ESTRELA: O PODER DO HUMOR DE MARIA CLARA GUEIROS

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Ler essa entrevista com Maria Clara Gueiros é receber altas doses de positividade e entender como o bom humor e alto astral é o caminho para uma vida mais leve e feliz. E tudo isso começa lá traz pela dança. Do ballet clássico ao jazz e o sapateado. Maria Clara sempre foi dos palcos. Fosse na dança, fosse atuando. Maria Clara queria se divertir, atuar e entreter o público, e acabar com a timidez. “É muito clichê dizer que a arte salva, mas a arte me salvou. Eu era uma pessoa muito tímida, muito insegura”, comentou ela ao longo dessa entrevista exclusiva para a MENSCH. De sorriso largo e farto, encarou diversas personagens cômicas na TV nos mais diversos programas.  Atualmente em cartaz com o espetáculo Agora é que são elas, que está há um ano e meio em cartaz e é um sucesso de público. Também não seria diferente tendo como protagonista Maria Clara.

Maria Clara, quer dizer que você chegou aos palcos sapateando… isso lá em 1984. Na sequência veio o primeiro espetáculo, Na Cola do Sapateado (1987). Como despertou para a dança e, em especial, o sapateado? Eu comecei a fazer dança pequenininha, como a maioria das meninas cariocas de classe média, né, fazer ballet e tal, porque minha mãe me decidiu. Com 15 anos, eu tomei a frente e resolvi seguir mais por minha conta, e procurar outros cursos. Fui fazer ballet clássico, jazz, sapateado. Descobri o sapateado e aí comecei a fazer parte de grupos de dança, e quando eu quando vi, estava totalmente engrenada nessa área artística, partindo da dança, ao mesmo tempo em que eu estava tendo uma formação de psicologia – me formei na PUC, fiz mestrado na PUC, eram duas carreiras paralelas. A arte no início era a dança, era o que sempre me puxava pro mercado de trabalho. Então, em 1984, eu comecei a fazer parte de um grupo de sapateado, Grupo Catsapá – até hoje tem a academia Catsapá. Eu fui uma das fundadoras, em 84, e em 87, a gente fez nosso primeiro espetáculo Na cola do sapateado. Foi ali que eu realmente me profissionalizei. Comecei a ganhar dinheiro pra trabalhar, e tirei meu primeiro registro profissional, que era de “artista bailarina”. O meu registro de atriz vem depois desse meu registro – é um adendo a esse de “artista bailarina”. Então, a dança foi uma super porta de entrada pra eu ser atriz, no final das contas, e é um trunfo que eu carrego, eu faço musical. Eu tenho toda essa formação, embora hoje em dia eu não me considere mais bailarina, acho que sapateadora sim, porque sapateado a gente nunca perde – se eu voltar a fazer, em dois meses de aula já volto à minha forma antiga.

E como foi a saída de casa para viver da arte?. O que a arte fez e faz por você? Eu saí de casa com 26 anos pra me casar e, inclusive, nunca morei sozinha, que é uma característica peculiar da maioria das pessoas da minha geração. Saí de casa naquele modelo bem convencional – sair da casa dos pais pra casar e ter filho. Eu nunca tive esse mergulho solo. E agora, em relação ao que a arte fez por mim, a arte me construiu. É muito clichê dizer que a arte salva, mas a arte me salvou. Eu era uma pessoa muito tímida, muito insegura. Ainda sou. Ainda sou tímida e ainda sou insegura, mas o canal da arte me dá um contorno que é muito salvador, e é muito bonito, é uma saída bonita pros dissabores da adolescência e da infância. Eu fui aquela menina tímida. Então,  pude me conectar com a arte e me construir através dela. Como atriz, eu tenho uma voz mais segura do que se eu não fosse atriz. O fato de eu ter esse canal de poder subir no palco me dá uma segurança, uma estrutura que me fortalece muito.

