ESTILO: ÓCULOS – O ACESSÓRIO QUE REESCREVEU O DRESS CODE MASCULINO NO TAPETE VERMELHO

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Por Ivan Reis

Há tempos, os acessórios vêm se destacando nas produções masculinas. As transformações de estilo incluem, além das silhuetas e das proporções, a sutileza dos itens que acrescentam personalidade e intenção ao visual. Na reconfiguração e no posicionamento da face, os óculos deixam de ser um apêndice funcional e assumem um papel estrutural na construção da imagem do homem contemporâneo. 

Nos rostos de famosos, cores, formatos e texturas de óculos já marcaram presença em noites de gala. Em meio às produções elegantes, sóbrias e clássicas, as armações e suas variantes assumem protagonismo, complementam looks e revelam novos e sofisticados contornos de estilo.

Com esse espírito, investigamos como os óculos marcaram presença na última edição do Oscar e como o acessório reescreve o dress code de gala, um dos mais formais e refinados do guarda-roupa masculino.

PERTO DOS OLHOS

Na reconfiguração do estilo do homem contemporâneo, os óculos já se destacam. Atento aos detalhes, o item é capaz de protagonizar produções memoráveis – do cotidiano corporativo ao tapete vermelho.

No campo do visagismo, disciplina que estuda a harmonia estética, essa centralidade não é casual. O rosto é o território privilegiado da leitura identitária — é onde se concentram expressão, intenção e reconhecimento. Ao ocupar esse espaço, os óculos reconfiguram a própria fisionomia: ampliam, suavizam, tensionam ou organizam traços. Mais do que enquadrar o olhar, o acessório reescreve a narrativa visual de quem o adota. 

Para o especialista em eyewear masculino Guilherme Breno, o uso do item é carregado de sentidos. “Os acessórios existem para dar contexto e intenção ao look, e os óculos, dentro desse universo, deixaram de ser coadjuvantes. Como ficam posicionados no ponto focal do rosto, o lugar onde transmitimos nossas emoções e presença, eles se tornaram protagonistas na construção da imagem masculina contemporânea”, explicou ele.

Com a mudança de estatuto, há uma sofisticação maior no processo de escolha. Se antes os óculos eram pensados sob a lógica da neutralidade – o famoso “combinar com tudo” -, hoje operam sob a lógica da intenção no visual. Eles não apenas acompanham o look; eles o direcionam. “Para o homem moderno, os óculos funcionam como peça-chave: definem o tom de uma ocasião, reforçam o posicionamento estético e comunicam diferenciação e repertório”, afirmou Guilherme Breno.

Nesse ponto, entram os princípios do visagismo: linhas, proporções, materiais e cores deixam de ser atributos isolados e passam a funcionar como signos coordenados na visualidade. Linhas retas estruturam e conferem autoridade; curvas suavizam e sugerem acessibilidade. Materiais densos, como o acetato, imprimem presença; metais refinados transmitem discrição elegante. A cor também atua na integração ou no contraste e sempre em diálogo com o tom de pele, o cabelo e o conjunto da produção. Nesse novo regime visual, os óculos transitam entre função, estética e discurso e se consolidam como um dos elementos mais estratégicos do guarda-roupa.

RED CARPET E A NOVA ELEGÂNCIA MASCULINA

Se o cotidiano sinaliza uma transformação, a última edição do Oscar a consolidou em escala global. O tapete vermelho, historicamente regido por códigos rígidos de elegância masculina e dominado por alfaiataria, por uma paleta de cores sóbria, com variações discretas, abriu espaço para uma intervenção calculada. No red carpet, os óculos operam como elemento de diferenciação estética.

Em meio aos flashes e às produções elegantes, não há exuberância gratuita ou descolada do contexto. Entre os nomes que adotaram os óculos na noite de gala, o que se observou foi um uso altamente consciente. O especialista Guilherme Breno identificou um ponto-chave entre os itens escolhidos pelos famosos. “O que se repetiu foi a harmonia entre a tonalidade das armações ou lentes e o traje, reforçando a proposta do look sem concorrer com ele. Predominaram peças em acetato bold de alta qualidade, em tons mais sóbrios e escuros, criando contraste calculado com o tom de pele e garantindo presença sem excesso”, detalhou o profissional.

