Que ela é linda e ótima atriz, já é lugar comum dizer. Mas Alinne Moraes, ao longo do tempo, desde que surgiu em sua primeira na novela, “Coração de Estudante”, em 2002, vem numa eterna evolução, seja como atriz, seja como pessoa. Mesmo através da sua preocupação com o meio-ambiente ou das suas responsabilidades como mãe, Alinne continua sua trajetória se descobrindo e se desafiando. E no ano de 2020 não será diferente. Ela segue seu trabalho no teatro com a peça “Relâmpago Cifrado” e já se prepara para voltar à TV na novela “Em Seu Lugar”, próxima trama das 21h, que estreia em maio. Alinne é isso, uma obra em ebulição, uma força da natureza que sai transformando tudo por onde passa. Nesse ensaio, ela aparece plena e simplesmente bela para celebrar esse início de ano.

Se você fosse contar sua história para uma plateia de jovens que sonham com a carreira artística, o que não poderia faltar? É tudo tão interligado que não sei como faria pra separar por capítulos. Talvez eu precisasse de um editor pra me ajudar a separar e escolher (risos). Quando me descobri atriz, por exemplo, um mundo novo se mostrou pra mim e esse capítulo mudou minha vida porque, finalmente, tinha achado meu lugar.

A carreira de uma atriz é envolta em um glamour que nem sempre é real, mas uma construção de imagem do próprio público. Que tipo de desgaste você mais sofre durante a gravação de um filme, novela ou série? Sobre a construção da imagem, em especial, quando uma novela está no ar, o fascínio do público pela vida privada do artista parece aumentar, de acordo com o que a própria mídia segmentada produz de material. É quase como uma segunda novela que começa quando você sai do estúdio e passa a viver um personagem homônimo vida a fora. É preciso reconhecer que os ataques de paparazzi de anos atrás diminuiu muito com o crescimento das redes sociais. Hoje, uma pessoa que quer acompanhar a vida de uma “celebridade” vai fazer isso nos seus Instagrans, Facebooks, etc. O que mais me desgasta é a indústria que alimenta a ideia de que um artista comendo uma omelete na esquina é tão mais interessante que qualquer outra pessoa comendo uma omelete. Enfim, muito pelo contrário, não consigo pensar em algo mais entediante.

A publicidade acaba sendo um viés bastante rentável para atrizes e atores, quais critérios você mais leva em consideração na hora de “emprestar” seu nome para uma marca? Nem sempre eu decido pelo produto. Às vezes não se trata da marca em si, mas da própria campanha. Preciso ter o mínimo de identificação com a publicidade em questão. De vez em quando, vem um roteiro que eu não acho legal e temos que negociar. Eventualmente, você tem que descansar sua imagem também. Acho necessário para um ator.

Em seu mais recente trabalho na TV, sua personagem Izabel, na novela Espelho da Vida, não media esforços para ter o que queria e tão pouco respeitava as pessoas, passando por cima de quem quer que fosse. Infelizmente, esse é um retrato muito atual de boa parte da nossa sociedade. Até onde somos frutos do meio e até que ponto a educação em casa tem falhado? O entendimento de que, uma parte da sociedade, como você disse, é de que as regras do jogo estão aí pra se atropelar. É só reparar na quantidade de vezes que a Constituição e o Estado de direito foram pisoteados nos últimos anos e com o reconhecimento de gente que, na realidade, deveria protegê-los. E esse é sim o retrato atual onde não se mede esforços pra conseguir o que se quer, sem respeito e passando por cima de tudo.


Mãe e mercado de trabalho é um tema sempre em voga. Você tem uma profissão onde rotina não é bem a principal característica, como concilia a maternidade durante períodos longos de gravação? Não é a tarefa mais fácil do mundo. Demanda muita energia extra. Gravo ao longo do dia, chego em casa com filho pequeno e ainda decoro as cenas para o dia seguinte. Mas sempre tento também encaixar uma reunião de pais, academia, um dentista, um cineminha. (risos)

Ainda sobre maternidade, há um senso comum de que toda mulher nasce para ser mãe, é extremamente comum essa cobrança. Qual sua opinião a esse respeito e como se deu sua escolha de ser mãe, houve alguma dúvida ou era algo sempre desejado? Não houve dúvida, eu queria ser mãe. Ainda assim, não acho que o senso comum deva ser regra pra uma escolha que é do indivíduo. Há mulheres que não querem ter filhos e suas razões não são, necessariamente, menos nobres.

No segundo semestre do próximo ano você volta às novelas com “Em Seu Lugar”. Como anda a preparação para o novo personagem? Temos vários capítulos escritos e estou contando com um prazo razoável para entrar na personagem. Como estou em cartaz no teatro, vou deixar para mergulhar na personagem a partir de janeiro.

Por sinal, fala-se muito que você irá contracenar com Cauã Reymond. Pelo jeito está intrigando mais os outros do que a você não acha? Como encara isso? É tudo muito raso e previsível. Como disse, existe um público que gosta de imaginar que a novela possa transcender a ficção e sair das portas do estúdio pra o mundo real. E também existe gente que gosta de vender assuntos pra esse público. Muitos dos que trabalham com esse segmento gostam de usar signos bem óbvios e de identificação simplória. É tão simples quanto bobo.

