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Bisneta de cineasta e avós artista, não tinha muito pra onde fugir, Renata Ricci queria ser artista e brilhar nos palco já aos 5 anos de idade. Tanto que anos depois terminou largando a faculdade de arquitetura para ir atrás do seu desejo maior. E foi nos palcos do teatro musical que Renata se encontrou. Fez diversos espetáculos e daí para a TV foi um pulinho. Fez diversas personagens no Zorra Total, participações em outros programas. Mas é no teatro onde ela pode se soltar, cantar, dançar e dar vida a diversas personagens. Dentre elas, mulheres dos anos 50, num estilo meio pin-up moderna, e energeticamente também marcantes. E uma delas, claro, você já viu na capa, Marilyn Monroe. “Me joguei nesta mudança brusca para me experimentar de outras maneiras. E, juntamente com o maquiador Daniel Wagner, eu e o Rodrigo formamos este time que queria homenagear esta mulher incrível”, declarou Renata ao longo da entrevista. E realmente o resultado ficou incrível. Um clássico de Marilyn recriado com perfeição.  

Atriz, cantora e bailarina. De onde vem tanto talento? Alguma influência ou referência nisso tudo? Na minha família, sempre tive acesso a arte popular de maneira muito natural. De um lado, meu bisavô era cineasta. Filipe Ricci. Na época áurea do cinema nacional, no século passado. Acho o máximo que eu e ele estamos no IMDB, que é um site com informações de pessoas ligadas ao áudio visual mundial. Acho chique estar lá ao lado de meu bisavô (risos). Profissionalmente, ele era a única pessoa envolvida com arte. Já como hobby, um avô era desenhista, o outro cantor, e minha avó, que dança até hoje, em seus 90 anos, me levava, desde pequena, para tudo ligado a esta arte. Não tinha como fugir (risos). Lembro de ter conversas sérias com meu pai, aos 5 anos de idade, dizendo que queria ser atriz, cantora e bailarina. Mas acho que meus pais não terem se oposto às minhas decisões em relação a virar artista tem um peso muito importante em continuar na área até hoje.

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Não tinha jeito, a arte está na veia e não tem como fugir né isso? O que te move nisso tudo? Exatamente: Não tinha jeito! (risos) Foi melhor eu aceitar logo e largura a faculdade de arquitetura para investir pesado, e minha família teve que aceitar também (risos). Mas o que me move, mesmo, é a paixão e o amor profundo que tenho pela profissão. Algo que vai além do holofote. Nosso trabalho consiste em 90% de estudo, dedicação, privação, e 10% de holofote. Ainda mais que além do áudio visual, sou apaixonada e faço muito Teatro Musical, que exige um nível de comprometimento e dedicação acima da média. Eu gosto disso. Da labuta, dos ensaios, das descobertas. Isso é o que me move!

Você já fez alguns trabalhos na TV mas parece que seu habitat natural (digamos assim) é o teatro, os musicais. É isso mesmo? Como enxerga isso? Na verdade, eu transito muito entre os meios, e, pessoalmente, não me sinto mais uma coisa ou outra. Mas acho que, mais por circunstâncias e oportunidades, acabei fazendo mais trabalhos ligados ao Teatro Musical. Mas eu amo áudio visual e também estudei e estudo bastante esta linguagem. Sinto como se, em um mundo ideal, eu seria plenamente feliz intercalando uma obra no palco, uma série, um filme, e voltando ao teatro. Assim também a gente fica mais fresco e menos atrelado a apenas um estilo de interpretação.

Conta um pouco como começou sua trajetória como atriz. O que veio primeiro, a atriz, a cantora ou a bailarina? A dança foi meu primeiro contato em relação ao estudo. Acho que era o caminho mais fácil para colocar uma criança com muita energia. Mas, na dança, sempre era chamada para fazer os papéis que tinha que interpretar mais. Já me chamavam de: a bailarina atriz. O canto era algo natural, pois na minha família as pessoas gostavam muito de cantar. Então era uma linguagem muito próxima também. Mas, em relação ao estudo, na ordem foi dança, teatro e depois música. Mas todos são um estudo constante. Até hoje faço aulas diárias de alguma das vertentes.

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Na TV você passou um tempo no “Zorra” e também no “Porta dos Fundos”, onde interpretou várias personagens. O humor é algo que está em você naturalmente? Sim. Acho que meu ascendente em sagitário tem um peso nisso ai… (meu amigo Welder Rodrigues, que odeia astrologia, vai ter um troço lendo isso (risos). Mas sim, o humor é algo presente na minha carreira, tanto na TV quanto no teatro. Inclusive, minha estreia no cinema foi no filme “Minha mãe é uma peça” com o gênio do Paulo Gustavo. Mas, voltando à pergunta, acredito que o humor seja algo bem presente na minha mente. Tem sempre algum comentário espirituoso pululando em mim. Até nas minhas criações pessoais, tem sempre uma pitada de humor em tudo que faço. Brinco que mora uma palhaça com olho cheio d’água em tudo que faço. Esta linha tênue entre o humor e a emoção é algo que permeia minha criação desde sempre. Ë enxergar a lágrima atrás do sorriso, a gargalhada que surge em meio a tristeza.

