Deborah Evelyn é uma daquelas atrizes arrebatadoras que pega qualquer personagem e torna-lo protagonista em qualquer história, nem que seja por breves minutos. Tudo isso por conta de seu talento e força que deposita em cada um deles. Sempre elegante, o que lhe é dado com cada nova personagem só acrescenta ao seu tamanho como artista. Falando em personagens, difícil citar um assim de cara, são tantos marcantes, mas como a própria citou durante esta entrevista, a mimada Lenita de “A Gata Comeu” (que acabou de estrear no Globoplay), a odiada Basília de “A Muralha”, a Beatriz de “Celebridade” e a mais recente Lyris de “A Dona do Pedaço”, são alguns destaques nessa trajetória de quase 40 anos de carreira. E para quem percebeu o visual ruivo da nossa estrela, isso é por conta da sua nova personagem que vem em breve com “Verdades Secretas 2”. Até lá vamos nos contentar com uma Deborah, chic e muito sexy, nesse belíssimo ensaio produzido pelos salões do Othon Palace no Rio de Janeiro.

Deborah, antes de mais nada é um grande prazer para nós ter você aqui na MENSCH. E para começar, como você se vê hoje em dia como mulher e como artista? O que o tempo só aperfeiçoou? Muito obrigada!!! Me sinto hoje muito mais conectada com as questões femininas do que quando eu tinha 20 anos. Sempre fui feminista, sempre achei que nós precisamos nos colocar, lutar por nossos direitos, mas hoje, talvez, por causa da idade, isso é muito mais forte em mim. E como artista, sinto que minha história me dá respaldo para continuar querendo sempre mais, me dá respaldo para procurar novos desafios, me deixa inquieta e atenta ao mundo ao meu redor. Eu acho que, como artistas, temos que estar sempre conectados com a realidade, com o nosso “aqui e agora”. A cultura é um espelho de um povo, de uma nação.

De sua estreia na TV, em 1983 com Moinhos de Vento até hoje, já se vão quase 40 anos de carreira e inúmeras personagens. De mocinhas a vilãs, de loucas a guerreiras. Qual o tesão nisso tudo? De onde vem o desejo de mais e mais personagens, desafios e histórias para contar? Trabalhar para mim é essencial, é um dos aspectos da minha vida que me define, é onde eu posso criar, enlouquecer, “viver outras vidas”. Cada trabalho, cada novo personagem, traz um novo desafio e eu acho delicioso não ter a sensação de que já fiz tudo o que eu tinha para fazer, de que já sei tudo porque, na verdade, acho que a gente nunca “sabe tudo” e é isso que nos impulsiona, é isso que nos faz mudar, é isso que nos faz rever certezas e questionar verdades absolutas.

Imaginamos que você já tenha contado isso inúmeras vezes isso em entrevistas, mas nos conta como veio esse início de carreira? Eu sempre quis ser atriz, nunca me imaginei fazendo outra coisa na vida!!! Então fiz a EAD (Escola de Arte Dramática da USP, em SP) e para o vestibular, além da prova escrita, tinha uma prova prática onde tínhamos que apresentar 5 minutos de uma peça para uma banca e público. Eu fiz A Gaivota, do Tchekhov. O Walter Avancini estava na plateia, (muitos diretores iam assistir essas provas para encontrar “novos talentos”), e me chamou para fazer Moinhos de Vento, meu primeiro trabalho na TV, eu tinha 17 anos. Foi um início maravilhoso, com um dos melhores diretores da TV brasileira e com colegas incríveis – eu era filha da Renèe de Vielmond e do Carlos Augusto Strasser e tinha um affair com Raul Cortez!!!!! 

Em meio a tantas personagens diversas, algumas que marcaram ou até ficaram mais tempo em você? Nossa, essa é uma pergunta difícil porque eu acho que tive muita sorte!! Eu fiz tantos personagens maravilhosos, que me marcaram e que foram importantíssimos para mim… Mas para citar só alguns, a Tereza de Moinhos de Vento (porque foi a primeira), a Lenita de A Gata comeu (porque foi um sucesso estrondoso), a Flavia de Selva de Pedra, a Basília de A Muralha, a Beatriz de Celebridade, a Judith de Caras e Bocas, a Eunice de Insensato Coração e a Lyris de A Dona do Pedaço.

Como é seu processo e composição de criação de uma personagem? Depende muito do personagem… Às vezes, faço uma pesquisa mais intensa se o personagem tem alguma profissão específica, que é uma característica forte dele. Por exemplo, para a Betty, de Verdades Secretas, que é uma estilista, mergulhei nesse universo da moda, assisti vários desfiles, me inspirei em várias estilistas. Mas o que não muda, é que eu estudo muuuuuitoo texto!! Eu acho que a partir do texto, do que o autor nos dá, podemos criar o universo do personagem, podemos entender o que ele gosta, como ele age em determinadas situações, o que toca seu coração etc.

