ARTE: A COR DA LEVEZA DE LÚCIA TOLENTINO

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Por Silvia Cavalcanti

Lúcia Tolentino sempre foi uma mulher de presença. Gentil, empática, generosa; daquelas que constroem pontes entre pessoas. Minha irmã e eu crescemos vendo ela equilibrar o trabalho fora de casa, como auditora na Prefeitura do Recife, com algo que nos marcou profundamente: o cuidado com as relações, com o tempo compartilhado, com o encontro. Qualquer ocasião virava motivo para reunir amigos, com alegria e leveza. A gente cresceu ouvindo que amizade é como uma planta; precisa ser regada, cuidada, nutrida. E Lúcia sempre viveu isso.

A criatividade também sempre esteve presente. Bijuterias feitas com pedaços de objetos, pequenas invenções, e o estímulo constante para que a gente criasse. Teatro, circo, poesia. Ela estava sempre ali, acendendo a nossa curiosidade.

Depois da aposentadoria, veio um período de vazio e, em seguida, a busca por dar vazão às próprias criações. Vieram os arranjos de flores, as poesias e, depois, a pintura em acrílico. As telas eram bonitas, mas obedeciam a uma ordem rígida, muito preocupada com forma e função.

Até que tudo mudou

Um AVC avassalador comprometeu 80% do lado esquerdo do cérebro. O braço predominante deixou de se mover, e a fala fluente já não estava mais ali. Durante um ano, ela só conseguia repetir sons fragmentados – “ma ma ma ma”. A comunicação, então, encontrou outros caminhos. E hoje, apesar de não se comunicar verbalmente de forma fluida – fala por meio de frases curtas -, ela encontrou uma nova forma de se fazer entender.

Voltar à pintura não foi fácil. O braço com o qual ela sempre pintou não respondia mais. Ela precisou reaprender tudo com a mão esquerda. No início, foi uma resistência danada. Depois, veio uma revoltante frustração. O que surgia na tela já não correspondia ao que ela fazia antes. Houve choro, tristeza e pincel jogado no chão. Mas ela insistiu. Chorou; e a gente chorou junto. O pincel voltou à mesa, caiu de novo, voltou outra vez. Até que, aos poucos, algo começou a mudar.

O compromisso com a perfeição foi sendo trocado pela curiosidade. E a pintura se transformou. Ficou mais solta, mais viva, mais alegre. O que antes era forma passou a ser energia. Cerca de três anos após o AVC, veio a primeira exposição. Depois, os quadros passaram a circular como presentes, ocupando lugares de destaque nas casas. Um novo marco veio com uma exposição na ONU, em Nova Iorque, onde o curador de uma mostra de artistas latino-americanos ficou encantado e a convidou para expor. Ali, o trabalho dela passou a tocar para além do círculo íntimo.

O reconhecimento virou combustível

Anos depois, uma exposição em Recife, A Cor da Voz, que consolidou a pintura como sua forma de comunicação. O mais impressionante não foi a venda das obras, mas a reação das pessoas. Havia algo ali que tocava – transmitindo esperança, energia, uma espécie de luz. Hoje, essa trajetória continua em A Cor da Leveza, sua quarta exposição, no dia 9 de abril, às 18hs, em Adroaldo Tapetes, Recife.

Mas é importante dizer: a pintura não acontece de forma constante. Há períodos em que ela não pinta. Isso nos preocupa, mas aprendemos a respeitar o tempo dela. Pintar exige uma energia que nem sempre está disponível. Cada dia é uma conquista. A mente segue lúcida, mas o corpo impõe limites; há uma luta diária para não deixar a peteca cair.

Por isso, quando a pintura volta, é sempre especial. Como aconteceu há cerca de um ano, quando Lúcia retomou esse fluxo criativo com mais intensidade. Foi esse retorno que nos moveu a organizar a nova exposição. E há algo essencial nesse caminho: os amigos.

Existe uma troca muito viva. Eles bebem dessa leveza que ela emana e, ao mesmo tempo, a incentivam a continuar criando, reunindo, celebrando. Há entre eles uma importância mútua, profunda. Ao longo dos anos, minha irmã e eu vimos ela transformar a forma de encarar a vida. Aprendeu – e nos ensinou – a relevar o que não pode controlar, a escolher onde colocar energia, a viver com mais leveza.

Isso transborda para tudo: para as telas, para a casa sempre cheia, para a forma como escuta. Num mundo em que todos falam, ela se tornou uma dessas pessoas raras que sabem escutar. E, quando fala, vem algo essencial – quase sempre atravessado por leveza. Hoje, ela é a própria expressão do que pinta.

“Quando a voz silenciou, a cor permaneceu, revelando a delicadeza de uma força que escolheu ser leve. Porque leveza não é ausência de peso. É a arte de atravessá-lo com graça.”

(Texto do convite da exposição, criado pelas filhas de Lúcia)