ESTRELA: LARISSA GÓES VIVE OS DRAMAS DO CANGAÇO EM “GUERREIROS DO SOL”

Festejando 20 anos de carreira, Larissa Góes (@larissa.goes) está no elenco de “Guerreiros do Sol”, no Globoplay, onde dá vida a Petúnia, uma moça romântica que tem sua vida atravessada pelo cangaço quando se apaixona perdidamente por um cangaceiro de nome Sabiá. Mas essa cearense de 30 anos não para, atualmente está em processo de gravação de sua participação na 3a temporada de “Os outros”, do Globoplay, Larissa também atua no espetáculo “Medalha de Ouro”, que investiga experiências cotidianas do ofício de ser atriz, inspirado na trajetória de algumas atrizes cearenses vivas. Ela ainda aguarda o lançamento da série “Alucinação” para o Canal Brasil e Globoplay, sobre a vida do cantor Belchior. Nesse projeto, ela interpreta Téti Rogério, cantora cearense que participou do grupo musical “Pessoal do Ceará”.

Larissa Goes ganhou projeção nacional em 2016 ao estrelar a primeira fase da novela “Velho Chico”, na Globo. Em 2023, ela protagonizou a 3ª temporada de “Cine Holliúdy”, quando foi nossa capa pela 1ª vez, também na Globo, na pele de uma cantora e dançarina de forró Rosalinda. Em seu currículo ainda constam diversas séries como “Meninas de Benfica”, na Globoplay, e “O Cangaceiro do Futuro”, da Netflix. E no teatro, Larissa já esteve em espetáculos como “Ceará Show”, de Silvio Guindane, e “Barracal”. Já no cinema, fez longas os “Quando eu me encontrar” e o elogiado “Cabeça de Nêgo”.

Larissa Góes você está no elenco da já aclamada novela “Guerreiros do sol”, do Globoplay, dando vida à uma jovem que entra para o violento cangaço por amor. Como foi compor essa personagem com tantas possibilidades? A maneira como desenvolvo a composição das personagens varia muito de acordo com a obra, com a linguagem, com o tema e com os acasos que me atravessam durante a feitura. Não penso em personagem pronta, porque acho que a vida é gerúndio, e a Petúnia estava em construção até a última cena gravada. Acredito até que o trabalho de pós e a recepção do público também são grandes fatores de construção de personagem. Dentro dessa complexidade de elaboração eu abro escuta e me permito sentir o modo como a personagem me chega. A Petúnia reverbera em mim muito amor, muita beleza desde a minha primeira leitura do roteiro. A narrativa pela qual ela atravessa e as relações com os demais parceiros de cena conduzem muito a descoberta de novas camadas de sua personalidade, além das dúvidas, da suspensão, da incerteza que deixam lacunas também necessárias em sua composição.

“Guerreiros do Sol”, inclusive, faz uma mescla maravilhosa entre artistas renomados e novatos no elenco. Como foi essa troca dentro e fora dos sets? Modéstia à parte acho que a escalação do elenco foi uma das escolhas mais acertadas da novela e dou muitos créditos pra Márcia Andrade, produtora de elenco de “Guerreiros do Sol”. Os atores já com mais experiência, tanto da TV quanto do teatro e do cinema, não deixaram que isso fosse maior do que a troca de cena com quem quer que fosse e, em contrapartida, os atores mais estreantes, que estavam em seu primeiro trabalho de maior projeção também não deixaram a desejar. Percebi isso durante o período de filmagens, mas hoje, assistindo aos episódios, vendo pela primeira vez os núcleos com os quais minha personagem não teve ligação direta, percebo o quanto há uma harmonia, uma unidade, onde ninguém deixa a peteca cair. 

Fora do set também presenciei relações muito bonitas se formando, de pessoas que se importam umas com as outras. É um elenco enorme, são muitos núcleos ativos e uma dramaturgia complexa, então realizar este encontro de grandes artistas não é tarefa fácil. Isso me enche de orgulho e mostra pra muita gente que o Nordeste, de onde forma a maior parte do elenco da novela, não por acaso, esbanja sua excelência no fazer artístico e que não é de quantidade de seguidores (Instagram) que se faz uma boa obra.

Você foi capa da MENSCH em 2023 quando protagonizou a terceira temporada da série “Cine Holliúdi”, da Globo. O que esse trabalho te trouxe? E o que mudou na sua vida após estrelar uma produção na Globo? Sou muito grata por este trabalho. Foi o meu primeiro de maior projeção na empresa e onde eu aprendi muito. Acredito que muita gente teve o primeiro acesso ao meu trabalho através de Cine Holliúdy. A exigência era maior e a exposição também, mas o saldo foi bastante positivo. Tive a oportunidade de atuar em um gênero que não me é habitual que é a comédia em um tom farsesco e isso tornou ainda maior o meu desafio, mas me assisto com generosidade e compreendo que as ranhuras também compõem o meu trabalho e minha formação.

Larissa Goes estreou na TV há nove anos numa participação em “Velho Chico”. Desde então, temos visto cada vez mais artistas nordestinos ganhando oportunidades nas artes e tramas nordestinas servindo de pano de fundo pra diversas produções. Como é poder levar representatividade para o público? De onde eu venho eu vejo tanta gente boa, vejo tanta competência e poesia que sempre achei uma grande perda pra produções que não enxergavam ou ainda não enxergam isso, principalmente pras obras que se situam na região. Nossa história a gente conta como ninguém. Assistir a artistas nordestinos ocupando espaços de honraria cada vez maiores é inspirador, mas é também reconhecer que estão assumindo nada mais do que seus devidos lugares, que a descentralização é necessária e está atrasada.