Seu tipo físico e porte sempre te levaram a interpretar mulheres ricas e refinadas. E uma de suas últimas personagens na TV era justamente uma ex-granfina (a Lyris de A Dona do Pedaço). Foi como uma desconstrução da “Deborah rica e fina” que a TV criou? A Lyris foi uma personagem deliciosa e importantíssima de se fazer, porque mexeu com a questão do empoderamento da mulher!! Acho que mais do que uma desconstrução de uma granfina, a Lyris foi uma mulher que aprendeu a pegar sua vida em suas mãos, a lutar por sua sexualidade, aprendeu a não depender de homem, aprendeu a não ser mais apenas uma esposa para um marido. Acho que foi uma desconstrução da típica mulher rica de novela em geral!!! E personagens com essa curva dramática, são um presente!! Eu amei fazer a Lyris e tive um retorno muito carinhoso, tanto de mulheres como de homens!!

Lá pelo meio de sua carreira, quando você ainda era casada com Dênis Carvalho, se sentia cobrada a mostrar mais que os demais atores por ser esposa do diretor da novela? Sentiu algum preconceito? Eu já me cobro muito, independentemente de com quem estou trabalhando ou sou casada. Quero sempre fazer o meu melhor e raramente fico satisfeita com o resultado final, tenho sempre a sensação de que eu poderia fazer melhor… Além disso, eu já trabalhava antes de casar com o Dennis há algum tempo, sempre trabalhei com outros diretores também enquanto estava casada com ele – Denise Saraceni, Jorge Fernando, Ricardo Waddington, Jayme Monjardim, Roberto Talma, Marcos Paulo, Avancini, Herval Rossano e Luiz Fernando Carvalho, entre outros. E sempre fiz teatro e cinema. Então, eu nunca me senti dependente do Dennis para trabalhar – apesar de adorar trabalhar com ele pois ele é um diretor genial!! E, talvez por isso, não tenha sentido nenhum tipo de cobrança ou preconceito – se houve, eu não reparei (risos).

Em meio a tantas personagens, o que ainda falta? Falta sempre o próximo!!!!! Cada novo personagem é um novo universo que se abre e um novo mergulho que se apresenta. Eu fico sempre MUITO animada com um novo personagem, é como um novo presente de Natal.

Quando se sente mais desafiada em um trabalho? Eu acho que tive muita sorte de sempre, ou quase sempre, pegar personagens que me desafiaram, por serem diferentes de mim e sempre muito complexos. Agradeço do fundo do meu coração a todos os autores com quem eu já trabalhei!!!

E vale tudo para uma personagem? Se travou alguma vez? Se sim, qual a situação? Dentro do jogo da cena, vale tudo!!! Eu adoro me jogar de corpo e alma em todas as situações e realmente vivenciar as emoções! Não estou me lembrando de ter travado, mas claro que já tive dificuldades para fazer algumas cenas.

Agora você está ruiva, como podemos conferir neste lindo ensaio, para sua próxima personagem que estreia em Verdades Secretas 2. Como está a preparação e a expectativa? Verdades Secretas 2 vai ser revolucionária, vai ser uma série que vai marcar!!! Ela é moderna, ousada, engraçada, criativa!! Estou AMANDO fazer. O elenco é sensacional, a equipe é maravilhosa e, trabalhar novamente com a Amora e o Walcyr, que eu admiro tanto, é um sonho!!!!

Como está sendo essa retomada ao trabalho depois dessa longa pausa? Tem um gostinho especial? Fiquei um ano sem trabalhar – o que nunca tinha acontecido antes e, no começo da pandemia, eu tinha a sensação de que nunca mais poderíamos voltar a gravar, filmar ou fazer teatro. Foi muito difícil!! Agora, me sinto privilegiada por poder voltar a trabalhar – com um protocolo de segurança bem rígido, num projeto tão gostoso. É muito bom ter a sensação de que, aos pouquinhos, estamos retomando um pouco de nossa rotina!!

E falando nisso, como foi enfrentar o isolamento social sem pirar? Como ocupou o tempo e a cabeça? Foi uma montanha russa!!! Consegui ter momentos de relaxamento onde eu pude usufruir da “calmaria” do isolamento e momentos de desespero e depressão por não poder encontrar minha família, meus amigos e não poder trabalhar. Eu fiquei a maior parte do tempo na Alemanha com o meu marido e lá houve lockdown sério, tudo fechou e nós não encontrávamos ninguém.