Seus shows e espetáculos sempre trazem um ar de burlesco, circo e anos 50. É algo de gosto pessoal ou que foi surgindo ao longo da sua carreira? Como isso te toca? Desde pequena, sempre fui encantada pelas coisas do passado. Mesmo na maneira que enxergo a vida. Às vezes me sinto catapultada do passado para o tempo presente. Isso é realmente muito forte em mim. E acaba que fisicamente eu trago traços destas mulheres dos anos 50, num estilo meio pin-up moderna, e energeticamente também. Daí, para isso influenciar no trabalho, é um respiro. Eu tenho esta estética viva de maneira muito natural em mim, mas sem desconectar do tempo presente. Por exemplo, em FRENCH KISS, meu musical autoral, tem uma cena em que a personagem, vestida de pin-up, canta sobre as desilusões que encontrou nos aplicativos românticos como o Tinder. Com uma canção meio Cabaret de pano de fundo. É disso que falo sobre trazer estas inspirações para o tempo de hoje.

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Seu musical “French Kiss” foi e é um sucesso até hoje. Um cabaret atemporal com mix de músicas em diversas línguas é a definição dele. Conta um pouco pra nós como é isso. Criei o FK a convite do Isaac Azar, dono da rede de restaurantes Paris6. Era um pequeno show, que foi crescendo ao longo dos anos e virando um espetáculo que, quando em cartaz, emprega pelo menos 15 pessoas envolvidas diretamente nele. Ele é meu xodó, e transita muito nesta linha drama-comédia. E me sinto muito feliz pois, nele, exercito muitas funções para as quais fui treinada e me sinto feliz fazendo: escrevi, dirigi, canto, danço, fiz os figurinos, adaptei canções e também produzo. Vira e mexe nós voltamos com ele. Inclusive, na pandemia, acabamos adaptando-o para um formato mais próximo do áudiovisual.

E depois veio “French Kiss – Na Intimidade”, como foi isso? Exatamente! Foi a adaptação feita para o momento pandêmico. Ele recebeu a alcunha de “na intimidade” pois pensei exatamente isso: vou abrir a intimidade desta personagem, colocando uma câmera mais próxima dela, da respiração etc, e ao mesmo tempo, estarei na intimidade do lar das pessoas que assistirão, já que, a primeira versão desta adaptação, acontecia ao vivo com transmissão via Zoom. Então, literalmente, se alguém abrisse a câmera, eu também entrava na intimidade da casa do público. Acabamos registrando este formato e, nesta versão, até minha avó de 90 anos fez sua estreia como atriz e foi lindo!

Já seu espetáculo mais recente, “Pra você gostar de mim”, faz uma homenagem a Carmem Miranda. O espetáculo tem transmissão online no seu canal no YouTube. Como foi a adaptação a esse formato e sem o contato com o público? Pensamos em um estudo sobre a Carmen Miranda, em uma suposta sessão dela como um psicólogo. É estranho conceber algo tão próximo da linguagem teatral e não ter a resposta imediata da plateia, que é o termômetro usado no teatro. Mas como foi já escrito pelo Guilherme Gonzalez pensando em algo filmado, fica agora a vontade de levar este texto para os palcos. Pois Carmen é uma mulher à frente de seu tempo e que merece ainda muito mais homenagens do que as que já recebeu. Ela e sua irmã, Aurora Miranda, precisam de um olhar muito mais carinhoso sobre a obra que deixaram e que tão bem representa nosso país e cultura.

Falando nisso, como foi passar esse período de pausa dos espetáculos no formato convencional? E como está sendo essa retomada das peças e espetáculos? Foi muito difícil. Nosso setor foi o primeiro a parar e o último a retornar. E, ainda assim, com redução de plateia, diminuição do aporte das empresas e etc. Um dos setores que mais traz lucro e movimenta a economia ficou às minguas. Voltei no final de 2021, com o espetáculo “Barnum – O rei do show”, ao lado de Murilo Rosa e grande elenco, e, tanto para artistas e técnicos, quanto para o público, foi muito emocionante. Em nossa primeira récita, no meio do espetáculo, recebemos aplausos calouros de um público que se levantou no meio de um dos números, para aplaudir e chorar conosco, comemorando o retorno da atividade e o início de uma fase com mais esperança pata todos. A retomada está sendo feita com toda cautela. Ensaiávamos de máscara, éramos testados no mínimo duas vezes por semana, plateia seguindo todos os protocolos à risca. Em quase 4 meses de trabalho, não tivemos um único caso de Covid, graças ao extremo cuidado de todos os envolvidos. Acaba que você se cuida por você e também pelos outros.

