Desde quando fez sua primeira aparição na TV, na inesquecível série “Presença de Anitta” lançada em 2001, Mel Lisboa nunca mais foi esquecida do grande público. De volta à TV que a revelou, Mel encara um novo desafio, uma boa vilã. Depois de interpretar Rita Lee no cinema, no filme “Elis: Viver é Melhor do Que Sonhar”, e Thereza na série “Coisa Mais Linda” (Netflix), Mel está interpretando Regina em “Cara e Coragem”, nossa estrela tem se divertido com sua primeira vilã. E nós celebramos essa volta dela à telinha com uma entrevista e ensaios daqueles que você não quer que acabe mais.

Mel, você estreou na TV com a série Presença de Anita, na Rede Globo e agora, depois de 15 anos, você está de volta à casa que te revelou para o mundo. Como recebeu o convite e como está sendo essa volta? Foi um convite muito bem vindo, para uma personagem que eu adorei. Foi um convite irrecusável, na verdade. Ele veio depois de eu ter sido chamada pra fazer Malhação, e quando a gente ia começar o trabalho, veio a pandemia, aí suspenderam e depois cancelaram Malhação. Quando cancelaram Malhação, a Globo liberou minha agenda e a Claudia Souto, autora, e a Natalia Grimberg, diretora, me convidaram para fazer essa personagem. Contaram como era a história, com quem eu ia trabalhar, enfim, foi irrecusável, e eu estou adorando. É um sentimento muito bacana de estar de volta depois de tantos anos e de tantas coisas que aconteceram, e tantas outras experiências que me formaram também. Então, esse reencontro com mais maturidade, com mais experiência, tem sido muito gratificante.

Sua personagem Regina em Cara e Coragem é lobo em pele de cordeiro. Tem se divertido com a personagem? Tem como defender essa mulher ambiciosa? Eu digo que eu me divirto porque a gente consegue experimentar com esse tipo de personagem, atitudes, temperaturas, timbres, tons que a gente não está acostumado a usar na vida. Então, é sempre um lugar de experimentação, e isso é divertido. Mas não é fácil, é super complicado fazer uma personagem que mente o tempo inteiro, é como  digo, é uma meta-atuação, uma personagem que atua. Então, você tem que fazer aquela personagem que está ouvindo sua mentira não seja feita de boba. Você tem que mentir bem, porém de forma a trazer o público de cúmplice, ele sabe que você está mentindo, mas a personagem não pode saber que você está mentindo. Então, é uma sutileza que é desafiadora de encontrar, mas eu adoro. E a questão de defender, eu não tenho muito essa tendência de defender as personagens, eu executo, eu faço, eu não tenho que defender a Regina. Eu faço a Regina, eu interpreto a Regina com as razões que ela tem sem julgar a personagem. Ela tem as motivações dela, e eu tento fazer tudo da melhor forma, para que aquilo saia de uma maneira natural também.

Regina é sua primeira vilãozona? Tinha esse desejo como atriz, de interpretar uma vilã? Em novela, eu acredito que ela é a primeira vilã deliberadamente vilã. Ela não é uma personagem de caráter duvidoso, ela é uma vilã mesmo. Ela não tem muita tábua de salvação, mas eu já fiz outras no teatro, eu fiz a Hedda Gabler do teatro, e foi uma experiência muito legal, uma personagem clássica que também me ajuda a construir outras

Seu trabalho anterior, a Thereza na séria Coisa Mais Linda rendeu muitos elogios. Era uma mulher à frente de seu tempo e muito marcante. De certa forma, sentia alguma semelhança ou afinidade com a Thereza? Ela tem um pouco de você? A Thereza do Coisa Mais Linda é o tipo de personagem que a gente admira, que a gente fala “poxa, essa personagem é fantástica, queria ser um pouco mais Thereza”, ainda mais se levar em conta que ela é uma personagem que viveu nos anos 50/60, muito à frente de seu tempo. Mulheres como a Thereza fizeram a diferença. Então, é muito interessante dar vida a uma personagem como ela. Eu gostava muito de fazer a Thereza. Além de tudo, ela é uma personagem admirável, inteligente, culta, divertida, leve, consciente, amiga. Gostava  muito de fazer a Thereza

