ESTRELA: NIKOLLY FERNANDES DIRETO DO REINO DE BATANGA

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Nikolly Fernandes vive um daqueles momentos que costumam marcar definitivamente a trajetória de um artista. Depois de chamar atenção em Dona de Mim, a atriz emenda um novo desafio em A Nobreza do Amor, consolidando uma fase de ascensão construída com talento, preparo e um forte compromisso com a representatividade. Mais do que interpretar personagens, ela tem encontrado papéis que dialogam diretamente com sua identidade, sua ancestralidade e o desejo de ampliar os espaços de protagonismo para mulheres negras na televisão brasileira. Nesta entrevista à MENSCH, Nikolly fala sobre a emoção de viver duas personagens tão distintas em sequência, o impacto transformador de Stéphanie e Kênia em sua vida, a importância de contar histórias que resgatam a riqueza da cultura africana e como a arte, presente desde a infância, se tornou não apenas uma profissão, mas também uma ferramenta de transformação, pertencimento e inspiração para novas gerações.

Você estreou recentemente em Dona de Mim e já está no ar em A Nobreza do Amor. Como tem sido viver dois momentos tão importantes da carreira em sequência? A conquista do papel em Dona de Mim foi uma grande surpresa. Eu estava no teatro, estudando com meus amigos de palco, quando surgiu a oportunidade de fazer esse teste. Eu já vinha fazendo alguns testes na TV Globo, e foi aí que apareceu a chance de disputar os papéis de Stéphanie e Dara. Fiz apenas uma audição e fui informada pelo diretor de elenco de que seria chamada para um callback. Como os meses passaram sem qualquer retorno, acabei acreditando que o papel não viria. No entanto, fui surpreendida com uma ligação informando que a decisão final estava entre mim e outra candidata. Poucos dias depois, enquanto ensaiava como passista da Mangueira recebi a notícia de que havia sido a escolhida.

Durante minha formação como atriz, eu sempre pedia aos professores personagens que explorassem a sensibilidade e a fragilidade. Por ser uma mulher negra, fui criada em um ambiente que muitas vezes nos ensina a esconder essas características e a demonstrar apenas força. Interpretar a Stéphanie foi um desafio transformador porque ela me permitiu acessar camadas de vulnerabilidade que eu costumava reprimir. Hoje, consigo acolher os meus momentos de sensibilidade com muito mais carinho, entendendo que eles também fazem parte de quem eu sou.

Ainda durante as gravações da novela, li a sinopse de Nobreza do Amor e fiquei fascinada. Naquele momento, eu conversava com meus agentes sobre os próximos passos da minha carreira e tinha dois pilares inegociáveis: ancestralidade e representatividade. Eu queria honrar as gerações que vieram antes de mim por meio do meu posicionamento, da minha imagem, do meu cabelo e da minha estética, além de abrir caminhos para as gerações que ainda virão.

Por isso, fazia questão de incorporar elementos de forte significado cultural, como as tranças nagô, os cabelos volumosos e figurinos que remetessem à África ou fossem confeccionados por costureiras próximas da minha história. Quando li a sinopse de Nobreza do Amor, tive a certeza de que aquele projeto sintetizava exatamente o que eu buscava para a minha trajetória. Mais do que isso, a obra proporcionou um reencontro profundo com a minha própria história e com a da minha família. Descobri ancestrais que vieram da África e tive acesso a documentos preciosos, como a carta de alforria da minha avó.

Interpretar a Kênia, uma princesa negra, livre e poderosa na década de 1920, é a realização de um sonho de infância. É muito importante que a televisão mostre personagens negros que tenham o direito de sonhar, de amar e de viver sua liberdade plenamente. Viver a Stéphanie e, agora, a Kênia tem sido um processo profundo de transformação. Essas personagens mudaram a forma como enxergo o mundo, como me trato e como compreendo a minha própria identidade.

