CAPA: SERGIO MARONE, UM ATOR EM BUSCA DO MEMORÁVEL

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Com mais de duas décadas de carreira, Sergio Marone chega a um momento em que a maturidade não apenas refina seu ofício, mas redefine completamente sua relação com a arte. Longe da urgência de agradar que marca os primeiros passos de muitos atores, ele hoje se orienta por escolhas mais instintivas e autorais — guiadas menos pela aceitação e mais pelo impacto. Em uma indústria em constante transformação, Marone construiu um percurso sólido transitando entre televisão, cinema e teatro, sempre em busca de personagens que provoquem, desafiem e deixem marcas. Seu retorno à teledramaturgia, após quase uma década, não acontece por acaso. Em Amor em Ruínas, ele assume o papel de um vilão complexo e contemporâneo, que reflete nuances inquietantes da masculinidade atual. Mais do que um antagonista clássico, seu personagem surge como um espelho desconfortável — sedutor, intenso e repleto de contradições. É nesse território de sombras, onde o certo e o errado se confundem, que Marone demonstra a força de sua fase mais madura: um ator que não busca apenas ser visto, mas provocar reflexão. Nesta entrevista exclusiva para a MENSCH, ele revisita sua trajetória desde os tempos de Estrela-Guia, passa por marcos importantes como Os Dez Mandamentos e revela como suas escolhas atuais são atravessadas por propósito, risco e profundidade. Um encontro com um artista que entende que, mais do que permanecer relevante, é preciso ser memorável.

Você iniciou sua trajetória na TV em 2001, na novela Estrela-Guia. Ao olhar para aquele início e comparar com o momento atual, o que mais mudou em você como ator? Eu parei de querer agradar. No começo, você quer ser aceito. Hoje, eu quero ser interessante. Ser querido é bom, mas ser memorável é melhor.

Costume Full look – @merinoalfaiataria

Aos 45 anos, você vive uma fase de maior maturidade pessoal e profissional. Como essa bagagem influencia suas escolhas de personagens hoje? Hoje eu não negocio minha energia. Se não me dá tesão criativo, eu não faço, simples assim. Dinheiro paga conta. Sentido sustenta uma carreira.

Seu retorno à televisão será como vilão em Amor em Ruínas. O que mais te atraiu nesse papel e nesse momento da sua carreira? Um vilão não pede licença, e isso é irresistível. Ele vive sem culpa, e isso assusta porque é sedutor. Ele faz o que muita gente gostaria de fazer, mas não tem coragem. Acho que o Amit é, sem dúvida, um dos personagens mais desafiadores da minha carreira, e não por acaso. Tem muito a ver com o homem que eu sou hoje. Fiquei quase 9 anos longe da teledramaturgia, por escolha. Pra focar no cinema, teatro e expandir meu espaço de comunicador na TV. Eu não voltei por saudade, eu voltei por desafio. O Amit é um personagem que cutuca, que incomoda, que não deixa você confortável nem um segundo. Quando me chamaram pra Amor em Ruínas, disseram que ele era “a minha cara”… ainda estou processando isso, rs. Ele ama as mulheres. Mas ele ama ainda mais o efeito que causa nelas. O interessante é que, apesar da história ter inspiração bíblica, o Amit é extremamente contemporâneo. Ele representa um tipo de masculinidade que ainda existe muito hoje em dia. Interpretá-lo é mergulhar nessas sombras sem justificá-las, mas tentando entendê-las. O texto da Cristiane Cardoso tem alma de folhetim, a direção do Davi Lacerda é cinematográfica, e quando essas duas forças se encontram, vira algo muito potente. Eu gosto de apostar no risco. E dessa vez, o risco tem nome: Amit.

Polo – @lojasrenner / Calça – @merinoalfaiataria

Interpretar antagonistas costuma exigir camadas emocionais mais complexas. Como você constrói esse tipo de personagem? Eu humanizo até o lado mais sombrio. Porque ninguém acorda de manhã achando que é o vilão da própria história. O perigo não é o vilão mau, é o vilão que faz sentido. O Amit é um personagem muito sedutor, inteligente e poderoso, mas profundamente inseguro. Ele acredita que amar é possuir e que desejo é domínio. Isso revela uma masculinidade construída sobre medo: medo de perder, medo de parecer frágil, medo de não ser admirado. 

Ao longo de mais de duas décadas de carreira, você transitou por diferentes gêneros e formatos. Existe algum trabalho que você considera um divisor de águas? O Ramsés de Os Dez Mandamentos foi sem dúvidas um divisor de águas e sou grato ao Avancini por me presentear com essa oportunidade e pela forma como ela foi conduzida por ele e pela equipe. Com o Ramsés eu entendi que caber é o caminho mais rápido pra desaparecer, e isso foi muito libertador.

A televisão mudou muito desde o início dos anos 2000, com a ascensão do streaming e novas linguagens narrativas. Como você enxerga essa transformação? Hoje tem muita vitrine e pouca identidade. Nunca foi tão fácil aparecer, e tão difícil ser lembrado. Mas visibilidade sem verdade é só barulho. O lado bom é que hoje a TV se mistura muito com o cinema.

Costume Full look – @brusman_oficial

A maturidade também traz um olhar mais criterioso sobre exposição e carreira. O que você aprendeu a dizer “não” ao longo do tempo? Aprendi a dizer não pra tudo que me usa mais do que me constrói. Aprendi com o tempo que nem toda oportunidade é evolução, algumas são distração.

Existe alguma característica pessoal sua que você acredita que ficou mais evidente agora, aos 45, e que contribui diretamente para o seu trabalho como ator? Minha segurança. E segurança, quando é real, vira magnetismo. Confiança é o novo sexy.

Como você equilibra a vida pessoal com a intensidade das gravações, especialmente em papéis densos como o de um vilão? Hoje eu sei que personagem nenhum vale a minha paz. Se o papel invade sua vida, você perdeu o controle da cena.

Camisa – @camisaria_fascynios / Bermuda – @merinoalfaiataria

Você se considera um cara muito vaidoso? Do que não abre mão? Sim, mas com critério. Eu me cuido, não me edito. Penso que autenticidade é mais atraente que a perfeição.

Nas horas vagas o que procura para recarregar as baterias? Sumindo um pouco. Hoje, se eu não silencio, eu me perco. Desconectar virou um ato de inteligência e saúde mental. O silêncio, em contato com a natureza é o melhor remédio pra renovar a energia.

Olhando para o futuro, quais são os próximos desafios que você ainda deseja explorar na atuação? Quero fazer menos, e impactar mais. Vou continuar usando minha visibilidade pra pautas que importam, como sustentabilidade. Fama sem propósito é só ego com alcance. Pretendo voltar a fazer teatro após Amor Em Ruínas, tem um filme pra fazer também.

Calça – @damyller

Foto Robert Schwenck @robert.schwenck_photo

Direção de Arte e Styling Schiavelli @schiavellii

Assist de Styling. Luah Castro – @luahcastrooo

Assist. De Fotografia Kadu Lobato @kadulobato

Produção Executiva: @luahcastrooo

Look da capa @merinoalfaiataria