A força e a batalha pela felicidade de um filho foi um dos motivos que a atriz e produtora Fernanda Thurann a aceita o papel de mãe de Rogéria no docudrama sobre a vida da artista. A mesma força e batalha que Fernanda encontra para seguir com seus projetos no cinema. Batalha essa que tem rendido belos frutos tanto no cinema, como a recente indicação do filme “Cabrito” no festival de Roma, e também o reconhecimento do público e crítica com a peça “Dogville” no qual atua como atriz e que retorna aos palcos cariocas e paulistas. Fernanda é cria do cinema e um belo exemplo da força que a sétima arte pode exercer no grande público.

Fernanda, como surgiu o convite para participar do docudrama “Rogéria – Senhor Astolfo Barroso Pinto”, sobre a vida do travesti Rogéria? O convite veio do diretor Pedro Gui. Ele e a Rogéria moravam no bairro do Leme e o Pedro acabou se tornando um grande amigo e admirador dela. Quando o Pedro veio me procurar, logo após Rogéria ter falecido, me contou da amizade deles, do ser humano incrível que ela era e da vontade de homenageá-la.

O que te chamou atenção durante o processo de filmagem e o que mudou em você diante desse contato com a vida de Rogéria? A trajetória artística de Rogéria, sua transformação como travesti, o preconceito que enfrentava nas ruas, sua carreira como maquiadora na TV Rio (onde trabalhou com grandes artistas da época), a sua paixão pelos palcos e do desenvolvimento da personalidade da Rogéria. A constante luta entre ela e seu alter ego, Astolfo. Rogéria tem uma energia incrível e seu carinho ainda se faz presente nos artistas com quem trabalhou. Acho que a liberdade que ela tinha de ser ela mesma é algo que me fez repensar o que eu entendia por liberdade.

Interpretar a mãe de Rogéria traz que desafios para você como atriz e produtora? E como cidadã muda a visão da realidade? Sou muito grata por ter podido interpretar Dona Eloá. Ser mãe – e mãe orgulhosa – de um filho LGBTQ+ naquela época era um ato de coragem. Ela tinha tanto carinho e admiração pelo Astolfo e seus sonhos que caminhava ao seu lado de cabeça erguida e proporcionava tudo que estava no seu alcance para ajudar seu filho. A preocupação dela era que Astolfo fosse feliz. Acredito que o desafio tenha sido encontrar esse misto de amor, coragem e força dessa mulher/mãe que acredito tenha transbordado para Rogéria e dado a ela toda força para ser o que o coração dela pedisse. Mais que mudar acho que reforça a visão de que o amor e a aceitação são os melhores alicerces para se tornar um ser humano íntegro.

Falando em cinema, o filme “Cabrito”, no qual você atua e produz foi indicado no festival de Roma. Como recebeu a notícia e que importância tem para você? Fiquei muito feliz, na verdade na mesma semana tivemos a resposta do Festival de Roma e do Rio de Janeiro, Fantastik Festival que ocorrerá entre 25/11 e 1/12 no Cine Joia. A temporada de festivais é muito importante para a consolidação do filme como uma obra de qualidade, chancelada por profissionais e artistas do cinema nacional e internacional, o que pode dar um outro fôlego para quando estrear nos cinemas. É um gênero ainda pouco explorado no Brasil mas que acredito ter um grande público.

No teatro você está em cartaz em Brasília, no CCBB até final de novembro com o espetáculo, Dogville. É uma história mais densa. Prefere personagens com esse perfil? Onde você se sente mais confortável? Cada personagem é tão único e te ensina tanto que não consigo preferir um ou outro. São oportunidades de descobrir vieses diferentes dentro de si. Mas diria que a comédia é um lugar menos confortável, ainda não tive oportunidade de me embrenhar em um personagem cômico.