Recentemente você tomou a primeira dose da vacina e se emocionou. Como isso te tocou? Fiquei realmente muito emocionada!!! Nunca pensei que algo que sempre foi tão normal na nossa vida – tomar vacinas, fosse me tocar tanto!!! Mas estamos vivendo uma pandemia e o governo do Brasil está lidando com ela da pior maneira possível – com negacionismo, investindo em tratamentos que comprovadamente não funcionam, negando a ciência, atrasando a compra de vacinas, não fazendo campanhas de esclarecimento etc, etc, etc. Diante desse cenário, se vacinar é uma vitória!! Eu me emocionei por estar tomando a minha primeira dose, mas também fiquei muito triste por tantos que ainda não se vacinaram e por tantos que perderam suas vidas por não terem sido vacinados a tempo. Isso é muito grave, é muito triste!!! Muitos, milhares, poderiam não ter morrido se o Brasil tivesse uma política correta em relação à pandemia. Não é possível não se desesperar, não se emocionar, não se revoltar!!!

Vivemos momentos quando a realidade está surpreendendo a ficção. A pandemia revelou o pior lado da política brasileira e de grande parte da população que se mostra irresponsável e egoísta. Você acreditava que a pandemia mudaria as pessoas para melhor? Como um todo, infelizmente não… Acho que a humanidade já viveu muitos momentos dificílimos – guerras, extermínios, pestes e, mesmo assim, continuamos tendo um componente egoísta e pouco empático. Ao mesmo tempo, vi muitas iniciativas individuais lindas, de ajuda, de cumplicidade, de amor. Eu acredito no ser humano e acho que a humanidade pode evoluir muito, mas tem que começar com cada um tentando melhorar a si mesmo.

Quem acompanha você nas redes sociais sabe que você sempre se posicionou em várias questões da sociedade, em especial política. Acha que isso chega a ser um dever do ator ou mais saudável ficar fora de brigas? Eu acho que em um momento como o que estamos vivendo, de tantos radicalismos, temos que nos posicionar!! Não podemos ficar neutros!! Não existe neutralidade em situações assim, quem não se posiciona está concordando com o que está acontecendo, não consigo ver de outra forma!! Se tudo estivesse bem, se não tivéssemos 500.000 mortos por causa de uma política pública criminosa durante uma pandemia, se não tivéssemos vidas negras sendo dizimadas por uma política de segurança genocida, se não tivéssemos o nível de pobreza que temos, se não tivéssemos o nível de desemprego que temos, se tivéssemos escolas, casas e hospitais para todos, talvez pudéssemos falar só de outras questões que não as políticas e sociais. Mas infelizmente, essa não é a nossa realidade e eu acho estranho alguém estar vivendo no mundo de hoje e não falar nada a respeito, não se posicionar, não lutar pelos direitos dos mais fracos, dos que não tem voz!!! Eu acho, inclusive, que isso é um dever de todo cidadão, de todo ser humano, independentemente de ser um ator ou uma figura pública.

Em meio a tudo isso, o que te tira o sorriso do rosto? E o que te faz sorrir? Infelizmente, muita coisa tira o meu sorriso do rosto atualmente. Quando mais uma vez eu vejo que uma mulher negra foi morta por ação policial no Rio de janeiro, meu sorriso vai embora, quando eu vejo quantas mortes tivemos por COVID em 24 horas, meu sorriso sai do rosto, quando eu vejo injustiça, mentiras e ganância, é impossível sorrir.  Mas o que eu amo e me faz sorrir, é encontrar minha filha, meu marido, minha família, meus amigos, ler um bom livro, ver um bom filme, uma boa peça, dias de sol e céu azul sem muito calor, ouvir música, dançar, cantar, viajar…

E na hora de relaxar, se distrair… qual seu refúgio? O que curte? Encontrar amigos e conversar sem hora para acabar, ler, ver filmes, viajar!!!

Deborah, como você lida com o tempo? Quais seus aliados para passar por ele, assim, encantadora – as fotos estão de prova? Eu me cuido, mas sem paranoias! Me alimento bem (como de tudo, mas produtos orgânicos, naturais), faço exercícios, nunca fumei, bebo pouco – nunca gostei muito, e tenho um ótimo clinico geral, um ótimo ginecologista e uma ótima dermatologista. Além disso, um ótimo aliado para se estar bem é amar e ser amada!!!

Para encerrar… para te conquistar, basta… Ter senso de humor, ser inteligente, gostar de conversar, de rir e de sexo!!

Fotos Guilherme Lima

styling Samantha Szczerb

Beleza Guto Moraes

Agradecimentos Hotel Othon Palace

Deborah vestiu: Atelier Silvio Cruz, By Segheto, Cecconello, Corporeum, Duloren, Lybethras, Sara Jóias, Pop Up Brands, Schutz