
DO FAIRMONT COPACABANA AO FUTURO SOFITEL IPANEMA, O EXECUTIVO FRANCO-BRASILEIRO REDEFINE OS PADRÕES DO TURISMO DE LUXO NO RIO DE JANEIRO
POR AMANDA MONTEIRO (@amandagaumont)
Com uma trajetória que percorreu três continentes e duas décadas de excelência hoteleira, Netto Moreira representa hoje uma das figuras mais influentes da hospitalidade de luxo no Rio de Janeiro. Como General Manager do Fairmont Rio de Janeiro Copacabana e Directeur Général Délégué Luxe Rio de Janeiro do Grupo Accor, ele comanda um portfólio que inclui as marcas Fairmont, Sofitel e MGallery, além de operações gastronômicas icônicas como os quiosques Tropik e Sel d’Ipanema. Formado em Hotelaria pelo prestigioso Lycée Hôtellerie Tourisme St. Quentin, de Paris, Netto construiu sua expertise entre a França, Estados Unidos e Canadá antes de retornar ao Brasil, em 2012. Sua chegada ao Rio de Janeiro coincidiu com um dos períodos mais efervescentes da cidade, culminando na liderança de 550 colaboradores durante os Jogos Olímpicos de 2016. Hoje, além de suas funções executivas, atua como vice-presidente do HotéisRio e participa de diversos conselhos do setor turístico carioca.
Nesta conversa exclusiva com a MENSCH, Netto compartilha sua visão sobre a evolução da hotelaria carioca, os desafios de implementar padrões internacionais sem perder a autenticidade local, e como o conceito de luxo tem se transformado em uma era que privilegia experiências transformadoras sobre ostentação material.
Você está no Rio de Janeiro desde 2012 e tem uma visão privilegiada da hotelaria carioca. Como avalia a evolução do setor hoteleiro no Rio de Janeiro ao longo dessa década? Quando retornei ao Brasil em 2012, após quase 15 anos entre Europa e América do Norte – encontrei um Rio de Janeiro em plena efervescência. Estávamos nos preparando para a Copa do Mundo e as Olimpíadas, e isso trouxe uma energia incrível para o setor. Vivi isso de perto, liderando a equipe do Sofitel Copacabana durante os Jogos Olímpicos de 2016 – foram 550 colaboradores trabalhando em sintonia perfeita. Desde então, vejo uma maturidade crescente no setor. Os hotéis cariocas evoluíram não apenas em infraestrutura, mas principalmente, na qualidade do serviço e na compreensão de que hospitalidade vai muito além de acomodação.

Como gerente geral do primeiro Fairmont da América do Sul, quais foram os principais desafios na implementação de uma marca internacional de luxo no mercado brasileiro? Foi um marco histórico quando fui anunciado em outubro de 2018, para liderar o primeiro Fairmont da América do Sul. O maior desafio foi traduzir os padrões globais da marca para a realidade brasileira, sem perder nossa essência carioca. No Fairmont, trabalhamos com padrões altíssimos de luxo que são reconhecidos mundialmente, mas precisávamos que isso soasse natural ao hóspede brasileiro. É um equilíbrio delicado entre manter a excelência internacional e incorporar o calor humano que nos caracteriza. A marca Fairmont tem uma história centenária de hospitalidade refinada, e trazer isso para Copacabana exigiu muita sensibilidade cultural.
Sobre a sua experiência com marcas de luxo (Fairmont, Sofitel e MGallery). Como adapta a estratégia operacional para diferentes segmentos dentro do mercado? Cada marca tem sua personalidade única dentro do segmento de luxo. No Sofitel, trabalhamos com o “art de vivre” francês – elegância, sofisticação e uma experiência cultural refinada. No Fairmont, temos a tradição de hospitalidade clássica com serviços personalizados excepcionais. E o MGallery nos permite explorar o luxo boutique, com foco em bem-estar e arte, criando experiências mais íntimas e autorais. Como Directeur Général Délégué Luxe Rio de Janeiro, gerencio essas três marcas e vejo como cada uma atende a diferentes momentos e expectativas do hóspede de luxo. Minha formação no Lycée Hôtellerie Tourisme St. Quentin, em Paris, e depois os cursos de especialização nos EUA e Canadá, me deram essa versatilidade. O segredo é entender que dentro do luxo há nuances, e cada marca tem sua forma única de expressar excelência.

O MGallery representa o conceito de luxo boutique com foco em bem-estar e arte. Como você vê essa evolução do luxo contemporâneo, onde os hóspedes buscam momentos de paz, autoconhecimento e conexões reais em meio à vida corrida? O MGallery chegou em um momento perfeito. Vejo que os hóspedes hoje, especialmente depois da pandemia, estão redefinindo o que é luxo verdadeiro. Não é mais apenas sobre thread count de lençóis ou champagne, mas sobre experiências que nutrem a alma. No MGallery, trabalhamos com a filosofia de que o luxo está nos momentos de silêncio, na conexão consigo mesmo, na arte que desperta emoções. É um hotel boutique onde cada detalhe é pensado para criar uma pausa genuína na vida corrida. O spa não é apenas um serviço, é um refúgio. A arte não é apenas decoração, é uma forma de diálogo interno. Vejo hóspedes chegarem estressados e saindo renovados. Esse é o novo luxo – transformador, não apenas confortável. É sobre criar espaços onde as pessoas possam se reconectar com o que realmente importa.

Além da hotelaria tradicional, você também gerencia operações gastronômicas como os quiosques Tropik e Sel d’Ipanema. Como é essa experiência de gestão em ambientes tão distintos e casuais? Gerenciar os quiosques Tropik e Sel d’Ipanema é uma extensão natural da hospitalidade, mas com uma dinâmica completamente diferente. Enquanto nos hotéis temos um ambiente controlado, nos quiosques estamos literalmente na praia, sujeitos às intempéries, ao movimento natural da cidade, ao ritmo carioca mais espontâneo. É outro tipo de desafio operacional. Temos que ser ágeis, flexíveis, mas mantendo sempre a qualidade. O interessante é que nos quiosques captamos a essência mais pura do Rio de Janeiro: a descontração, a proximidade, a alegria. É uma gestão que exige muito mais adaptabilidade e leitura do momento. Às vezes é um movimento intenso de turistas, outras vezes são os locais que querem relaxar. Essa experiência me ensina muito sobre a hospitalidade carioca em sua forma mais autêntica, sem protocolos rígidos, mas com o mesmo cuidado e atenção aos detalhes.
Quais são seus projetos e visões para o futuro da hotelaria de luxo no Rio de Janeiro nos próximos anos? Vejo um futuro muito promissor. O Rio de Janeiro está se posicionando novamente como destino de luxo internacional. Temos projetos muito empolgantes pela frente – estamos trabalhando no lançamento do Sofitel Ipanema, que chegará no segundo semestre do próximo ano, trazendo mais uma marca internacional de luxo para fortalecer ainda mais o portfólio da cidade. Temos que trabalhar em conjunto – hotéis, restaurantes, atrações – para criar experiências integradas e inesquecíveis. Com o Fairmont Copacabana já estabelecido, o futuro Sofitel Ipanema e o MGallery nos posicionando no luxo boutique com foco em bem-estar e arte, teremos um ecossistema completo de hospitalidade de luxo. Minha visão é de um Rio de Janeiro que não compete apenas em beleza natural, mas em sofisticação de serviços. Queremos que o hóspede saia daqui dizendo que viveu algo único, que só poderia acontecer no Rio de Janeiro. É isso que me motiva todos os dias: fazer do Rio de Janeiro um destino de referência mundial em hospitalidade de luxo.