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E depois da icônica Carmem Miranda, veio essa linda Marilyn Monroe. Por sinal, você ficou ainda mais linda. O que Marilyn representa para você? Opa, obrigada! Sempre fui fascinada pela figura da Marilyn. Desde a adolescência, comecei a pesquisar sua vida e sua obra, e, além de ficar cada dia mais encantada com ela, sentia uma necessidade gigante de falar sobre como ela sofreu com as pressões estéticas e também, e principalmente, como ela, uma mulher inteligente e talentosa, ficou refém de sua imagem. E, por outro lado, como ela, na estrutura de sociedade que existia, se permitiu ficar ali. A Marilyn era uma mulher com um talento raro e fora do comum, que já se comportava com as mulheres com sonoridade, em uma época que nem se sabia o que era isso. Acho ela um ícone em todos os sentidos. E, ainda assim, a aura de mistério acerca de sua vida, e também sua morte, sempre me instigaram.

Como foi a construção desse ensaio juntamente com o fotógrafo Rodrigo Lopes? Como surgiu a ideia? Eu decidi mudar o cabelo. Algo que nunca havia feito antes. Já havia encarnado muitas loiras no teatro. Inclusive, o diretor Charles Moeller, sempre brincava que eu tinha uma alma platinada dos anos 50. Mas, sempre usávamos peruca. E decidi fazer para imaginar o que a Marilyn sentia na pele para ser aquela imagem que conhecemos. Me joguei nesta mudança brusca para me experimentar de outras maneiras. E, juntamente com o maquiador Daniel Wagner, eu e o Rodrigo formamos este time que queria homenagear esta mulher incrível, pois, a mudança drástica pela qual passei, merecia um registro. A ideia da homenagem surgiu do Rodrigo, que faz uns ensaios lindos homenageando mulheres icônicas. Quando ele me sugeriu a inspiração deste ensaio, me derreti.

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As fotos originais, feitas por Bert Stern são do último ensaio feito por Marilyn Monroe, batizado de “O Mito”, de 1962. Como foi recriar fotos tão icônicas de Marilyn? Eu amo este ensaio dela. Acho lindas as fotos, mas acho que o olhar dela está mais maduro e ainda mais forte em algo que ela sempre trazia, que era uma dor atrás de belas e delicadas imagens que ela sempre criava. Enxergo uma solidão aquela beleza toda que me seduz. Me senti muito emocionada com o resultado, pois achei uma bela homenagem a alguém que admiro muito e faz tempo. E fiquei super à vontade pois é algo que já existia em mim. Esta energia de época, está viva que captamos no ensaio.

Que mulheres e estrelas te inspiram? Quais suas outras referências além de Carmem e Marilyn? Ah, são muitas! Amo a maneira que Meryl Streep e nossa saudosa Marília Pêra transitam entre as áreas, e colocam a atuação, seus corpos e vozes em conjunto trabalhando. Admiro muito as mulheres que vieram antes da gente! Sempre falei como foi importante para mim fazer a Lolita Rodrigues no teatro, no espetáculo que homenageava a Hebe Camargo, com direção do Falabella. Homenagear estas mulheres, que abriram os caminhos em tempos em que a gente desafiava o mundo para tentar ser mais do que esposas, é algo muito recorrente na minha carreira. Um bravo a todas elas!

O que te seduz e encanta nisso tudo? A coragem delas. A coragem de peitar o status quo, de dizerem: é isso que queremos fazer! Me encantam mulheres como Dercy, Greta Garbo, Hedy Lamarr e por aí vai. Se tem uma coisa que sei que sou é corajosa. E, todas as vezes em que me sinto sozinha, criando minhas coisas, e dá medo (porque dá: medo se ser julgada, de dar errado, medo de arriscar) eu me lembro delas e uso o lema: e se der medo, vamos com medo mesmo! Mas vamos!

E na hora de relaxar, o que faz sua cabeça? Amo viajar! Tenho uma lista gigante de lugares a conhecer. E gosto de roteiro não e turista, Gosto de conhecer os hábitos de cada local que vou. Não vejo a hora de retomar as viagens. Mas cozinhar também é uma paixão e hobby. Tenho até minha marca de pães de fermentação lenta e um canal de receitas no YouTube com o mesmo nome: Cozinha de Afeto. E assistir séries e filmes, que são uma grande paixão. Principalmente com temática de suspense! A DO RO! E me divertir com o Ben, meu filho super parceiro, de 05 anos.

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Assista making of:

Fotos Rodrigo Lopes / Styling Isabela Lira / Make Daniel Wagner / Cabelo platinado Costato