hills Film Festival desde o ano de 2017, e assim como Pelé anos atras, o cineasta foi nomeado Embaixador do Turismo Brasileiro pelo Ministro Gilson Machado e traz um legado de experiência que pretende compartilhar com o Brasil, sua pátria natal.

Meu querido amigo Frederico Lapenda, é sempre um prazer e uma honra te entrevistar. Você teve seu nome cimentado na calcada da fama junto aos de grandes astros holywoodianos, teve filmes premiados, medalhas, homenagens, até mesmo a presidência do Festival de Cinema de Beverly Hills, e co-autoria com o rei do box office americano.  Uma jornada longa e imagino cheia de obstáculos. Como você conseguiu chegar a esse ponto? Quais foram teus maiores desafios? O prazer e a honra são meus, grande poeta. As coisas que eu fiz que me ajudaram a realizar este sonho foram me mudar para Hollywood, me preparar academicamente, e focar 1.000% no meu objetivo. Os maiores desafios foram abrir mão da minha vida no Brasil, me manter focado quando as coisas não aconteciam da forma que eu queria, e não deixar que as pessoas que se aproximavam de mim e diziam que eu não iria conseguir terem impacto sobre o meu espírito.

E no mundo do MMA quais foram tuas conquistas mais marcantes? Por ordem cronológica seria quando meu atleta, Marco Ruas, ganhou o UFC 7. Hoje ter como parte do meu legado o fato que eu introduzi o primeiro lutador completo no circuito de lutas me orgulha muito. Ter levado Vitor Belfort para os EUA e aberto uma academia com ele, quando ele tinha apenas 16 anos, e dois anos depois ele se tornava o campeão mais jovem do UFC, para mim foi uma grande vitória, fortificou meu espirito e me ensinou a confiar nos meus instintos.  Ter criado meu evento de MMA aos 27 anos de idade, o World Vale Tudo Championship (WVC), e a grande cereja do bolo foi o fato do evento ter sido no berço das artes marciais, o Japão. Muita gente falou que eu não ia conseguir, que iam me matar no Japão, mas graças a Deus realizei o evento numa arena muito famosa, o NK Hall Bay, casa lotada com 5 mil pessoas, e o evento foi veiculado em vários países do mundo. Acho que este foi o maior momento da minha carreira até hoje. Lembro que quando levantei da minha cadeira e subi no ringue com o microfone para fazer o discurso de abertura, eu estava tão nervoso que esqueci o nome do meu próprio evento, a sorte é que tinha uma placa enorme com o nome World Vale Tudo Championship e eu pude ler. (risos) Como Deus foi generoso comigo, em apenas 9 anos de América, eu já era um produtor de televisão internacional batizado no Japão. Sempre digo que quando é pra dar certo, até quem tenta atrapalhar ajuda.

Quais foram as tuas experiências mais marcantes no cinema? No cinema eu tive a bênção de realizar tantas conquistas, que fica difícil numerá-las, mas a primeira que me vem à mente foi a de comprar um roteiro por 1 dólar, e poucos meses depois levantar 15 milhões para produzir esse roteiro com um elenco top. Trata-se do filme Blonde & Blonder, que produzi ao lado de um dos diretores mais famosos da comédia americana, Bob Clark, da série de filmes Porkys. O filme tinha no elenco a atriz Pamela Anderson, que era uma mega sex simbol de um dos seriados de TV mais famosos no mundo, S.O.S Malibu, e Denise Richards, que estava recém divorciada do ator Charlie Sheen durante a produção do filme. Foi uma verdadeira loucura de paparazzi seguindo a produção, pendurados em árvores, etc. Denise foi uma Bond Girl da série de filmes 007. Como produtor, ter um bando de paparazzi sempre em cima do seu filme, e ter a oportunidade de estar num set de filmagem com um elenco tão talentoso, é uma experiência realmente eletrizante. Foram dias maravilhosos na bela Vancouver que serviram de combustível.  Ter produzido um filme em um porta aviões americanos também foi uma experiência ímpar. Entrar naquele monstro e filmar na cabine de controle daquela máquina que já foi pra tantas missões e representa tanta força… Conhecer e colaborar em um obra com o gênio do Stan Lee… Quando eu era garoto o Homem Aranha era meu super herói favorito; passaram os anos e ali estava eu, desenvolvendo um projeto junto ao gênio.