Você parece ser inquieta e essa inquietação sempre lhe levou a ir mais longe. É isso? Esse ir mais longe te faz sentir realizada? Até onde mais quer ir? Na verdade, não sou inquieta não, eu sou muito organizada e muito persistente. Inclusive, se eu pudesse me caracterizar de alguma maneira, seria aquela formiguinha. Comecei a trabalhar na arte muito cedo, desde essa idade que eu falei, e nunca desisti. Obviamente, tive uma estrutura na casa de meus pais que me permitia não precisar do dinheiro que a arte me dava, pra sobreviver. Meu primeiro marido foi um homem sensacional nesse sentido – ele bancava as contas de casa, enquanto eu estava me encontrando no mercado. O que eu ganhava não era suficiente pra me sustentar, mas eu com esse apoio, dessas duas frentes importantíssimas – dos meus pais e do meu ex-marido, eu tive essa retaguarda. Mas acho que uma característica minha é ser persistente e nunca desistir. Eu  estou há 38 anos sem deixar de trabalhar durante um ano. Acho que o único ano em que eu não fiz teatro foi o ano da pandemia, mas estava fazendo outras coisas também. Então,  tenho certeza que a minha persistência me faz ir muito longe e me faz sentir muito realizada. Eu quero ir sempre pra frente, quero trabalhar sempre, enquanto tiver papel pra mim, e acho que essa carreira da gente é muito interessante nesse sentido. Vai ter sempre uma pessoa pra representar na idade que a gente está.

A vida do ator brasileiro é uma eterna corda bamba com contratos por projetos, busca de patrocínios e uma constante reafirmação do seu talento. Em sua trajetória tem um pouco disso ou ser quem você é hoje (uma atriz de sucesso e referência) já facilita alguns processos? É, realmente a vida do ator brasileiro é uma corda bamba. Como falei anteriormente, eu tive muita sorte de ter um suporte familiar muito importante e, graças a Deus, sempre fui chamada pra fazer as coisas. Eu não tenho a independência que outros atores têm de escrever os próprios conteúdos, eu dependo mais de autores que escrevam pra mim. Fui muito sortuda, estou sendo ainda, porque sempre tenho convites de autores e diretores pra fazer excelentes trabalhos, e isso é uma coisa pela qual tenho que levantar as mãos pros céus. Tenho coisas que escrevi, guardadas na gaveta, que eu não tenho ainda coragem de botar em prática. O que eu já fiz foi me produzir, eu produzi dois espetáculos – um texto que pedi pro Bosco Brasil escrever pra mim e comprei os direitos de um musical que Charles Moeller e Cláudio Botelho que produziram e eu fiz a tradução – Se o meu apartamento falasse. Isso é um orgulho que eu tenho. Sou realmente ótima produtora, mas a gente tem que estar sempre em movimento, ainda mais eu, que não escrevo os meus projetos. Preciso estar sempre na roda, pra ser chamada e pros patrocínios aparecerem. Nesse sentido, é uma corda bamba, mas eu tive muita sorte, a minha corda foi pouco bamba, eu tive um contrato de 17 anos na TV Globo que me garantiu uma super vitrine. Então, eu me considero muito sortuda.

Quando falamos em referência, é lembrar de você e grandes personagens ligadas ao humor. Enveredar por esse caminho era um desejo seu ou o destino foi lhe levando? Como atriz já se sentiu “aprisionada” no humor? Sou realmente uma comediante, me considero uma atriz comediante, isso me enche de orgulho. Eu sempre digo que é, quase como se fosse, mal comparando, um médico especialista –  me especializei nessa arte de fazer humor. Desde que comecei a minha carreira, trabalhei com humor, fiz personagens ligados ao humor. Claro que, eventualmente, fiz um drama ou outro, pontualmente, em algumas cenas de novela, algumas participações, mas a minha carreira é pautada no humor e eu fui descobrindo isso aos poucos. Não era um desejo desde sempre, eu não era uma criança engraçada, isso não acontecia, eu era muito tímida e sou muito certinha e tal. Quando comecei a ensaiar pra esse espetáculo que juntava o sapateado com cenas teatrais, a gente foi criando um texto e eu descobri nos ensaios que eu era engraçada. Foi uma descoberta muito bonita inclusive, e o destino realmente foi me levando… Eu agradeço diariamente. Em relação à última parte da pergunta, nunca me senti aprisionada no humor – é o oposto disso. Eu me sinto agraciada por ser lembrada e percebida como uma comediante, acho que é um atributo, e uma sorte.

