Um dos jovens talentos revelados na novela “Bom Sucesso” que acabou de encerrar, o mineiro Igor Fernandez já fazia um bom tempo que se preparava para esse momento mesmo sem saber. Aos 12 anos já brincava com a arte de interpretar quando teve contato direto com uma câmera digital. Aos 16 anos se juntou com uma trupe de circo para explorar as várias possibilidades da arte de interpretar e de lá para cá não parou mais. Hoje, aos 23 anos colhe elogios pela sua estreia de fato na TV interpretando o sonhador Luan no horário das 19h na Globo. Conversamos com Igor sobre sua trajetória, seu início na TV, preconceito e futuro. O resultado não poderia ser melhor. 

Reta final de “Bom Sucesso” e aí, o que ficou de bom? Quais os grandes momentos? Grandes momentos foram todos. Desde a equipe de produção, diretores, atores iniciantes e também os renomados, todo o recurso humano desse projeto fez de tudo para que cada segundo de trabalho fosse transformado em um ritual de arte mágica, e tudo com muito carinho. Não consigo mensurar o que aprendi neste processo, foi algo grandioso e levarei por toda a vida. Acho que os maiores momentos serão sempre aqueles que a câmera não registrou, nos bastidores, recebendo conselhos, elogios e apoio dos grandes atores que sempre serviram de referência pra mim, e neste trabalho eu tive a oportunidade de atuar ao lado deles.

O que aprendeu com Luan e sua poesia de rua? Luan é muito sonhador, ele não desiste do que quer e mesmo que tenha uma onda de situações desfavoráveis ao sonho dele, o poeta não abre mão do seguir em frente. É isso o que aprendi com Luan, o fato de que não importa de onde você vem, que condições você tem e quão pequena possa ser a possibilidade de realizar um desejo, no final das contas a persistência, a força e a fé serão sempre os grandes realizadores de sonhos.

É difícil desapegar de um personagem querido do público? Acho que não deva ser difícil, apesar de o público acabar não deixando que o personagem desapareça assim tão rápido. Acredito que mesmo após o fim da novela as pessoas vão continuar me parando na rua e pedindo pra eu “fazer uma rima” pra elas, coisa que acontece diariamente. Só que, apesar disso, o desapego é necessário. A gente precisa se desprender até mesmo para que outras energias tenham espaço para chegar, para que outros personagens possam ocupar o lugar e para que uma nova vida surja na ficção. É difícil, mas necessário.

Como foi a repercussão nas ruas? A rua é sempre um termômetro pro ator de televisão, afinal de contas o nosso maior público está lá. Eu gosto sempre de manter os ouvidos abertos ao que a galera fala quando me aborda para comentar sobre a novela e o meu personagem. Como eu ando muito de transporte público ou estou sempre resolvendo algo a pé, lido diariamente com pessoas que me param e pedem pra eu fazer uma rima, ou lamentam comigo o término do Luan com Alice, me dão até dicas de como superar o fim da relação dos personagens, e na minha cabeça eu as vezes percebo que as pessoas acreditam estar falando pro personagem, não há muito essa separação pra eles. Mas é uma delícia, eu adoro esse contato com o grande público e absorvo muito do que eles dizem pra mim.

Soubemos que com 12 anos você brincava de fazer cinema e lançou seu primeiro roteiro. Como foi isso? Eu cresci numa rua com muitas crianças e, sabe-se lá porque, desde novo eu já brincava de fazer teatro e cinema, e claro, todos os meus amigos eram obrigados a participar dos meus trabalhos. Antes dos 12 eu pegava revistas em quadrinhos e as transformava em roteiros, fazia dezenas de cópias a mão e todos deveriam decorar, ensaiar e apresentar as minhas peças. Já aos 12 eu tive contato com a câmera digital, na época virou febre e toda família tinha a sua, e foi ai que migrei do teatro para o cinema! Lembro que meu primeiro filme se chamava “Elementos”, era de ficção e os efeitos especiais envolviam muita mecânica, era realmente muito criativo e eu me surpreendo até hoje com as loucuras que eu propunha. Hoje uso as lembranças como combustível pro meu trabalho, porque se a minha criança foi capaz de criar tanto, eu também continuo sendo. Ah, e ainda dá pra encontrar uns vídeos meus de filmes que eu fazia no YouTube, os vídeos provavelmente tem mais de 10 anos no ar.

E seu envolvimento com o circo, como isso chegou até você? Eu já tinha meus 16 anos, fazia teatro e trabalhava com meu pai de ajudante de pedreiro e já queria me sustentar somente com arte. Foi aí que descobri um grupo de circo e teatro que realizava apresentações e eventos na minha região e lá eu encontrei a chance de trabalhar com arte. E assim aconteceu, o Grupo Toca – Teatro & Outras Coisas Artísticas me acolheu, me preparou e me inseriu no universo circense, e junto com Fernanda e Emerson, os desenvolvedores do grupo circense e também instrutores de todas as técnicas que hoje eu domino, desenvolvi habilidades diversas e durante uns 5 anos estive completamente envolvido na palhaçaria, equilibrismo, pirofagia e malabares.