Conte um pouco sobre sua personagem em A Nobreza do Amor. O que mais te chamou a atenção quando recebeu o convite para o projeto? O que mais me chamou a atenção em Nobreza do Amor, sem dúvida, foi o protagonismo negro. Mas não apenas no sentido de ter pessoas negras ocupando os papéis principais, e sim de termos histórias negras como protagonistas. Eu achei que ainda demoraria muito para ver uma novela em que a trama principal, os grandes conflitos e os momentos de maior urgência estivessem concentrados em um núcleo negro. E é exatamente isso que acontece em Nobreza do Amor.

O núcleo de Batanga conduz a narrativa com intensidade. Não estamos interpretando personagens que reforçam estereótipos que já vimos tantas vezes na televisão, como a mulher ou o homem negro reduzidos à sensualidade ou ao alívio cômico. Pelo contrário, vemos personagens complexos, cheios de camadas e atravessados por diferentes dilemas, como qualquer ser humano. A Kênia também me encanta por isso. Ela é uma mulher livre, que ama e que é profundamente corajosa. Ela não tem medo de sentir, de se emocionar ou de dizer o que pensa. Acho muito importante que meninas negras retintas, especialmente as mais jovens, tenham uma princesa como ela como referência.

No início do trabalho, fomos buscar referências para construir esses personagens e percebemos como era difícil encontrar produções sobre realeza e nobreza africanas. Consegui assistir a uma obra em uma plataforma de streaming mais conhecida, mas as demais estavam disponíveis apenas em serviços de difícil acesso. Ou seja, não tínhamos facilidade para encontrar essas histórias.

Hoje, as meninas poderão crescer tendo referências como a Kênia, e isso é de uma riqueza imensa. Precisamos alimentar essa esperança. Precisamos entender que a nossa ancestralidade também veio do trono, do poder, da riqueza, da realeza e da nobreza. A nossa história não começou na dor da escravidão. A África não passou a existir apenas depois da escravização dos povos africanos. Antes disso, existiam impérios, reis, rainhas, princesas, cultura, prosperidade e liberdade.

É justamente esse resgate cultural que mais me emociona em Nobreza do Amor. A novela resgata a nossa história, a nossa felicidade, a nossa liberdade e um tempo em que os nossos ancestrais viviam com seus próprios desafios, mas também com o direito de existir plenamente, de sonhar, de amar e de construir o próprio destino. Acho que essa é a maior beleza de Nobreza do Amor.

Quais são as principais diferenças entre a personagem que você interpreta em A Nobreza do Amor e a Stephany, de Dona de Mim? A Stéphanie, de Dona de Mim, é muito diferente da Kênia em vários aspectos. A Stéphanie era uma personagem extremamente observadora. Ela observava muito mais do que falava. E, quando falava, era porque já tinha refletido bastante sobre aquela situação. Ela pensava antes de se posicionar, o que fazia dela uma personagem mais introspectiva e até um pouco tímida. Ela também era menos vaidosa e tinha uma estética muito marcada pelas calças de alfaiataria. O que as duas têm em comum é a determinação. Tanto a Stéphanie quanto a Kênia são mulheres muito decididas e cabeça-dura. Quando colocam uma ideia na cabeça, dificilmente mudam de opinião.

A Stéphanie também tinha um olhar social muito bonito, especialmente para as questões que envolvem as mulheres. Como fazia parte de uma família composta majoritariamente por mulheres, ela entendia muito bem o seu lugar no mundo e o que poderia fazer para transformar a realidade em que vivia. Através dela, a novela abordou temas muito importantes, como aborto, maternidade, casamento, autoestima feminina, independência financeira e planejamento profissional. Ela era uma jovem da periferia, de comunidade, cuja rotina era marcada pelo trabalho e pelos estudos. Muitas vezes, trabalhava para ajudar a pagar as contas de casa, inclusive despesas básicas, como a conta de luz. Vivia o dilema entre continuar estudando ou abrir mão desse sonho para trabalhar e ajudar a família. Era uma realidade muito mais dura e marcada pela escassez.