Que desafios traz um novo personagem? O que você busca como atriz?  Quanto mais distante de você, maior o desafio. Nesse ponto, não tenho muito o que reclamar. Tenho feito personagens muito distintos uns dos outros. Isso é muito bom para o trabalho do ator, principalmente quando surge uma sinopse, um argumento, um texto que você bate o olho e diz “Nossa! Não tem nada a ver comigo!”

Toda estreia é como se fosse a primeira vez (risos)? É (risos).

Vida pública, beleza, carreira artística, mulher. Como lida com essas conexões, cobranças sociais e escolhas pessoais? É uma equação complicada, sobretudo para as mulheres. É necessário pensar qual a importância real de uma cobrança social e, afinal de contas, qual o sentido dela.

Até onde você vai para compor uma personagem? Seu corpo está disponível para qualquer necessidade de mudança, seja drástica ou não? Nunca precisei engordar, emagrecer demais, raspar o cabelo… O máximo que tive que fazer foi cortar, alongar e mudar a cor… Coisas bobas. Mas, dependendo do personagem e da obra, se me envolver, não vejo porque não avaliar esse tipo de possibilidade.

Como você se descreveria em relação à vaidade, à espiritualidade e a preconceitos? Tentei fazer uma regra de três com esses conceitos, mas o resultado foi um ser que eu espero que não seja a minha pessoa (risos).


Você é bem engajada nas causas ambientais e se posiciona com firmeza. O que falta pra essa causa ser abraçada por todos? Como conscientizar as pessoas em meio a tantas fake news e posturas irresponsáveis de representantes governamentais? O problema da causa ambiental, em si, é soar abrangente demais se não for discutida na raiz de todas as suas questões. Parece que todo mundo é consciente. É difícil demais pra mim entender como alguém começa uma discussão sobre o meio ambiente e a encerra no próprio delito que quer combater. Como se o crime de cortar uma árvore pudesse começar e terminar no analfabeto infeliz que foi contratado pra essa tarefa. Afinal, esse indivíduo nem tem consciência de que é um cidadão e que tem direitos básicos. Ele não tem estudo, mas a televisão fala de “mercado” com ele como se a economia estivesse à frente da sociedade. Espera-se uma consciência ecológica de alguém que não teve os direitos básicos, o que é ridículo e perverso. Se você se permite um mínimo de aprofundamento no tema do meio ambiente, vai entender que essa é uma pauta política, além de ecológica mas, de um modo geral, o senso comum gosta de parar a discussão por aí.

Quais hábitos do nosso dia-a-dia podem ser mudados em prol do meio-ambiente? Na rotina, são inúmeros. Consumo consciente, coleta de lixo adequada, privilegiar empresas que trabalham com sustentabilidade… Mas é preciso entender a raiz dos problemas.

Talentosa, linda e plena, compartilha com as nossas leitoras algumas dicas (risos)? Eita! Eu acho que qualquer resposta vai parecer meio arrogante. Até porque sou muito autocrítica pra concordar com isso tudo (risos). Mas obrigada pelos elogios!

A vida a dois tem suas dores e flores, mas algumas atitudes dos parceiros acabam minando o amor, o respeito, a cumplicidade…O que tira seu brilho no olho em um relacionamento? O que causa sorriso no rosto? E o que te seduz? Acho que quem lida com o casamento como se fosse uma empresa, um negócio que precisa apresentar resultados positivos o tempo todo, já começa errado.

Empoderamento feminino, qual sua visão sobre o assunto e como acha que os homens encaram essa força? Super necessário! Acho que o homem ainda não se acostumou com o fato de que tantos anos de opressão criaram uma estrutura que não é indestrutível. Agora começam a ter que se acostumar com a mudança nessa relação de forças. Os mais inteligentes e justos se dispõe a isso, mas uma grande maioria está aí, esperneando em vão.

Enquanto a rotina de gravações não começar, o que faz para relaxar? Onde recarrega suas baterias? Recarrego minha energia em casa com a família, tento me divertir, ao máximo, nos tempos livres. Vou ao teatro, cinema, gosto de comer bem, tomar um vinho, ouvir uma boa música, e danço, danço muito, todos os dias.

Você está em cartaz no Rio com a peça “Relâmpago Cifrado” ao lado da Ana Beatriz Nogueira. Como é essa parceria no palco depois de já terem interpretado mãe e filha em “Além do Tempo”. Trabalhar com a Ana é sempre um aprendizado, além de uma experiência prazerosa. Aprendo e me divirto. Me sinto muito à vontade nessa condição de fã e colega ao mesmo tempo.

Fora a novela o que esperar para 2020? A novela me ocupará até perto do fim do ano. Até lá, é nisso que estarei mergulhada. Mas, enfim, novas coisas podem aparecer no caminho.

Por Nadezhda Bezerra

Fotos Vinícius Mochizuki

Edição De Moda Ale Duprat para Capa IMG

Produção Executiva Márcia Dornelles

Alinne Moraes veste Look 1: Body Haight (@haight_clothing) / Look 2: Body Animale (@animalebrasil), calça Bobô (@bobonews), joias Joyá Ipanema (@joyaipanema), sandália Louboutin (@louboutinworld)