Você tem uma voz mansa e um olhar forte. Como usa isso a favor das suas personagens? Como as constrói? A gente trabalha com o nosso corpo e corpo, eu incluo a voz, mas também há uma questão de trabalhar tanto a voz quanto o corpo. Eu  gosto bastante de personagens construídas. Eu acho que, de vez em quando, a gente usa a favor aquele material que a gente já tem e, de vez em quando, a gente desenvolve uma técnica para poder criar um material a partir daquilo que a gente tem. E a maneira como eu construo as personagens, dependendo muito do trabalho, depende muito da direção, do processo, se for teatro, TV, cinema. A direção influencia muito. Se  tem um trabalho de mesa ou não, se tem um trabalho de corpo ou não – eu não tenho um método exatamente fechado, eu costumo sempre me adequar ao modo de trabalho do projeto que eu estou fazendo, mas eu sempre gosto de trabalhar com a materialidade do texto, de ver a personagem a partir das ações dela. Então, construir a personalidade dela, e também buscar referências, eu gosto muito de referências, de buscar tudo aquilo que pode me ajudar a construir o universo daquela personagem, ou a maneira como ela se comporta

Novelas bíblicas, tramas contemporâneas ou de época. Como transita por esses mundos? Onde se sente mais desafiada? Sobre essa questão de tramas contemporâneas, de época, em qual eu me sinto mais desafiada, eu não sei, não sei dizer. Eu acho que depende muito da personagem, depende muito do projeto. É  claro que se a gente pensar numa trama bíblica, existe uma questão que abre um pouco a liberdade poética – a licença poética, porque a gente não sabe muito bem, a gente não tem assim tanto material pra saber exatamente como acontecia. Então, é uma coisa não documental. Enquanto que, quando você pega uma época mais próxima, a gente tem muita referência, então a gente tenta fazer o mais próximo do que foi realmente.  

É interessante fazer uma coisa de época, é a pesquisa mesmo, eu gosto disso. A  pesquisa é bastante enriquecedora, enquanto que em uma trama contemporânea a gente fica mais fechado mesmo nos conflitos mais psicológicos ou conflitos ali entre as personagens, mais do que tentar também estudar o período histórico no qual aquela história está inserida.

A presença de Anita ainda é muito forte na sua carreira? Que importância teve e tem para você? Eu acho que a Presença de Anitta marcou, definitivamente, o início de minha carreira de uma forma bem forte mesmo. Quem viu e passou por aquele momento, lembra muito vividamente disso e como as pessoas foram arrebatadas pela obra. Mas para mim, como trajetória é um pouco fora do comum, porque não é tão comum você começar com um papel de protagonista de uma série que fez sucesso da forma que fez e depois ir trilhando seu próprio caminho.

Por sinal, esse trabalho tem 20 anos, praticamente sua idade na época. Foi um desafio muito grande já ter que encarar cenas fortes e de muita nudez? Eu acho curioso que sempre me perguntarem isso porque, na época, eu tenho a memória muito forte de que isso não era o que mais me preocupava. Mas, sim, que meu trabalho fosse perfeito e que aceitassem meu trabalho como atriz. Mas é impressionante como isso ainda marca. Isso diz muita coisa.

Falando nisso, anos depois você posou para a Playboy. Já um outro tipo de nudez, através da fotografia. Como foi a experiência? Que lembranças guarda e como lida com a nudez? Eu considero tudo muito bonito e gostei muito, pois foi do jeito que eu queria, mas claro, a experiência é um pouco constrangedora. Acho que a questão da nudez da mulher, principalmente no Brasil, ainda é um assunto bastante delicado, polêmico e controverso. Ainda mais quando pensamos na questão da liberdade de seu corpo e a maneira como uma sociedade extremamente machista recebe isso. Então, considero isso um assunto que ainda é delicado hoje em dia, infelizmente.

Do mel ao fel. Em que proporção isso faz parte de você? Quando transparecem? É curioso que tem muita gente que pensa que eu sou uma pessoa muito calma, e muito tranquila, mas na verdade, eu acho que eu tento me manter nessa situação, porque eu sou agitada. Eu teria um instinto mais intempestivo, mas é tudo uma questão de escolha e de convivências. Eu sou até paciente, mas também quando me tiram do sério, aí dá pra ver que eu não sou tão calma quanto pareço.