Aliás, você é cearense e filha de uma empregada doméstica e de um segurança. Diante dessa conjuntura, quando acreditou que poderia viver de arte? Já cogitou desistir? Talvez se eu tivesse pensado desde cedo que viveria disso, teria perdido o frescor da descoberta e dado vazão à pressão sobre o bom desempenho, o que pra mim pode destruir ou, no mínimo, atrasar uma formação artística que é tão subjetiva. Dentro da minha realidade, eu sequer entendia a necessidade da arte como ferramenta social, econômica e estrutural do indivíduo, então minhas demandas individuais não incluíam o fazer artístico. Não era algo que eu sempre quis fazer porque não me foi ensinada a importância da arte. Passei a ir ao teatro somente depois que comecei a fazer teatro, o que ocorreu em razão de um primeiro acesso, um curso gratuito no bairro onde eu morava. Se não houvesse este curso, se não fosse gratuito ou se não fosse no bairro onde eu morava, certamente eu não teria iniciado. Uma sucessão de bons acontecimentos me levaram a este caminho, mas ainda assim demorei pra conceber que esta seria a minha trajetória de vida. Eu não cogitava desistência porque eu sequer acreditava que poderia ser minha profissão. Quando concluí o ensino médio, iniciei uma graduação em fisioterapia, achava que o teatro sempre poderia estar presente, mas paralelamente a algo que de fato me “sustentasse”. Isso me abatia sem eu perceber. Acho que um dos maiores atos de coragem que tive até hoje foi o de, depois de entender que é sim uma possibilidade, aos 20 anos de idade, assumir a carreira artística e investir toda a minha energia pra que ela fosse minha única via de sustento.

Recentemente, você viveu Dolores Duran no musical “Território do amor”, que passou por SP e pelo Rio. O que aprendeu ao interpretar uma das mulheres negras mais importantes da cultura do Brasil? Dolores e sua genialidade me conquistaram muito antes do musical. Ouvia suas músicas por influência da minha família e as trago comigo desde então. Estudei mais afundo sua história para o espetáculo e me impressiono com a habilidade que ela tinha de decifrar um sentimento e transformar em música, sendo uma das precursoras no ramo da composição musical do país, um espaço tão dominado por homens. Sua coragem, perspicácia e sensibilidade a fizeram atravessar isso de maneira tão leve e solar que ela jamais passaria despercebida, mesmo tendo tido breve período de vida, nos deixando aos 29 anos. Ao ler e ouvir suas histórias eu ficava cada vez mais encantada com o modo como ela encarava a vida. Seu problema no coração a fez saber desde muito jovem que ela deveria tomar determinados cuidados pois a ameaça de morte era constante, mas isso ao invés de forçá-la a viver em cautela, a fez querer viver a intensidade da vida e dos sentimentos sem perder a radiância do seu sorriso. Isso pra mim é inspirador e ter a honra de compor esta figura em cena me emociona fortemente.

Com apenas 30 anos de idade, você já tem 20 de carreira. Que avaliação faz dessa trajetória? É curioso pensar que se passaram 20 anos desde que comecei na área artística. É algo que me deixa tão viva, que se torna maior do que um trabalho, uma carreira, e acabo por não perceber o tempo que demarca isso, já que é muito atrelado ao que eu sou, com vulnerabilidades, com faltas, descobertas, realizações e com tudo o mais que me constitui enquanto ser. Sou grata por este caminho ter me encontrado lá atrás, sem pretensão alguma, e desta forma tomou proporções irreversíveis.

Como você define o sucesso? A ideia de sucesso pra mim é atrelada a muita coisa, inclusive ao fracasso. Costumo dizer que existe muito fracasso dentro do sucesso e muito sucesso dentro de um fracasso. Não consigo ver os dois termos de forma singular, principalmente quando se trata de algo tão subjetivo quanto a arte. Já enfrentei crises de exaustão enquanto estava fazendo minha primeira protagonista numa série em Fortaleza, que exigiu muito de mim e hoje sou muito feliz com o resultado do trabalho e com as relações que se consolidaram através dele, já passei por dificuldades financeiras e afetivas enquanto meu trabalho estava sendo muito bem apontado e elogiado. Ao mesmo tempo já vivi momentos tão ricos e inesquecíveis enquanto estava em um hiato de trabalhos, coisa que desestabiliza qualquer artista independente. Então tudo aquilo que me deixa viva, pulsante, dentro e fora do meu trabalho, faz parte de um sucesso. 

Escolher a carreira artística é um ato diário, é uma relação arbitrária e difícil que se constrói, principalmente no contexto sócio-político no qual estou inserida, então pra mim sucesso é poder fracassar e ainda assim ter a certeza de que vou continuar seguindo com a minha escolha porque não consigo me ver fazendo outra coisa.

O que falta/o que sonha realizar? Quero muito fazer trabalhos em culturas diferentes da minha, fora do país ou mesmo do continente.

Já temos novos trabalhos em vista? Bem, em setembro o filme “A Praia do Fim do Mundo”, de Petrus Cariry ganha as telonas; A série “Alucinação”, que fala da vida de Belchior e na qual eu faço a cantora cearense Téti Rogério, também terá data de lançamento na Globoplay logo mais. Além desses lançamentos, no semestre que vem, também em setembro, volto com novas apresentações do espetáculo “Medalha de Ouro”, que fala da trajetória de algumas atrizes cearenses vivas. Além do espetáculo, darei início às gravações de um documentário que será rodado em Fortaleza e que vai exigir de mim um bom condicionamento físico, por enquanto é isso que posso dizer (risos).

Foto Igor Reis (@igorreis)
Styling Cacau Francisco (@cacaufrancisco) e Anuro (@anuroanuro)
Beleza Marília Martins (@marilia_martins_)

Assessoria @natashasteinassessoria