A Kênia vive um contexto completamente diferente. Ela é uma princesa criada dentro de um palácio e também foi criada por um pai tirano, extremamente ambicioso e egocêntrico, que pensa muito mais no próprio poder e nos próprios interesses do que na filha. Diferentemente da Stéphanie, que cresceu em um ambiente cercado de afeto e união familiar, a Kênia foi criada em um ambiente frio, onde o amor nunca foi prioridade. Por isso, no início da história, ela se torna uma mulher mais ambiciosa, vaidosa e até egoísta. Ela não conhece as causas sociais porque viveu a vida inteira dentro de uma bolha. Nunca havia saído do palácio e desconhecia a realidade do seu povo. Isso contrasta completamente com a Stéphanie, que sempre esteve conectada às questões sociais.

Ao longo da novela, porém, é muito bonito acompanhar o amadurecimento da Kênia. Ela passa a conhecer a realidade das pessoas, desenvolve consciência social e começa a enxergar o mundo para além dos muros do palácio. É uma personagem que inicia a história em um lugar de antagonismo e, aos poucos, constrói uma verdadeira redenção, chegando ao ponto de querer defender o seu povo. Outra diferença marcante entre elas é a relação com o que realmente lhes falta. A Kênia tem riqueza, poder e privilégios, mas sente falta justamente do amor. Ela perdeu a mãe no parto e foi criada por um pai incapaz de demonstrar afeto de forma saudável.

Já a Stéphanie vive exatamente o oposto. Ela não tem o conforto financeiro nem os privilégios da Kênia, mas cresceu cercada pelo amor da família e, ao longo da história, também encontra esse amor em seu relacionamento. Por isso, gosto de dizer que essas personagens acabam se complementando. A Stéphanie tem aquilo que falta à Kênia, e a Kênia possui aquilo que a Stéphanie nunca teve. São mulheres muito diferentes, mas que, de formas distintas, vivem jornadas profundas de autoconhecimento e transformação.

Você cresceu em uma família de artistas. Em que momento percebeu que seguir a carreira artística era mais do que um sonho de infância? Eu cresci em uma família de artistas. A primeira vez que fui a um evento ligado à arte tinha apenas 15 dias de vida: fui ao ensaio de rua da Unidos da Tijuca. Desde então, acompanhei meu pai nos shows de samba, minha mãe nas apresentações de dança e minha irmã nas peças de teatro. Desde muito pequena, a arte sempre fez parte da minha rotina.

Nunca foi apenas um sonho de infância. Eu sempre tive certeza de que essa seria a minha profissão. Meu plano A, B e C sempre foi a arte. O plano A era a atuação, o B era o canto e o C era a dança. Às vezes essa ordem mudava: a atuação passava para o plano B, a dança virava o plano A. Mas, independentemente da ordem, eu sempre soube que estaria no meio artístico.

Eu nunca consegui me imaginar trabalhando com outra coisa, porque a arte sempre foi o que me moveu. Assim que tive autonomia para fazer minhas próprias escolhas, fui atrás do que amava. Comecei a cantar ainda criança, por volta dos quatro anos, acompanhando meu pai nas rodas de samba. Depois, comecei a estudar música. Também acompanhava minha irmã nos ensaios de teatro e, quando completei seis anos, iniciei minhas próprias aulas de interpretação. Nunca consegui ficar longe da arte. Sempre tive a certeza de que esse era o meu caminho. Mais do que uma profissão, a arte sempre foi a grande paixão da minha vida.