Dizem os atores, que é muito mais difícil fazer humor do que drama. Ainda mais numa época de cancelamentos e o politicamente correto. Onde está o desafio? É uma frase corrente entre os atores dizer que é mais difícil fazer humor do que drama, mas eu acho igualmente difícil. Acho lindo um ator dramático que fez uma carreira em cima disso. O humor tem as suas dificuldades e o drama igualmente  – acho que tão grandes quanto o humor, e são especializações. Eu transito mais facilmente no humor porque faço isso há 38 anos e, hoje em dia, nessa época de cancelamento, o humor precisa ser muito levado a sério. Desculpe o trocadilho, mas é meio por aí. O humor precisa ser muito bem pensado porque o politicamente correto chegou pra ficar e tá certo. Eu  acho que a gente tem que se preocupar sim, e não fazer humor depreciativo, não humilhar as minorias. Eu nunca gostei disso. Acho que, ainda mais hoje, a gente tem que se preocupar e eu considero isso um progresso. O politicamente correto é um progresso da humanidade  – o desafio é você continuar fazendo o que é certo sem perder a ironia e o humor.

Sempre que lembramos de você ou alguma personagem sua, lembramos de seu sorriso. Você é uma pessoa bem-humorada no dia a dia? Como é a Maria Clara e o humor? Realmente, meu sorriso é largo, né… grande. Eu  tenho um bocão e tudo. É uma coisa que faz parte de mim desde sempre – acho que assumi meu sorriso aberto com o início da minha profissão. Eu era uma criança mais tímida, não tinha esse sorriso tão posicionado como é hoje em dia. Procuro ser bem-humorada no dia-a-dia, procuro sempre ter uma visão bem-humorada das situações difíceis, e não é força de expressão – eu boto em prática isso, mas também não deixo de perder o humor de vez em quando, quando é necessário, né? A Maria Clara e o humor são duas coisas de mãos dadas que eu só largo quando é impossível de ter humor, mas no dia-a-dia eu estou de mãos dadas com o humor.

Ao longo da carreira foi difícil provar que você também é capaz de fazer drama? Ou fazer humor é a sua vibe e está tudo certo assim? Sempre fazem essa pergunta pra mim, se eu quero provar que eu sou boa em drama. Eu quero trabalhar, eu quero trabalhar sempre, eu quero sempre estar trabalhando e, graças a Deus, é o que consegui até hoje e tenho certeza de que a vida está me levando. Eu emendo um trabalho no outro. Eu amo o que eu faço, e em relação a querer provar que eu faço drama, nunca isso passou por minha cabeça, de verdade. Se eu tiver que fazer um drama, vou abraçar isso com a maior coragem e a maior seriedade, como eu abraço o humor com a maior seriedade, no sentido da técnica da coisa. Eu quero estar sempre trabalhando e, até hoje, a grande maioria  de meus trabalhos, a avassaladora maioria de meus trabalhos, é de humor e tá tudo certo. Estou muito feliz.

Da sua estreia na TV até hoje, que momentos foram mais marcantes? Da Escolinha do Professor Raimundo às diversas personagens de novelas. Da minha estreia na TV até hoje, eu não consigo citar um trabalho só, são tantos. Primeiro foi a Laura do Zorra Total, que me deu abertura pra ser conhecida no Brasil inteiro – a personagem que falava “vem cá eu te conheço?”. Depois, teve a Márcia, também do Zorra Total, que me abriu mais ainda as portas. Teve o meu primeiro trabalho com Luiz Fernando Guimarães – Minha nada mole vida, a novela do Gilberto Braga, Insensato coração, em que eu fiz a Bibi. Eu fiz A grande família, que era um sonho, onde fiz a Lurdinha e fiz a Escolinha do Professor Raimundo. São muitos trabalhos muito importantes. Então, eu não consigo destacar um. Foram muitos e, eu falando aqui, estou esquecendo coisa.

