
Angolana de Lunda Norte, radicada no Brasil desde os 12 anos, filha de mãe angolana e pai brasileiro, Heloisa Jorge construiu carreira sólida no teatro, no cinema e na televisão. Protagonizou o musical Dona Ivone Lara e integrou elencos de peças como ‘Nossa História com Chico Buarque’Amêsa, Race e O Jornal The Rolling Stone. Já na TV, Heloisa se destacou em novelas da Globo como Mar do Sertão, Liberdade Liberdade, Gabriela, e A Dona do Pedaço, além das duas primeiras temporadas da série Sob Pressão. No streaming, esteve nas séries Sentença e Jogo da Corrupção (Prime Video), How to be a Carioca (Star+) e Fim (Globoplay). Em seu trabalho mais recente Heloisa dá vida à bióloga Carol na série Vermelho Sangue, Globoplay. Entre Angola e Brasil, sua vida em Salvador e sua ressignificação da sua própria história, Heloisa nos conta de tudo um pouco nesta entrevista exclusiva.
Já no Brasil você morou em Salvador, local onde você encontrou sua ancestralidade e se descobriu como mulher negra e forte. O que a Bahia fez por você nesse período da sua vida? O quanto significativo foi ter ido morar lá? Salvador tem um lugar muito importante na minha trajetória e foi o meu lar por 10 anos, dos 18 aos 28 anos de idade. Essa cidade me ensinou muito sobre mim mesma, contribuiu bastante na ressignificação da minha própria história; Salvador fez com que eu enxergasse beleza em mim mesma e me ajudou a reconhecer o meu valor. Quando eu cheguei na cidade, eu convivia com um sentimento de inadequação muito grande e junto a isso estava vivendo um luto, fazia muito pouco tempo que a minha mãe tinha falecido, cheguei muito frágil. A minha mudança para a Bahia significou o reencontro com a minha ancestralidade e marcou o meu encontro com a arte como forma de vida.

E como foi voltar para sua terra natal como protagonista na novela angolana Jikulumessu? Foi uma das experiências que mais me ensinou como atriz. Fazer a Djamila (minha personagem) me deu a chance de entender muito mais sobre essa engrenagem chamada audiovisual. Eu tinha um volume grande de cenas sendo gravadas diariamente, estudei e me preparei muito para encarar essa responsabilidade de frente, porque eles depositaram muita confiança no meu trabalho. Jikulumessu veio logo em seguida de um superssucesso em Angola, que foi a novela Windeck, então existia uma expectativa grande do público e do mercado também. Eu tive muita sorte, porque estava cercada por time de profissionais angolanos e portugueses que me receberam com muito carinho e respeito, mesmo sabendo da minha imaturidade profissional. Eu não tinha tanto repertório, em se tratando de televisão, tinha me experimentado pouco nessa linguagem – a minha primeira novela aqui no Brasil tinha sido o remake Gabriela, do Walcyr Carrasco. Então, Jikulumessu foi importantíssima no meu desenvolvimento como atriz e, além disso, foi bastante simbólico que este trabalho tenha sido realizado na minha terra natal, um sonho que eu jamais sonhei viver no início da minha carreira.
Aliás, voltando um pouco no início como atriz… você saiu de Salvador para o Rio de Janeiro onde viu sua carreira deslanchar e vieram novelas e séries na sequência. Quando descobriu que estava fazendo o que queria onde queria estar? Em Salvador, onde morei por 10 anos, eu já sabia que eu estava numa profissão que fazia muito sentido para mim, porque era exatamente assim que eu me sentia quando estava no palco fazendo teatro. Foi o teatro que me apresentou ao Rio de Janeiro… o meu primeiro trabalho na cidade foi no espetáculo “Race”, um texto brilhante do David Mamet com direção do Gustavo Paso; ficamos em cartaz no Teatro Poeirinha em Botafogo e depois circulamos bastante com a peça pelo interior do estado do Rio e por São Paulo. Então, eu me sinto muito confortável em dizer que foi o teatro que me conduziu para o audiovisual e que hoje as duas linguagens coexistem na minha vida de um jeito que eu gosto muito.