Teatro, cinema ou TV. O que te atrai mais? Sou atraída por todos, apesar se ter tido pouca experiência na Tv. O teatro me encanta pela questão do processo de ensaio, pela experimentação quase artesanal. Além disso, o contato com o público é imediato, você pulsa com o espectador. Troca com ele. Uma performance é sempre diferente da outra. Viva. Por outro lado existe no cinema toda uma magia. Se preciso, repete-se uma cena 10,20 vezes até se ter o plano ideal; a proximidade da câmera que capta com profundidade o sentimento através de um simples olhar; a surpresa de ver uma cena ganhar outras proporções após a edição, da sonorização, de todo o trabalho de pós que complementa o trabalho do ator. Enquanto o teatro te possibilita comunicar com o corpo todo e expandir o cinema te ensina a conter e comunicar no olhar.

Como se descobriu atriz? E como veio a parte da produtora? Como foi esse processo de desenvolvimento? O teatro surgiu na minha vida por acaso.  Eu sempre fui muito tímida, tinha dificuldades até para pedir informação a pessoas estranhas, para você ter uma ideia. Logo que entrei na faculdade de Direito, meu pai vivia dizendo que eu precisava aprender a falar mais, a me soltar mais e sugeriu o teatro como uma possível solução para esse meu bloqueio. Comecei fazendo teatro em Curitiba e na primeira peça que montamos eu entendi que havia finalmente encontrado o que queria fazer. Depois de um ano e meio, me mudei para NY para estudar no The Lee Strasberg Theatre and Film Institute, me formei por lá, trabalhei 1 ano até decidir voltar e me estabelecer no Rio. Como não conhecia ninguém então fui para CAL onde conheci minha atual sócia Monique Deboutteville, juntas entendemos que ao invés de esperar deveríamos criar nossas oportunidades e assim começamos a produzir. No início era produzir apenas para poder estar no palco, mas com o tempo fui aprendendo a gostar dessa parte também. Depois de produzir algumas peças, me reuni com um grupo de amigos e resolvemos fazer um curta, a paixão foi tanta que o cinema entrou de vez na minha vida, não só como atriz mas como produtora também. Fazendo e aprendendo.

Qual a vaidade do ator? Difícil generalizar, mas acredito que a necessidade da escuta, do olhar do outro, da aprovação. A arte é feita para o outro, se não perde o sentido.

Falando em TV, fazer novela faz parte dos planos em algum momento? Com certeza! Fiz uma pequena participação em Malhação há alguns anos e foi muito bacana.  Ainda quero experimentar mais a arte dentro da rapidez da TV. É um processo bastante diferente do teatro e do cinema em termos de tempo.

Como anda o público de teatro e cinema? O que tem mudado? Acredito que tanto o teatro como o cinema jamais perderão seu lugar. Mas o público está mudado, tanto pela questão econômica como pelas novas maneiras de se consumir arte/ entretenimento. É muito mais barato e pratico você ligar a TV na hora que quiser e escolher um filme dentro de casa e infelizmente isso diminui bastante a ida ao cinema. Já o teatro sinto que muda dependendo da região, em SP por exemplo tivemos uma temporada lotada, as pessoas tem o hábito de ir ao teatro, aqui em Brasília também estamos tendo uma resposta incrível do público não só pela casa cheia mas pelo envolvimento deles com a história. Já no RJ penso que esse hábito está um pouco enferrujado, talvez por ser uma cidade q te convida a estar ao ar livre, diminua a vontade das pessoas de irem ao teatro.

Pela arte vale tudo? Não. Vale quase tudo. Mas acredito que alguns limites devem ser respeitados. Todos temos nossos limites e a ferramenta do ator é seu corpo e isso precisa ser respeitado. O limite individual precisa ser respeitado.

O que te conquista? Uma boa história. Quando algo me leva a refletir sobre algo que já conheço, porém consigo ver outros ângulos, ter diferentes pontos de vista e rever toda uma estrutura de pensamento.

O que vem por aí em 2020? No teatro ainda pretendemos fazer mais uma temporada de Dogville em SP e no RJ. E vou estrear meu monólogo “Encantados do Sossego”, uma história sobre a Amazônia e suas lendas. No cinema o longa “Cabrito” que começará agora em novembro sua carreira em Festivais, no Optical Festival em Roma será distribuído pela Elo Company ano que vem. Ainda temos outro documentário em fase de produção, chamado “Quero me curar de mim” e em pré-produção a comédia “Operação Coyote” com o Leandro Hassum. Muitas novidades em 2020.