Quando você migrou nos anos 80, como era a imagem do Brasil nos EUA? Quando migrei para os Estados Unidos há 34 anos, algumas pessoas não sabiam nem qual idioma era falado no Brasil, e graças a um trabalho de base que muitos brasileiros vêm fazendo, como pilotos de fórmula 1, jogadores de futebol, lutadores de MMA, Top Models; hoje, muita gente sabe quem nós somos, e ser brasileiro é um status. Qualquer estrangeiro que já visitou o Brasil sabe que vivemos melhor, que temos muito calor humano, uma paixão pela vida, uma geografia abençoada, e um estilo de vida maravilhoso.

Você sempre manteve seu coração no Brasil, tanto que foi nomeado Embaixador do Turismo Brasileiro. Afinal, o que você acha que deve ser feito para tornar o Brasil um destino mais atraente? Aceitei essa honra de ser Embaixador do meu país por ser um cargo não remunerado e por já promover o Brasil a mais de 25 anos.  Comecei a minha carreira de entretenimento produzindo lutas de MMA para a televisão. E a maioria dos bons lutadores de MMA são brasileiros, então fui agraciado de começar a minha carreira imediatamente promovendo o Brasil e brasileiros, já que algumas das lutas que promovi foram no Brasil. Eu sempre fiz questão de pendurar a bandeira brasileira em cima do ringue; Além disso, eu já trouxe muitas pessoas famosas e formadoras de opinião para o Brasil; vencedores de Oscar, como John Daly (Platoon, O Último Imperador), vários atores como Billy Zane (Titanic, Fantasma), cantores super populares, como Alan Jackson; e às vezes as pessoas têm receio de vir ao Brasil por causa de algumas histórias negativas que ouvem de nosso país; porém, depois que conhecem nosso país, ficam maravilhadas, e falam para todas as pessoas como o Brasil é um país fantástico. Estamos no meio de uma pandemia que fez o mundo parar, mas se as coisas estivessem em ordem e em velocidade de cruzeiro, para tornar o Brasil mais atraente, eu criaria um fundo para co-produção de filmes internacionais.  Esse modelo gera empregos, promove nossa cultura, o turismo e traz um retorno financeiro imenso para o país.

Então você considera que o fomento à indústria cinematográfica pode levar o Brasil a um outro patamar na área turística. Como isso funciona, exatamente? Filmes e seriados de televisão são muito positivos para um país. Ganha a cultura, o turismo e a economia. Em alguns caso a educação e tecnologia também. Há um estudo socioeconômico que aponta que cada 1 dólar investido num filme se transforma em 7 dólares injetados na economia local. Por isso, estados como Lousiana e Nova York, oferecem esse patrocínio para as produções cinematográficas. Este é um investimento tão positivo que outros países e estados estão tentando atrair as produções americanas, como o Canadá, que também patrocina 30% do orçamento das produções, e o estado de Porto Rico, que patrocina até 40% para um produtor que levar um filme a ser produzido naquele país, pois o impacto econômico disso é muito grande. Senão, vejamos o exemplo da Nova Zelândia, aonde foram feitas as filmagens da trilogia ‘O Senhor dos Anéis’, que mesmo após 20 anos continua recebendo turistas que querem conhecer os lugares aonde foram feitas as filmagens, e o turismo da Nova Zelândia hoje gira muito em torno disto.

E só pra citar outro caso, temos também a praia de Maya Bay, na Tailândia, aonde foi produzido o filme ‘A Praia’, com Leonardo Di Caprio. Após este filme, foi registrado aumento de mais de 2.000% no número de turistas visitando a Tailândia, que agora recebe mais de 35 milhões de visitantes por ano. É possível causar efeito semelhante em vários lugares do Brasil. Claro que isso deve ser feito depois da pandemia e quando as coisas estiverem em ordem.  Eu considero que o modelo de negócio excelente para aplicar no Brasil seria que os Estados oferecessem 50% de investimento em forma de sociedade em produções internacionais, uma vez que esse investimento traz retorno e dividendos de forma perene para uma região.

Digamos que os Estados e Municípios brasileiros passassem a investir na indústria cinematográfica, para você quais seriam os critérios para produzir esses filmes? Temáticas comerciais. É preciso apresentar algo que seja universal, que tenha penetração em vários mercados, e que mostre o Brasil de forma positiva, que desperte em quem assiste o filme o sonho e o desejo de visitar o Brasil. Algo embalado em romance e aventura sempre é bem aceito pelo público. Acredito fortemente que o melhor investimento que um lugar pode fazer para atrair mais turistas e desenvolver uma região é produzir um filme memorável, imortal.

