
O avanço das discussões sobre a possível redução da jornada de trabalho no Brasil, incluindo o fim da escala 6×1, volta ao centro do debate em 2026 e já acende um alerta no setor produtivo. Especialistas apontam que, apesar do apelo social da proposta, os impactos financeiros e jurídicos podem ser significativos, principalmente para pequenas e médias empresas.
Na prática, a redução da carga horária sem corte proporcional de salários tende a elevar o custo da hora trabalhada. Para o contador e especialista em gestão financeira William Almeida, o efeito é imediato.
“Se a empresa mantém o mesmo salário por menos horas trabalhadas, o custo unitário da operação sobe automaticamente. A partir daí, o empresário precisa escolher entre contratar mais pessoas, reduzir a produção ou repassar esse custo ao consumidor”, explica.

Atualmente, a Consolidação das Leis do Trabalho estabelece jornada padrão de até 44 horas semanais. Qualquer mudança nesse modelo exigiria uma reestruturação operacional em diversos setores da economia.
Segundo William, o maior impacto tende a recair sobre pequenas e médias empresas, que operam com margens mais apertadas e menor capacidade de absorver custos.
“O pequeno empresário é responsável por grande parte da geração de empregos no país, mas também é quem mais sente oscilações de custo. O desafio não é só financeiro, é estrutural. Nem todos estão preparados para adaptar escala, equipe e operação rapidamente.”

No campo jurídico, o advogado empresarial Eduardo Araújo afirma que uma eventual mudança sem transição clara pode aumentar a insegurança e o risco de passivos trabalhistas.
Entre os principais pontos de atenção estão acordos coletivos em escalas especiais, como 12×36 e 24×72, comuns em áreas como saúde, segurança e transporte. A alteração pode impactar contratos já firmados e exigir revisões rápidas, abrindo espaço para disputas judiciais.
Outro ponto sensível envolve trabalhadores com remuneração variável, como comissionistas e profissionais com adicionais vinculados ao tempo de trabalho. Nesse caso, a mudança pode gerar discussões sobre diferenças salariais e reflexos em férias, FGTS e décimo terceiro.
Para William Almeida, o impacto não será uniforme entre os setores.

“O setor de serviços ainda tem alguma margem para renegociar contratos e ajustar preços. Já o comércio sofre mais, porque está diretamente exposto ao consumidor e à concorrência. Nem sempre é possível repassar custo sem perder vendas.”
Especialistas avaliam que o debate sobre a redução da jornada precisa vir acompanhado de planejamento técnico, jurídico e financeiro para evitar efeitos colaterais no mercado de trabalho, como aumento de demissões, perda de margem e crescimento da informalidade.
“Não se trata apenas de reduzir horas. É uma mudança estrutural que exige revisão de contratos, escalas, custos e estratégia de operação”, conclui Eduardo Araujo.