Ao longo da sua carreira você já interpretou diferentes papéis. Sente uma mudança de postura em relação aos papéis direcionados para atores negros? Acha que ainda existe um estereótipo? Realmente sente esse protagonismo negro atualmente? Sinto que os personagens negros ainda não são tridimensionais e diversos como deveriam ser, como somos, porque infelizmente quem os escreve não tem a experiência de vivências pretas diversas. Ainda que existam cada vez mais pessoas pretas nas salas de roteiro, o poder de decisão, em sua maioria, ainda está nas mãos de pessoas não pretas que inevitavelmente reproduzirão o que está no inconsciente coletivo sobre os estereótipos já bem conhecidos, quando se fala em retratar histórias de pessoas pretas.
Um dos papéis de maior destaque talvez seja a pastora Dagmar, em Mar do Sertão, que batia de frente com o padre refletindo bem essa intolerância religiosa que vemos muito presente hoje em dia. Como foi para você criar a Dagmar? Que importância teve para você? “Mar do Sertão” foi uma novela com uma popularidade muito grande e também um produto muito bem cuidado, que flertava com o teatro; foi um sonho fazer parte daquele elenco, aquela foi uma das equipes mais amorosas com quem já trabalhei na televisão, e o Alan Fiterman é o grande responsável por isso. A minha personagem entrou na metade da novela e foi crescendo aos pouquinhos, acho que foi a primeira vez que falaram comigo nas ruas sobre um personagem meu que estava no ar. A Dagmar era muito linda mesmo, a trama dela com a filha Lorena (Mariana Sena) emocionou o público de um jeito surpreendente. Além disso as discussões que a personagem propunha eram muitos pertinentes, porque ela tocava em assuntos difíceis com muita doçura e uma compreensão rara de se ver; nós vivemos em um país que polariza os assuntos e a Dagmar, ecumenicamente falando, chamava a todos para uma conversa inclusiva, progressista; lembro que na época fiquei obcecada pelo Pastor Henrique Vieira, lia e via todas as entrevistas dele e sentia que a forma dele pensar o mundo, a serenidade, a polidez dialogavam muito com o que eu imaginava da Dagmar. Ele foi uma grande inspiração para a construção da minha personagem.

E seu personagem atual é uma cientista que tem uma filha que vira lobo em Vermelho Sangue. Como é trafegar por esse universo fantástico com o pé na ciência? Foi divertidíssimo e igualmente desafiador fazer a Carol, porque é uma personagem cética, prática, aterrada, obstinada; ao mesmo, uma mulher que lida com o sobrenatural, com o fantástico, com um universo mágico. Essas duas naturezas aparentemente opostas faziam parte do universo da personagem e isso era o grande barato. Eu me divertia muito vendo os meus colegas caracterizados com unhas gigantes, dentes de vampiro, pêlos pelo corpo, maquiagens incríveis, via de perto traquitanas de sangue, efeitos, coreografias de lutas, de voos… eu me sentia fazendo teatro no audiovisual sendo a Carol.
Como foi sua preparação para essa personagem? Preparada para uma nova temporada? Estou muito animada para assistir a segunda temporada e ver como será a reação do público. A nossa preparação foi conduzida pela Cris Moura que tem um trabalho fantástico e tratou de colocar todos nós na mesma página quanto à linguagem da série e nos provocava a todo momento a ir na contramão do que se esperava dos personagens. Tivemos semanas intensas de integração de todo o elenco e como eu fazia uma cientista, tive aulas para aprender a manusear material laboratorial: tubos de ensaios, seringas, material de segurança, aprender os nomes técnicos dos equipamentos, para que serviam e etc. Além disso, eu me lembrei da cientista baiana Jaqueline Góes, responsável por decodificar o genoma do Covid, uma figura importantíssima para a história da Ciência no Brasil, que me serviu de grande inspiração para fazer a Carol. Passei a ler a pesquisa dela e a observar como ela falava sobre genética de maneira apaixonada, assertiva; uma mulher preta cientista ocupando um posto de liderança.

Como atriz quando é que você se sente mais desafiada? E o que você deseja passar através da dramaturgia? Me sinto desafiada contando histórias complexas e surpreendentes ou quando as personagens são muito distantes de mim. Acredito que a dramaturgia é também uma ferramenta muito poderosa de desconstrução de estereótipos que estão há muito tempo no imaginário coletivo do público brasileiro. Eu tenho desejado e escolhido personagens que em alguma medida contribuam para esse processo de desconstrução.
Como lida com a vaidade, como mulher e atriz? Eu adoro cuidar de mim, tenho rituais de autocuidado muito simples e eficazes, porque vejo o resultado sendo refletido na minha saúde mental e na forma como lido com o meu trabalho também. Eu medito, pratico atividade física diariamente e não vejo esse hábito como punição porque comi isso ou aquilo. Escolho me alimentar bem sempre que posso, faço terapia, cuido da minha pele e cada vez mais tenho gostado do que vejo quando me olho no espelho aos 41 anos. Quando não estou trabalhando, opto por usar pouquíssima ou nenhuma maquiagem, porque me sinto mais bonita ainda quando estou de cara limpa.

Quais os planos pra daqui pra frente? Quero continuar tendo curiosidade pela vida, mesmo nos dias menos esperançosos, mesmo com as adversidades todas. Desejo crescer e me desenvolver cada vez mais como atriz e quero ter cada vez mais saúde financeira para dizer mais “Nãos” a projetos que não fazem sentido para mim. Quero também concretizar em breve o desejo de dirigir projetos meus.
Para conquistar Heloísa basta… Ter autenticidade, não estar em busca de validação, ter senso de humor e me fazer gargalhar alto.

Fotos Maria Magalhães @maga.maju
Styling Jessica Kelly @jessicakelly____
Beleza Gabriel Ramos @gabrielramos6
Cabelo Pablo Dutra @dutrastrancahair