Nesta sua visão de desenvolvimento socioeconômico através da indústria cinematográfica, considere que você tem um cheque em branco para fazer 03 filmes ambientados no Brasil. Quais filmes você faria? O primeiro seria de Recife para Manhattan, a história dos judeus que saíram de Recife pra formar Nova York no início do século XVII, pela relevância no cenário internacional; Esse acontecimento, em minha opinião, de tudo que aconteceu no Brasil, é o que geraria mais interesse na academia de Motion Pictures, que vota para o Oscar.

O segundo seria a história de quando Orson Welles veio ao Rio de Janeiro, enviado por Rockfeller e pelo presidente Roosevelt para espionar o presidente Getúlio Vargas durante a segunda guerra mundial. Já o terceiro seria mostrando o litoral do nordeste. Seria uma caça ao tesouro a la Indiana Jones, para mostrar todo nosso litoral de uma forma atraente, realmente comercial. Falei de 03 filmes, mas se eu tivesse esse cheque em branco, eu gostaria de fazer um filme sobre a Amazônia, que tem uma beleza natural fantástica, um folclore riquíssimo. Então eu acho que tem que ter algo feito em Parintins, por exemplo, onde é realizado aquele festival folclórico com os bois bumbás. Esse é o tipo de coisa que o turista gosta de conhecer.

Você co-criou um livro em parceria com Stan Lee chamado ‘Aliados da Amazônia’, que foi lançado recentemente. Podemos esperar desdobramentos a partir deste livro? Quando criei este projeto, eu vislumbrei o quão importante um produto deste tipo é para o Brasil e para o mundo. Há alguns anos, as escolas fizeram uma campanha muito eficiente com as crianças contra o cigarro, e por conta disso as crianças se tornaram fiscais dos pais, pedindo que eles parassem de fumar. Então eu pensei em fazer um livro que despertasse a consciência ambiental nas crianças, pois assim elas se tornam fiscais dos pais, crescem com consciência ambiental, e depois educam seus filhos com esta consciência também. Então eu vejo que os Aliados da Amazônia tem essa capacidade de formar cidadãos com consciência ambiental desde criança. Já quanto a mais desdobramentos a partir desta obra, ainda na hipótese do ‘se eu tivesse um cheque em branco’, eu transformaria o Aliados da Amazônia numa animação semelhante ao Rei Leão, e a partir disto poderia criar um Parque Temático na região amazônica, ou uma atração baseada nos Aliados da Amazônia na Disney. Se você analisar bem, a Amazônia é um dos destinos mais fáceis para explorar o turismo no Brasil, pois está mais próximo de grandes mercados como os Estados Unidos e China, e não requer grandes investimentos em estrutura, pois o tipo de turista que vem conhecer a Amazônia não está em busca do luxo e do conforto dos centros urbanos. É um tipo de turismo mais rústico, baseado em aventura e na natureza. Apenas há de se ter o cuidado de utilizar o retorno financeiro do turismo para investir em iniciativas que promovam o desenvolvimento sustentável da região.

Sua jornada serve como inspiração para nosso jovens, pois mostra que querer é poder.  Quando me aprofundo na internet sobre suas realizações é realmente incrível o quanto realizou e viveu em tão pouco tempo. Sei que com isso há um grande aprendizado. Qual lição foi mais importante pra você até agora? A importância do autoconhecimento. O autoconhecimenoto nos leva à luz, e na luz acaba o sofrimento. Sem isso o homem sofre e não saboreia a vida verdadeiramente. A jornada da vida é desafiadora e as conquistas lhe trazem uma satisfação momentânea, mas logo passa.  E se a pessoa não entender porque está buscando aquilo, passa o resto da vida com esse vazio. O autoconhecimento lhe deixa viver no presente, o que é um dos maiores desafios para o homem moderno. As pessoas vivem o hoje pensando no amanhã. O fato é que a jornada é muito mais gostosa do que a entrega. Para mim essa foi a lição.

Lapenda, eu tenho conhecimento de tua trajetória desde a juventude até os dias atuais, e tua história é muito inspiradora para as novas gerações. Afinal, quando é que vamos ter um filme sobre a trajetória de Frederico Lapenda? Acho que ainda tenho muito chão pela frente. Minha história ainda não dá pra fazer um filme (risos).