Seu contato com a música e o teatro começou muito cedo. De que forma essa formação contribui para o trabalho que você desenvolve hoje como atriz? Ter iniciado tão cedo no universo artístico influencia totalmente o trabalho que desenvolvo hoje como atriz, tanto pela música quanto pelo teatro. Na verdade, o primeiro lugar que realmente me ensinou a interpretar foi a escola de música. Quando comecei a estudar música de forma mais profunda, entendi que cantar é muito mais do que reproduzir uma melodia ou decorar a letra de uma canção. Toda música conta uma história. Às vezes, é uma história de amor; outras, de traição ou de um amor proibido. E cada cantor interpreta essa mesma história de um jeito diferente. É justamente isso que torna cada interpretação única. Acho lindo quando dois artistas cantam a mesma música e conseguem transmitir emoções completamente diferentes. Para mim, não existe música sem interpretação.

Se hoje consigo atuar com verdade e acreditar nas palavras que estou dizendo em cena, é porque exercitei isso durante muitos anos na música. Quando comecei a estudar música, também fazia parte de um coral. Estudava canto, piano, leitura de partitura e cantava em grupo. Foi no coral que aprendi o valor da construção coletiva da arte, algo que também está presente no teatro e no audiovisual. Nada acontece sozinho. Uma voz completa a outra.

No teatro, sinto que acontece exatamente a mesma coisa. Assim como, no coral, o soprano entra em determinado momento e depois o contralto complementa aquela harmonia, em cena um ator completa o outro. Nunca vou interpretar uma cena exatamente da mesma forma com pessoas diferentes, porque cada ator me provoca de um jeito. Cada parceiro de cena entrega uma intenção, um olhar, uma energia diferente, e isso transforma completamente a minha atuação.

Eu sempre estudo as cenas, escrevo as intenções e penso no caminho que quero percorrer. Mas, quando chego ao set, tudo ganha uma nova dimensão. O jogo entre os atores, a forma como o outro entrega a deixa, o ritmo da conversa e as emoções que surgem naquele momento tornam cada cena única. Também acredito que toda cena tem uma musicalidade. Talvez por tocar piano e instrumentos de percussão, eu perceba muito isso. Existe um ritmo, um crescendo, pausas, momentos em que a fala acelera ou desacelera, em que o silêncio comunica mais do que as palavras. Para mim, interpretar também é encontrar essa música que existe dentro da cena.

Por isso, sinto que não existe teatro sem música e nem música sem teatro. Eu interpreto o que canto, danço o que interpreto e, de certa forma, também canto aquilo que interpreto. Para mim, essas linguagens sempre caminharam juntas.

Sua irmã, Jennifer Dias, também construiu uma carreira de destaque na atuação. Como é trocar experiências profissionais dentro de casa? A Jennifer é uma pessoa que me inspira muito. É muito especial poder ter uma referência como ela dentro da minha própria casa. Além de desenvolver um trabalho fenomenal como atriz, ela também é muito engajada nas causas sociais.

Desde muito nova, ela sempre me incentivou a estudar. Me dava livros, poemas, indicava leituras e conversava comigo sobre o que estava acontecendo no mundo para que eu entendesse quais causas precisavam da minha atenção e pelas quais eu gostaria de lutar. Acho que me tornei uma pessoa muito consciente e atuante também por influência dela. Como artista e como mulher negra, ela abriu os meus olhos para muitas questões importantes e teve um papel fundamental na minha formação.

Ela também participa muito da minha preparação como atriz. Sempre me ajuda nos testes, lê os textos comigo, ensaia as cenas, propõe caminhos e me faz enxergar possibilidades que, muitas vezes, eu não conseguiria encontrar sozinha. De certa forma, ela acaba me dirigindo, e faz isso de uma maneira incrível. Grande parte da segurança que levo para os testes vem desse processo que construímos juntas.

Acho que seria muito difícil ser a pessoa que sou hoje sem uma referência como a Jennifer. Além de ser uma inspiração como atriz, ela também é uma referência como mulher, como profissional e como ser humano. É uma mulher lindíssima, um símbolo de beleza para mim, mas, acima de tudo, alguém que admiro pela inteligência, pela generosidade e pela forma como enxerga o mundo. Ter a oportunidade de conviver com ela todos os dias e poder recorrer aos seus conselhos com tanta facilidade é um privilégio que valorizo muito.