Você continua com o mesmo jeito de menina. Uma menina de 40 anos e mãe de dois filhos. Como lida com a idade e a passagem do tempo? É curioso também o “jeito de menina”, eu não me vejo assim. Eu me vejo como uma mulher de 40 anos, mas eu acho que, hoje em dia, a mulher de 40 anos é diferente do que era há umas décadas atrás. Então, eu costumo dizer que eu sou uma pessoa que valoriza a passagem do tempo, a aquisição de conhecimento, de experiência, a maturidade. Eu acho que, como tudo, tem prós e contras. Mas eu acho que eu estou num momento muito bom da minha vida, em que eu me sinto ainda jovem, porém muito mais madura e preparada para tudo da minha vida.

Como é Mel mãe? Que lições repassa para seus filhos que aprendeu com seus pais?   Eu tento ser a melhor mãe que eu posso ser. Isso não impede que eu me depare com frustrações e com os meus próprios erros. Eu tento fazer e passar pros meus filhos aquilo que eu acredito que possa ser a melhor formação pra eles, no sentido de serem  pessoas justas, honestas que tenham alteridade. Olhar pro outro, que saibam viver em sociedade, e que tenham doçura, que sejam educados. Enfim, que sejam interessados e que façam o que queiram fazer e sejam quem queiram ser. Eu acho que isso também foi uma coisa que eu tive da minha mãe (astróloga). Do meu pai também, embora eu tenha sido criada por minha mãe, mas a referência cultural dos dois foi bem forte e eu também tento incentivar os meus filhos nesse sentido, eles já tem isso naturalmente pelo fato de ter uma mãe artista e o pai também.

Que importância as tatuagens trazem para seu corpo? A tatuagem é uma marca que você escolhe ter, e ela registra um momento de sua vida. Ao olhar para uma tatuagem, você lembra do momento em que você a fez, o porque de ter escolhido aquele desenho ou aquela frase, é uma questão cultural. Eu gosto bastante, eu teria até mais, mas como atriz, realmente atrapalha. Então, a princípio, parei

Como lida com a vaidade (física e de atriz)? A questão da vaidade, eu vejo que eu fico tentando sempre controlar porque a vaidade pode ser muito perigosa. Você pode se perder na sua própria vaidade e acabar se prejudicando. Uma vaidade num nível saudável te ajuda, te faz bem, ela tem que te fazer bem. Então, a vaidade pra você cuidar de si, do seu corpo físico, mental, da sua saúde emocional, física, eu acho que tudo isso é muito importante e é mais nesse sentido que eu olho, que eu tento me cuidar.

Agora como atriz, eu não sei se é exatamente vaidade, mas eu sou bastante exigente com o meu trabalho, eu tenho um pouco de dificuldade de me assistir porque eu sempre fico achando os erros, o que poderia ter feito diferente. No teatro isso é interessante porque no palco você não se vê, os seus olhos, o seu espelho é o público – é o outro, e isso, é filosoficamente interessante porque quando você vê uma obra audiovisual, é como olhar o espelho nesse sentido. É claro que é como olhar uma máscara ali, uma máscara entre aspas, mas no teatro você se vê através dos olhos dos outros, e isso é muito interessante.

A qual pecado você não resiste? A gente tem a tendência de sempre falar e assumir os pecados mais “leves”, mas acho que eles fazem parte da vida. A questão é a medida, saber lidar e controlar para que não seja prejudicial nem a você e nem aos outros. E eu tento lidar com os meus.

Quem é Mel hoje e como se vê aos 50? Quem é a Mel, hoje? Essa é uma pergunta complexa e difícil de responder, ainda mais pra uma atriz que está em constante mutação. Mas eu sei da minha história, das minhas escolhas, da minha trajetória, dos meus encontros e estou satisfeita com eles, mesmo os erros, os fracassos, tudo isso me construiu, tudo isso me formou também para essa Mel de hoje de 40 anos. E eu espero que, nos próximos 10 anos, eu continue aprendendo e tendo bons encontros, e fazendo boas escolhas, e aprendendo com os meus erros, e podendo me tornar uma pessoa melhor.

Fotos Priscila Nicheli 

Styling Samantha Szczerb 

Beleza Patrícia Nicheli

Agradecimentos Hotel Windsor Califórnia

Mel usou: Eduardo Guinle, Liebe, Atelier Silvio Cruz, Segheto, Dona Mocinha, Lybethras, Carmen Steffanie