CAPA: NIKOLAS ANTUNES MOSTRA SUA VERSATILIDADE EM DONA BEJA

Entre a moda e a atuação, Nikolas Antunes escolheu seguir aquilo que fazia mais sentido para sua essência. Ainda muito jovem, recusou uma promissora oportunidade internacional nas passarelas para apostar no teatro, caminho que acabaria definindo toda a sua trajetória artística. Desde então, construiu uma carreira sólida e marcada por personagens intensos, transitando com naturalidade entre novelas, séries e produções de streaming, sempre guiado por um olhar profundo sobre o comportamento humano e pela busca constante por autenticidade em cena. Da estreia na televisão em Duas Caras até trabalhos mais recentes e densos como Desalma e Dona Beja, Nikolas acumula experiências que ajudaram a lapidar um estilo de atuação visceral, construído a partir da observação, do estudo e da entrega total aos personagens. Nesta entrevista exclusiva para a MENSCH, Nikolas fala sobre escolhas decisivas, os bastidores da profissão, a construção de papéis complexos e a forma como enxerga sua evolução artística ao longo dos anos.

Você começou muito jovem na moda. O que te motivou, aos 17 anos, a recusar o convite da Ford Models na Itália para investir no teatro? Comecei na moda muito jovem, tentando entender para onde ir, mas sempre soube que meu coração estava na atuação. Além de gostar muito de estudar, eu, na verdade, sou um pouco tímido. Então, tenho facilidade em transitar dentro do personagem, tudo fica mais fácil para mim quando estou dentro da composição. Foi uma decisão bastante simples mudar de carreira.

Em que momento você percebeu que a atuação não seria apenas uma transição, mas o centro da sua carreira? A atuação se tornou o centro da minha carreira quando consegui me sustentar sendo ator. Até então, eu sobrevivia com jornada dupla, sempre fazendo bicos ou serviços pra complementar minha renda. Quando eu percebi que eu poderia mergulhar no universo de contar histórias e ainda ter uma vida boa com isso, eu larguei todo o resto.

Sua estreia na televisão aconteceu em Duas Caras. Como foi esse primeiro contato com o set e o que mais te marcou naquela experiência? Minha estreia em Duas Caras foi ótima, contracenar com a Alinne Moraes fazendo aquela personagem foi muito interessante. A energia do set e a camaradagem entre a equipe fez muito sentido pra mim. Foi uma experiência de aprendizado intenso e o que eu mais me lembro é de ficar olhando para as coisas fascinado pelo que eu estava vendo.

Ao longo dos anos, como sua formação teatral contribuiu para a construção dos seus personagens na TV e no streaming? Minha formação teatral foi crucial para a construção dos meus personagens. Aprendi a trabalhar a profundidade emocional e a construir camadas que tornam as performances mais autênticas. É no teatro que você entende que é possível transpor os limites da realidade e fazer coisas absurdas dentro da personagem, e ainda assim ser verdadeiro. Isso pra mim é o centro da questão.

Em Desalma, você integrou uma narrativa densa e atmosférica. O que essa experiência agregou ao seu repertório como ator? Desalma foi uma experiência transformadora e muito interessante. Você não sabe direito o quanto um universo bem construído pode contribuir na sua jornada dentro da história até viver isso. Em Desalma, eu vivi isso, um mergulho no absurdo! A narrativa densa me levou pra realidade paralela do projeto automaticamente. Roman está aqui guardado comigo com muito carinho.

Seu personagem Valdo em Dona Beja tem chamado atenção. Como foi o processo de construção desse papel? O Valdo foi um desafio incrível. O processo envolveu pesquisa e entendimento do contexto histórico e social do personagem. Busquei trazer autenticidade e complexidade a ele, do jeito de andar ao traquejo do palavreado. Valdo está sempre gargalhando nas cenas, quando descobri isso, eu fiquei muito feliz. Mas depois vem a curva, e, pra entender o que é isso, tem que assistir.

O que te atrai em personagens mais complexos ou ambíguos como o Valdo? Eu gosto de explorar limites. Na vida, existem pessoas e personagens que você só acredita que de fato existem quando você vê ao vivo, isso se você for atento. Meu laboratório é o mundo, eu estou sempre olhando para as coisas e para as pessoas com uma lupa nos olhos. 

Você enxerga diferenças significativas entre atuar em novelas tradicionais e em produções para streaming? Não vejo nada que interfira no trabalho do ator. Eu sou um ator de processo e 50% do meu trabalho é feito dentro de casa, então, quando eu chego pra gravar, é só pra dar vida ao meu rascunho. Às vezes, sai tudo diferente do planejado e eu adoro quando isso acontece, mas não tem nada a ver com o fato de ser TV aberta ou streaming.

Ao olhar para sua trajetória, existe alguma escolha que você faria diferente ou tudo contribuiu para o artista que você é hoje? Não existe escolha diferente do que passou e você não tem como deixar de ser o que você é. Não acredito em mudanças, eu acredito em aperfeiçoamento. Tudo o que vivi baseado nas minhas reações me tornaram a pessoa que eu sou hoje, e eu sou grato a tudo. Vou seguir a minha trajetória me aperfeiçoando e tentando me tornar uma pessoa melhor.

Como você equilibra a entrega emocional dos personagens com a sua vida pessoal fora das telas? Como cada um lida com isso, é uma coisa extremamente pessoal, mas o que é comum, é que quanto mais fundo você vai no personagem, mais o seu corpo e o seu espírito sentem como verdade na sua vida pessoal. Eu sou um praticante de esportes e a exaustão me ajuda muito. Eu busco a exaustão até esvaziar a minha cabeça e o meu corpo e volto pra casa como se nada tivesse acontecido.

Quais são os próximos desafios ou tipos de papel que você ainda deseja explorar na sua carreira? Eu costumo dizer que o personagem escolhe o ator e eu não sei quem está de olho em mim (risos). Acabei de rodar um filme agora, mas ainda não posso dar muitos detalhes. Eu sou muito dedicado ao meu ofício, então, quero sempre estar em movimento, produzindo. Eu faço o que eu gosto. E espero sempre poder me surpreender a cada trabalho, descobrir novas possibilidades, novas camadas e lugares. Prefiro não me limitar a um tipo específico de papel, mas estar aberto as possibilidades e me surpreender com os personagens que chegam.

Fotos Nanda Araújo

Prod executiva e styling Samantha Szczerb 

Agradecimentos: Ângelo Bertoni e Democrata