Além da atuação, a dança tem um papel importante na sua vida. O que ela representa para você como forma de expressão artística? Desde a pré-adolescência, ou até um pouco antes, eu sempre tive muita vontade de conquistar a minha independência financeira. A música e a dança foram os primeiros caminhos que me permitiram ganhar o meu próprio dinheiro. Eu fazia audições para integrar o balé de artistas que passavam pela cidade e, quando era aprovada, conseguia trabalhar durante alguns dias e receber por isso. A música também me deu essa autonomia. Eu estudava canto e piano e, no começo, tinha apenas um teclado portátil, daqueles que dobram. Depois, meu tio me presenteou com um teclado profissional, e aquilo abriu muitas portas para mim.

Com esse instrumento, comecei a correr atrás das minhas próprias oportunidades. Perguntava onde poderia me apresentar, conversava com amigos do meu pai e da minha mãe, que já tinham contatos no meio artístico, e conseguia cantar em eventos e pequenos shows. Assim, passei a gerar minha própria renda. Mais do que paixão, a música e a dança foram ferramentas de independência financeira para uma jovem negra. Foi através delas que consegui continuar estudando, ajudar nas despesas de casa e contribuir com as compras do mês. Durante um período da minha vida, elas foram, literalmente, o meu ganha-pão.

A dança também ocupa um lugar muito especial na minha trajetória. Comecei a dançar por influência da minha mãe, que desfilou durante 18 anos na Beija-Flor e trabalhou como passista-show. Eu cresci vendo minha mãe sambando, dando aulas de samba no pé e viajando para se apresentar. O samba foi o sustento da nossa família durante muitos anos.

Do lado do meu pai, a música também sempre esteve presente. Ele fez parte do grupo Pirraça, responsável por sucessos conhecidos do samba. Ou seja, tanto a música quanto a dança colocaram comida na nossa mesa durante boa parte da minha infância. Mas a dança também transformou a forma como eu enxergava o meu corpo. Foi através dela que entendi que eu podia ocupar espaço. Que eu não precisava me fazer pequena, me mover menos ou esconder quem eu era. A dança me ensinou que eu podia existir com potência, ocupar o espaço que quisesse e me expressar da forma que desejasse.

Infelizmente, durante a escola, enfrentei muito preconceito. Quando perguntaram qual era o meu sonho de profissão e respondi que queria ser atriz, a turma inteira riu. Mais tarde, quando comecei a publicar vídeos cantando, esses conteúdos eram compartilhados nos grupos da escola como motivo de deboche. Também sofri preconceito por ser dançarina. Eu sambava, desfilava em escola de samba, fazia dança afro, dança para orixás, gafieira, salsa, valsa… e muitas pessoas julgavam a maneira como eu movimentava o meu corpo. Havia muito preconceito em relação à dança e ao samba.

Mesmo assim, a dança sempre foi o lugar onde encontrei autoestima e liberdade. Era onde eu podia me expressar sem medo dos julgamentos. Foi ela que me ensinou a ocupar o meu espaço no mundo e a entender que eu não precisava diminuir quem eu era para caber na expectativa de ninguém. Por isso, a dança tem um significado muito profundo na minha vida. Ela representa liberdade, identidade, independência e a certeza de que posso existir exatamente como sou.

Você desfila pela Mangueira desde a infância. O carnaval influencia a artista que você é hoje? O Carnaval foi o alicerce da artista que sou hoje. Desfilo desde os cinco anos de idade e, aos vinte, já acumulo quinze anos de trajetória em diferentes agremiações do Rio de Janeiro, incluindo escolas dos grupos Especial e de Acesso, além de participações na Intendente Magalhães. Ao longo desse percurso, passei por praticamente todos os segmentos do desfile: fui porta-bandeira mirim, integrei baterias, comissões de frente e alas coreografadas, além de atuar como passista e musa. Essa vivência me proporcionou uma formação artística muito completa, permitindo que eu desenvolvesse diferentes linguagens corporais e musicais, mas, acima de tudo, foi essencial para a construção da minha identidade e da minha autoestima.