Seu trabalho mais recente no teatro é o espetáculo Agora é Que São Elas, texto de Fábio Porchat com nove esquetes de humor que retratam situações cotidianas de rápida identificação pelo público e que tem lotado os teatros. Como tem sido participar desse espetáculo e qual é o “segredo” desse sucesso? O espetáculo Agora é que são elas está há um ano e meio em cartaz e é um sucesso maravilhoso – é uma peça muito simples, que fala de situações cotidianas. Nove esquetes de humor de rápida identificação e o segredo é um texto genial do Fabio, em primeiro lugar, porque sem um texto bom de humor não se vai a lugar nenhum. Em segundo lugar, a nossa participação, tanto do Fábio como diretor, como a atuação competente de nós três – somos capazes de entender o que está no texto, traduzir isso em termos de cena e manter esse frescor há um ano e meio. O segredo desse sucesso é uma sintonia maravilhosa do nosso elenco – eu, a Júlia Rabello e a Priscila Castello Branco, que somos três comediantes e que somos amigas também.

Pretendem percorrer o Brasil com a peça? Como está a agenda de apresentações? A gente pretende percorrer o Brasil com a peça. Já fizemos várias cidades desde que a gente estreou – Rio e São Paulo. Fomos  a Brasília, a Porto Alegre, Curitiba, onde estreamos no festival de Curitiba. Fomos a várias cidades do interior do Rio e de São Paulo. Neste ano, vamos fazer mais algumas viagens, e no ano que vem. Fomos a Portugal neste ano, fizemos 15 dias em seis cidades. Foi lindo, lotamos todos os teatros. No ano que vem, a gente vai fazer o Nordeste do Brasil e, se Deus quiser, voltaremos a Portugal no segundo semestre. É uma agenda cheia e o público continua gostando. A gente está muito feliz.

O que coloca um sorriso em seu rosto e o que lhe tira do sério? O que coloca um sorriso no meu rosto é a disponibilidade das pessoas, a cada situação que se apresenta na vida. Quando eu conheço alguém, quando eu começo um trabalho, quando eu chego num lugar, quando eu chego numa farmácia, eu chego com um sorriso e dizer bom dia, por favor, você pode me ajudar a fazer isso, e a pessoa também responder na mesma na mesma vibe, ou seja, acreditar que, a princípio, as relações podem ser amistosas, podem ser boas. Não pegar pela frente gente de guarda fechada. Gente que vem com a guarda fechada me tira o sorriso do rosto, porque estou sempre, a princípio, pronta pra estar com o sorriso no rosto e de guarda aberta. E o que me tira do sério é exatamente o contrário disso – grosseria, falta de educação, gente que de cara já está na defensiva. Isso eu não entendo, não entendo porque não começar, qualquer início, de relação, de projeto, de situação, com um sorriso, com bom dia, obrigada, por favor… Vamos fazer dar certo.

Para conquistar Maria Clara basta… O que conquista a Maria Clara é um sorriso, uma delicadeza no início das relações, porque sempre acredito que o início das relações, pensando no sentido mais amplo dessa afirmativa, o início das relações é que dá o tom das relações entre as pessoas. Se você já conhece uma pessoa numa situação truncada, aquela relação vai estar meio que fadada a ter aquele tom, a menos que a gente se esforce muito pra desfazer aquilo. Então, o que me conquista é estar de peito aberto. É alguém que chegue com um sorriso e que venha com clima de que as coisas vão dar certo. Delicadeza, educação e positividade – não positividade tóxica, não estou falando disso – “vamos resolver as coisas da melhor maneira, tamo junto”, é isso que me conquista.

Fotos @guilhermelima

Produção executiva e styling @samantha_szczerb

Beleza @zuhribeirobeauty_

Assessoria @jspontes_comunicacao

Agradecimentos: @rioothonpalace

Maria Clara usou: Nayane, Embelleze Moda Praia, Lizie, Carol Rosatto, Gutê e Power Look