CARREIRA: RENATA DE PAULA — TRANSFORMOU A MENOPAUSA EM UM MOVIMENTO DE CIÊNCIA, ESCUTA E POTÊNCIA FEMININA

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FUNDADORA DO VÊNUS TALKS, A EMPRESÁRIA E ATIVISTA CONVERTEU SUA PRÓPRIA TRAVESSIA PELO SILÊNCIO HORMONAL EM UM DOS PRINCIPAIS HUBS DE INFORMAÇÃO E ACOLHIMENTO SOBRE LONGEVIDADE FEMININA NO BRASIL.

Há jornadas que nascem da escolha. Outras, da ruptura. A de Renata de Paula começou com o que ela descreve como um “atropelamento fisiológico”. Aos 30 anos, após um acidente cirúrgico que resultou na aspiração dos ovários, ela entrou abruptamente na menopausa. Vieram os sintomas — mais de 40, segundo ela — e, com eles, a sensação de estranhamento diante do próprio corpo. Pouco tempo depois, um diagnóstico de câncer de mama encerraria definitivamente a possibilidade de reposição hormonal convencional. O que poderia ter sido apenas uma história de perda transformou-se em ponto de partida.

Enfermeira por formação e empreendedora por natureza, Renata fez da própria experiência o início de uma investigação profunda sobre o climatério, a menopausa e as múltiplas dimensões da saúde feminina. O que começou como uma busca individual evoluiu para o Vênus Talks, hoje um ecossistema de conteúdo, eventos e conversas que conecta especialistas e mulheres em torno da ciência da longevidade. Com quase 200 entrevistas realizadas e uma comunidade digital que ultrapassa 100 mil pessoas, o projeto se consolidou como um espaço de escuta, acolhimento e, sobretudo, informação qualificada.

Mais do que falar sobre hormônios, Renata fala sobre identidade, autonomia e futuro. Em um país onde milhões de mulheres atravessam o climatério sem diagnóstico ou orientação adequada, ela lidera uma mudança de narrativa — substituindo o silêncio pela ciência e o estigma pela consciência. Sua atuação, que une rigor técnico, sensibilidade humana e visão empresarial, transformou o Vênus em uma plataforma de impacto real.

Conversamos com Renata de Paula sobre sua trajetória, o nascimento do Vênus Talks e o que significa envelhecer, hoje, com informação, liberdade e potência.

Sua história pessoal foi o ponto de partida para o Vênus Talks. Em que momento você percebeu que aquela experiência deixava de ser apenas sua e passava a se tornar um propósito coletivo? Sim, a minha história pessoal foi o ponto de partida para o Vênus, porque eu tive absolutamente todos os sintomas — foram mais de 40 — e eu não sabia que aquilo era menopausa. Então, penso que, se eu conseguir fazer com que outra mulher chegue ao diagnóstico mais rápido do que eu cheguei, para mim já valeu. Eu tive zumbido no ouvido, coceira na pele, vertigem, esquecimentos, calor — tudo o que você pode imaginar. Quando você consegue nomear o que está sentindo mais rápido, o sintoma não desaparece, mas você se conforta sabendo que não está maluca. Muitas mulheres passam por isso sem entender o que está acontecendo. Esse é o lugar de onde eu falo e é por isso que entendi que a minha experiência precisava se tornar algo maior do que eu.

O Vênus já se aproxima de 200 entrevistas e se consolidou como um espaço relevante de escuta feminina. O que mais te marcou nas conversas que você conduziu até agora? O que mais me marcou foi a conversa com a Marcella Maksoud. Ela levou 13 anos para ter um diagnóstico de endometriose, que é uma das doenças mais comuns na vida da mulher. Não é normal uma mulher sangrar 17 dias por mês, e ainda assim ela viveu assim por muitos anos. Ver como ela transformou essa dor em arte ocupou um lugar muito especial no meu coração. Também falar com médicos renomados e outras personalidades é sempre muito enriquecedor. Eu aprendo em todas as entrevistas. É muito especial estar do lado de cá, porque eu não tenho o compromisso de acertar — eu não sou da comunicação, não sou uma entrevistadora técnica. Eu sou uma mulher conversando com outras pessoas. É desse lugar humano que tudo acontece, e eu gosto muito do que eu faço.