Foi no Carnaval que aprendi a reconhecer a minha própria beleza. Ao ver mulheres negras ocupando lugares de protagonismo e poder — como rainhas de bateria que representavam, com imponência e elegância, a força do povo preto —, entendi que eu também fazia parte daquela estética e daquela história. Referências como Juliana Alves, Evelyn Bastos e, principalmente, a minha mãe, que foi passista da Beija-Flor, fortaleceram a forma como eu passei a enxergar a mim mesma. Quando sofria episódios de racismo, essa consciência fazia toda a diferença. O samba me ensinou, desde muito cedo, que eu era bonita, potente e tinha orgulho da mulher que estava me tornando.

Além da construção da minha identidade, o Carnaval também foi a minha maior escola de história e consciência social. Foi por meio dos enredos e dos sambas que conheci narrativas que muitas vezes não apareciam nos livros didáticos: a história de heróis negros, dos povos originários e das religiões de matriz africana. Essa vivência despertou em mim um senso crítico muito forte e me fez questionar, ainda na escola, por que tantas dessas histórias eram invisibilizadas no ensino tradicional.

Por isso, o Carnaval é a base da minha militância e da minha arte. Foi ele que me ensinou a me posicionar, a valorizar a minha ancestralidade e a reivindicar histórias que, durante muito tempo, foram silenciadas no Brasil. Sou a artista que sou hoje porque o samba não me deu apenas um palco. Ele me deu identidade, voz e orgulho de quem eu sou.

Qual foi o maior aprendizado que a televisão trouxe para você desde sua estreia? O maior aprendizado que levo da televisão, especialmente de Nobreza do Amor e também de Dona de Mim, é que a verdade sempre encontra o público. As duas novelas têm elencos majoritariamente negros e, no caso de Dona de Mim, havia também um marco muito importante: foi a primeira novela a contar com um elenco formado por atores com deficiência. Isso mostra que, quando a realidade está representada na tela, as pessoas se reconhecem e a história ganha força.

Lembro de uma entrevista do Ronald Soto em que ele dizia que o protagonismo negro é inevitável. E eu concordo completamente. Quando olhamos para o Brasil, um país com uma população majoritariamente negra, é natural que essas histórias também ocupem o centro das narrativas. Quando a televisão retrata a realidade, ela funciona. As pessoas querem se reconhecer nas histórias que assistem, principalmente na novela, que é um gênero tão popular e que conversa com públicos muito diversos. Pessoas negras, pessoas com deficiência, pessoas neurodivergentes, povos indígenas… todo mundo quer se ver representado de forma verdadeira, e não apenas a partir de estereótipos.

Eu lembro de brincar com a atriz Raull Netinar, que interpretava a Pangona, dizendo que adoraria vê-la fazendo uma grande vilã. Porque uma atriz com deficiência não precisa interpretar apenas personagens definidos pela sua deficiência. Assim como pessoas negras não podem ser reduzidas sempre aos mesmos papéis, como o símbolo sexual, a empregada doméstica ou personagens construídos a partir de estereótipos.

A vida é muito mais ampla do que isso. Existem pessoas negras vivendo realidades completamente diferentes, pessoas com deficiência vivendo histórias de amor, de poder, de humor, de conflito. Quando a televisão mostra essa diversidade com honestidade, sem caricaturas e sem reduzir ninguém a uma única característica, o público responde. Acho que esse é o maior aprendizado que levo da televisão: a verdade sempre emociona. Quando a representação é construída com respeito, profundidade e humanidade, as pessoas se conectam. E acredito que foi exatamente isso que fez ‘Dona de Mim’ conquistar o público e que faz ‘Nobreza do Amor’ viver um momento tão especial.

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