CÓDIGOS, ESTILOS E PERSONALIDADES

Wagner Moura

Para a noite mais concorrida do cinema mundial, o ator brasileiro operou no campo da precisão clássica. “Wagner Moura apostou na sofisticação segura da Tom Ford: preto, alinhado ao look e em contraste elegante com barba, cabelo e pele”, disse Guilherme Breno. O resultado é um equilíbrio de alto rigor: sobriedade com densidade visual.

Kleber Mendonça Filho 

O diretor brasileiro investiu na força do arquétipo de um estilo reconhecido com facilidade. “Kleber Mendonça Filho reforçou a expressão com a força atemporal de um clássico da Ray-Ban”, disse Guilherme. O estilo evidencia como a armação pode atuar como recurso de rejuvenescimento simbólico ao estruturar o olhar.

Anthony Paul Kelly 

A estrela da série ‘Love Story’ trouxe o modelo adotado para um jogo mais autoral. O especialista em eyewear masculino afirma que o ator “equilibrou o clássico com personalidade: acetato bold com frontal em marrom degradê”. Há uma referência ao imaginário Clark Kent como construção de identidade.

Pedro Pascal

O ator tensionou um repertório de armações vintage com leveza para a harmonia visual. “Linhas arredondadas, acabamento sofisticado, com um ar contemplativo”, uma escolha que suaviza traços e projeta intelectualidade sem rigidez, explicou o especialista em óculos masculinos.

Timothée Chalamet

O jovem ator rompeu com os códigos tradicionais do tapete vermelho e, mais uma vez, marcou presença. “Rompeu padrões com atitude e assinatura própria, com modelo solar de lentes escuras e um DNA gótico”, afirmou Guilherme Breno. Os óculos deixam de ser complemento para se tornar o epicentro, quase um manifesto estético.

Michael B. Jordan

Sempre destaque nos tapetes vermelhos mais concorridos do mundo, o ator não poderia deixar de ser um dos pontos mais altos da noite. “Elevou o conjunto com precisão cirúrgica [com um] modelo TK-13, da [marca] Oliver Peoples com lentes cosméticas laranjas personalizadas especialmente para a noite do Oscar”, detalhou Guilherme Breno. O acessório opera em sintonia cromática com o styling, um exercício de integração visual de alto nível.

Jack O’Connell 

O ator optou pela ousadia controlada e, essencialmente, estratégica de seu novo trabalho. “Apostou na ousadia geométrica […] com lentes totalmente escuras, em linhas mistas dando um ar de mistério”, explicou o especialista. Rebeldia e rigor foram as palavras de ordem. 

DE OLHO!

Entre as opções do mercado, os óculos são itens capazes de se adaptar ao estilo, ao formato do rosto e a outras características visuais. Se, no tapete vermelho, o item já aponta caminhos e tendências de uso, o visagismo traduz esses códigos para o cotidiano. 

A escolha dos óculos ideais não é intuitiva, mas estratégica. Para o especialista em eyewear masculino Guilherme Breno, o acessório pode ser observado em três eixos: formato, material e cor. Para o profissional, “antes de escolher o modelo, entenda a mensagem que deseja transmitir. Linhas retas comunicam autoridade e segurança; formas arredondadas trazem leveza, intelectualidade e jovialidade”. É preciso observar, também, o material do qual é feito o item. “Para mais impacto, o acetato premium é soberano. Para discrição e elegância, titânio e metais nobres são escolhas perfeitas”, disse ele. De forma decisiva e atrelada ao estilo pessoal, a cor também não pode ser subestimada. “O azul-marinho é o mais versátil […]; o preto nem sempre é neutro: pode se sobressair mais do que o esperado”, detalhou o especialista. Por fim, a proporção, ponto mais técnico, também atua no conjunto, para um visual coerente. “As armações devem acompanhar as sobrancelhas […]; a ponte deve encaixar no nariz, não apenas repousar sobre ele”, explicou.

Historicamente associados ao campo da intelectualidade, ao universo introspectivo e ao técnico, os óculos ampliam o espectro das masculinidades e de suas formas de expressão. Surge uma elegância que não se ancora apenas na imponência, mas também na ideia de repertório, reflexão e identidade.  Os óculos não apenas acompanharam o traje — eles o redefiniram. Entre técnica e expressão, consolidaram-se como o acessório mais eloquente do vocabulário masculino. Um detalhe, mas, definitivamente, o mais decisivo para um visual coerente, intencional e, acima de tudo, com força de discurso.