Poesia, arte, circo, teatro e TV. O importante é fazer arte? O que te faz mais completo? Acho que o importante é fazer o que se gosta. Há artistas que são da televisão e se dão bem somente com a TV, assim como alguns do teatro só se dão bem nos palcos, então é preciso entender e chegar num acordo consigo mesmo para realizar somente aquela arte que faz o coração vibrar verdadeiramente. Se não for genuíno, se não for autêntico e cheio de vontade, será uma arte vazia e sem amor, então o importante é fazer aquilo que se gosta e nada mais. Eu, no caso, sou apaixonado por várias vertentes da arte e isso pra mim é um privilégio. Eu amo me desenvolver em todas elas.

Afinal, o que é arte pra você? Arte pra mim é a mais antiga forma de linguagem do animal, e ela ultrapassa os sentidos conhecidos, é uma mistura de todos os campos de percepção e comunicação existentes. Com a arte qualquer ser humano transmite algo para outro, e dessa forma eles se desenvolvem, se conectam e descobrem semelhanças, mesmo sendo cada um de uma ponta do globo. Arte de modo geral é o meu superpoder de falar o que eu quero pro mundo, e é o falar no seu sentido mais amplo de existência.

E para relaxar, o que faz sua cabeça? Viajar! Minha terapia é e sempre será viajar. Adoro acordar em um local desconhecido e ter a sensação de novidade, isso é revigorante pra mim. Sou apaixonado pela experimentação de novas culinárias, intercâmbio de culturas e esse sentimento de vivenciar algo novo. Já cruzei o Brasil de baixo a cima de ônibus só para viver uma aventura, e esse sempre será meu maior investimento e a melhor forma de manter a minha cabeça relaxada.

A visibilidade da TV trouxe à tona seu namoro de 5 anos com Gabriel Soares e foi encarado pelo público de forma tranquila. A que você acha que se deve isso? Devo isso a todo o público LGBTQIA+ que antes de mim lutou muito para que qualquer forma de amor fosse encarada como algo normal, o  que de fato é. Já foi o tempo em que o ator tinha a necessidade de esconder a sua vida a todo custo para segurar o trabalho. Eu tenho a consciência da quantidade de atores gays que antes de mim tiveram sim sua carreira comprometida simplesmente por amar alguém do mesmo sexo, mas nós dias de hoje isso é inadmissível! O meu namoro é um namoro como outro qualquer, e tem sim que ser encarado da forma tranquila que foi.

O que é mais difícil de enfrentar hoje em dia de modo geral? Eu acho que nos dias de hoje a dificuldade é conseguir sonhar apesar de todas as dificuldades que enfrentamos no nosso dia a dia. Antes de correr atrás daquilo que queremos precisamos nos preocupar se chegaremos bem no local de trabalho ou até mesmo em casa durante a noite. A violência está grande, a saúde está precária e o modo de vida público está complicado. Além de tudo há uma grande luta para desqualificar o trabalho de nós artistas, ou seja, a dificuldade está no tempo em que gastamos lutando contra todos esses problemas que chegam ao nosso encontro diariamente.

O que te coloca um sorriso no rosto? Para colocar um sorriso no meu rosto não tem dificuldade nenhuma. Qualquer coisa que seja genuína me coloca um sorriso no rosto. Eu gosto de passar o dia observando as pessoas que tem coragem o suficiente de fazer tudo aquilo que o coração delas vibra e isso com certeza me deixa muito feliz. Eu sei que os tempos estão difíceis, está complicado para todas as pessoas manter essa felicidade, mas não devemos e nem podemos desanimar, porque a alegria que vem do outro serve de combustível para a nossa própria felicidade. Eu sou muito alto astral, sou do dia e muito ativo, gosto de confraternizações, gosto de ver gente sorrindo, dançando, celebrando a vida e sendo feliz, isso me torna uma pessoa mais feliz.

Para te conquistar basta… Para me conquistar não precisa de muita coisa, na verdade não precisa de nada além de ser quem você é. Eu não compactuo com essa ideia de mudar para se encaixar nos desejos de outra pessoa, então me conquista muito fácil aquele que é autêntico, feliz e sem qualquer vergonha de ser ele mesmo. Também sou muito a favor da liberdade, sempre me dei melhor com pessoas que são despreocupadas com a vida do outro. Para mim, a pessoa tem que ter a consciência de viver a vida dela e o respeito de deixar com que cada um viva da sua maneira. Isso me conquista de cara, gente do bem e de boa energia. Mas é claro, não há uma fórmula para isso, não é uma receita de bolo. Como seres humanos somos mutáveis e o que me conquistou até ontem pode ser completamente diferente do que vai me conquistar hoje ou amanhã, e essa é a graça da vida.

O que vem para esse ano ainda? Quais os planos? Este ano eu quero me dedicar mais ao comando de projetos. Eu gosto muito de escrever, gosto de estar por trás dos bastidores quase tanto quanto atuar e quero que 2020 seja ano de investimento nesta área. Quero assinar trabalhos como diretor, autor ou até mesmo produtor de algo idealizado por mim, e claro, se houver algum convite estarei na televisão novamente. Pretendo também ampliar o meu repertório de estudos, pois com o processo de Bom Sucesso tive que reduzir meu tempo dedicado ao circo, a música e a dança em prol de um desenvolvimento maior na novela.

Fotos Márcio Farias

Styling Samantha Szczerb

Beleza Ualas Nascimento

Agradecimentos: Amil Confeções, Erica Rosa Atelier, Raffer e J’Adore Luxe