Você fala abertamente sobre temas que por muito tempo foram considerados tabu, como menopausa, sexualidade e longevidade. Por que acredita que essas conversas são tão urgentes hoje? Eu acredito que a mulher precisa, antes de tudo, se conhecer. Por exemplo, você não chega em um bar que nunca foi e pede o seu drink preferido, porque você não sabe o que está disponível. Então, como esperar que outra pessoa saiba o que te satisfaz, se você mesma não sabe? Primeiro, a mulher precisa se perceber, se conhecer e desenvolver intimidade consigo mesma. Ninguém fala sobre sexualidade em todas as fases da vida, mas ela existe — na terceira, quarta ou quinta idade. Eu tenho esse tesão pela vida, essa energia gostosa de querer viver. Eu sou uma avó muito feliz nesse papel e acredito que precisamos falar sobre isso. Vida em abundância é viver todas as dimensões da vida, inclusive a vida sexual. Precisamos normalizar essas conversas.

O Vênus nasceu como um projeto autoral e hoje se tornou um ecossistema de conteúdo e impacto. Como foi, para você, assumir também o papel de empresária à frente desse movimento? Eu acredito que o papel de empresária sempre esteve em mim. Ainda na faculdade, eu já estava abrindo uma empresa. Montei uma das primeiras empresas de internação domiciliar no Brasil, quando isso ainda não existia. Essa veia empreendedora sempre fez parte da minha trajetória. Com o Vênus, isso se transformou de forma muito natural, a partir da necessidade e do contato com o público. Quando fiz o primeiro evento e percebi que precisava continuar conversando com essas mulheres, entendi que ali existia também um negócio. Foi muito natural assumir esse lugar e liderar esse movimento.

Você conversa diretamente com mulheres que estão repensando suas identidades, carreiras e futuros. Na sua visão, o que define a mulher contemporânea que está construindo essa nova narrativa? Eu acredito que cada geração teve suas prioridades. A minha avó queria que os filhos sobrevivessem e crescessem. A minha mãe queria que os filhos estudassem, e muitas mulheres da geração dela se esforçaram para isso. A minha geração quer que os filhos sejam felizes. Entender que a felicidade é algo acessível é uma grande conquista. Eu desejo que a minha filha passe pela menopausa de forma melhor do que eu passei. Todas as mulheres que nasceram com ovários vão passar por esse processo, e ninguém fala sobre isso. Existem três grandes marcos: a menstruação, a maternidade e a menopausa. Os dois primeiros são celebrados, mas a menopausa é invisibilizada e discriminada. Precisamos normalizar essa fase, porque ela não é o fim da vida — é apenas o fim da vida reprodutiva. E existe muita vida depois disso. É uma fase deliciosa, em que você se reconecta com você mesma. Eu costumo dizer que, depois disso, a gente só vai brincar no parquinho — e é muito bom.

Entre ciência, escuta e coragem, Renata de Paula transformou uma experiência solitária em um movimento coletivo. Sua voz ecoa hoje como uma ponte entre o desconhecimento e a autonomia, entre o medo e a compreensão. Ao criar um espaço onde mulheres podem finalmente nomear o que sentem — e entender que não estão sozinhas — ela redefine não apenas a forma como falamos sobre menopausa, mas a maneira como encaramos o próprio tempo. Em um mundo que sempre tentou silenciar o envelhecimento feminino, Renata escolheu transformá-lo em linguagem, consciência e potência.

Fotos Marcos Duarte 

Direção criativa e edição de moda Dudu Farias 

Maquiagem Henrique Martins 

Assistente fotografia Édson Florindo

Texto Fabiane Lima  Entrevista Fernando Luís Cardoso